A indisciplina escolar escancarada no contexto EAD

A indisciplina escolar escancarada no contexto EAD

Entenda porque um sistema de EAD (Educação à Distância) poderia ser desastroso!

Se existe uma afirmação que pode ser feita durante esse período de pandemia no contexto escolar é que o sonho do homescholling não é tão colorido assim.

Imaginando um recorte de cenário ideal em que todas as famílias tivessem as estruturas físicas mínimas como computador e internet, ainda restariam aqueles infinitos áudios que temos recebido pelas redes de desabafo de pais e avós enlouquecidos, vivenciando algumas realidades. Dentre elas, que ter conteúdo em mãos não torna ninguém professor e a eminente “indisciplina” dos nossos filhos e amiguinhos que acontece mesmo sob nossos olhos.

Educação bancária

O contexto EAD muitas vezes tem remetido ao modelo de Educação Bancária. Essa concepção tem a função de transmitir ao aluno, de forma mecânica, conhecimentos historicamente construídos por meio de seu principal agente: o professor. Neste caso, via online e apoiado por apostilas do outro lado da tela.

Assim, a relação entre ele e o aluno se dá de forma vertical, na qual o professor, considerado o único detentor do saber e em poder da palavra e o aluno que espera, passivamente, receber todos os ensinamentos. E quantas vezes os pais não orientavam meses atrás: “quero você sentado na frente, prestando atenção, aprendendo tudo que o professor ensinar!”

O papel da disciplina nessa concepção é fundamental. Nela, a obediência e o silêncio dos alunos são importantes para garantir que os conteúdos sejam transmitidos sem interferências externas. Por isso as salas de aula são organizadas em filas e os alunos distribuídos individualmente para que o professor possa vigiar o comportamento de cada um, apreciá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades e os méritos. Na EAD esse papel cabe aos responsáveis do estudante. Em casa parece ser algo bem mais fácil, não? Mas eis que mesmo com o professor na tela seu filho se perde nos pensamentos, o microfone dos outros colegas está aberto, um imita um “pum” e a aula vai abaixo, mesmo à distância e com a mãe ao lado. E o choro? O “tô cansado”, o “você é mentirosa porque eu já estudei muito e não fiquei inteligente”, o “pro, minha mãe não entende disso, tô com saudades de você”…

Esse menino só quer saber de Chaves, sabe todos os personagens, mas a lição não aprende, eu vou “desmatricular” ele e resolver o problema

Mas outra visão de (in)disciplina nos remete a uma concepção de educação que tem como principal objetivo a libertação do homem. É a Educação Problematizadora.

O diálogo deve ser ao mesmo tempo, ação/reflexão/ação, portanto práxis, pois, ao refletirmos e denunciarmos o mundo em que vivemos, agimos para a sua transformação. Enquanto prática educativa, o diálogo deve ocorrer numa relação horizontal em que tanto educador como educando buscam saber mais em comunhão.

A disciplina é pedagógica e entendida como organização, pois surge da autoridade e compromisso. A finalidade dessa disciplina é de ultrapassar os limites do espontaneísmo e do conhecimento como senso comum; por isso é pedagógica, colaborando com o desenvolvimento da autonomia intelectual e da autodisciplina dos alunos.

Não é o conteúdo, é o mediador

O papel do professor é importante como coordenador do processo educativo, usando da sua autoridade democrática, cria, em conjunto com alunos, um espaço pedagógico interessante, estimulante e desafiador, para que nele ocorra a construção de um conhecimento científico significativo.

As manifestações que na visão anterior eram entendidas como indisciplina e, por isso, aqueles que a praticavam deveriam sofrer punição, nesta são entendidas como democráticas e deverão, portanto, servir como subsídios para a “práxis”.

Desobendiência ou denúncia?

A educação infantil é um campo complexo quando se trata de indisciplina, pois é o período em que os valores estão sendo maior assimilados, levando-os para a prática da vida inteira. Como normalizar bebês tendo “aulas” por uma tela?
O ensino fundamental é um período de maturação diferente da educação infantil. Mas não menos pesado quando se trata de Educação à Distância, e os pais têm relatado isso.

As crianças da escola atual pertencem ao seu tempo específico em que não é mais cabível tê-las como miniaturas de adultos ou incapazes como em outrora.

Trata-se do clamor de um novo tipo de relação civil pedindo passagem a qualquer custo. Nesse sentido, a indisciplina estaria indicando também uma necessidade legítima de transformações no interior das relações escolares, por enquanto à distância, mas que trará mudanças no pós-pandemia.

A indisciplina diminui quando o que a criança faz tem sentido, quando ela sente-se importante com atividades que valorizem a criatividade, o respeito, a cooperação, a tolerância e a conscientização das nossas possibilidades como seres participantes na construção do conhecimento do mundo, em busca de uma sociedade mais justa e humana.

Vivian Alves

Vivian Alves

Vivian Alves é filósofa, diretora de escola e ativista pela esucação. Atualmente ocupa o mandado do Vereador Toninho Vespoli.

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