A Luta Contra a Fome! Entrevista com Susana Prizendt

Entenda como a fome pode ser combatida!

Com Bolsonaro e a pandemia a fome só cresce! Por isso, mais que nunca, é importante lutarmos contra fome, termos solidariedade. É também momento de reflexão sobre o que causa a fome, por que existe fome. E é com esses objetivos que surgiu a campanha Gente é Pra Brilhar Não Pra Morrer de Fome! A campanha resultará em um seminário dias 12 a 16 de outubro, e ainda em distribuição de marmitas nos dias 17 e 18 de outubro. Para saber mais sobre esse evento o Blog 2 Litrão entrevistou uma das articuladoras da campanha, a Susana Prizendt. Confira:

Blog 2 Litrão: Como começou o projeto Gente é pra Brilhar, Não Pra Morrer de Fome, e o que o projeto propõe?

Susana: Nasceu vindo de duas forças convergentes. Uma foi o movimento Banquetaço, que surgiu quando o Doria tentou criar a farinata, (uma ração para ser usada para alimentar a população mais pobre e como merenda escolar). O Banquetaço tem promovido manifestações contra essa e outras medidas que prejudiquem o direito à alimentação de qualidade para a população. Mas nossas manifestações não são convencionais, elas promovem banquetes públicos e, com isso, trazem uma luz de mudança. E essa luz é a partilha do alimento. Mas não qualquer alimento, traz um alimento produzido por agricultores familiares, respeitando a terra, e que são preparados por cozinheiros e chefes de uma forma muito diferente do que costuma ser oferecido à população, mostrando a riqueza de sabores da nossa natureza. Em cada banquete, chegamos a mobilizar 2 mil, 3 mil pessoas.

Quando o CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) foi extinto pelo Bolsonaro, em 2019, o movimento Banquetaço se tornou nacional e fizemos 44 banquetes simultâneos pelo país. Então essa rede é um dos componentes formadores da nossa campanha Gente é para Brilhar, Não para Morrer de Fome.

A outra força propulsora veio por parte de uma pesquisadora, historiadora e ativista contra a fome, a Adriana Salay. Ela procurou nossa rede e propôs a criação de uma ação contra o avanço da fome no país. Então pessoas e organizações que fazem parte da rede que luta pela soberania e segurança alimentar e nutricional se uniram para criar a campanha.

A iniciativa pretende usar esse momento, que é a semana mundial do dia da Alimentação, para estimular momentos de reflexão sobre tudo o que está acontecendo e trazer luz sobre os movimentos que já atuam no combate à fome, tanto politicamente, quanto nos territórios. Nós esperamos que a mobilização e a união de forças sigam para além da semana, desse momento pontual, para construir um outro modelo agrícola e alimentar.

Blog 2 Litrão: Por que existe fome no Brasil ?

A fome existe, primeiramente, por que ela dá lucro. Se desse prejuízo não existia. E este é um primeiro ponto. Segundo ponto é como esse lucro é gerado. O Brasil sempre teve uma estrutura de desigualdades sociais e econômicas, nunca fez uma reforma agrária nem enfrentou os danos causados pela colonização. E hoje, está voltando a ser apenas vendedor de matéria prima, está se tornando apenas um grande quintal da soja, milho e cana. E a nossa alimentação foi preterida. Iniciativas de pequenos produtores, como a agricultura familiar, foram boicotadas, enquanto o subsídio e incentivos ao latifúndio foram intensificados. Soma-se a isso o aumento da pobreza e da miséria. A desigualdade gera pobreza, e pobreza gera fome.

Mas nesses tempos houve o desmonte de programas alimentares como as compras feitas pela CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) e pelo PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e também uma redução de políticas distribuição de renda. Houve ainda um retrocesso em termos de leis ambientais. Nós precisamos de biomas equilibrados para sobreviver e plantar. Nada sem considerar o respeito à terra e sua teia de vida pode nos tirar da fome.

Blog 2 Litrão: Dom Hélder Câmara disse “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”. Você diria que iniciativas como a de vocês sofrem preconceitos similares?

A gente sempre foi taxado de comunistas. Mas em tempos recentes houve esse aumento da polarização. Essa estrutura de um país rachado, dividido, como se não pudesse haver nada entre um neoliberalismo intenso e um sistema que propõe o comunismo radical. As redes sociais acentuam esse racha. E é muito triste que a gente fique nessa polarização.

Mas o fato é que quem luta por políticas sociais no setor alimentar tem que ter uma relação contínua com coletivos de esquerda, por que o neoliberalismo em que vivemos está na raiz de questões como a fome.

Temos que mostrar a tragédia que o agronegócio está causando para o povo e a natureza. Mas temos que dialogar com toda a sociedade, com pessoas que não fazem parte de nossa rede. Por que no fim estamos todos juntos nessa. Todos corremos risco de vida. Só que, nesse diálogo, não podemos abrir mão da agroecologia, da preferência por um modelo sustentável e justo para nossa população.

Blog 2 Litrão: Olhando os apoiadores percebe-se um forte apoio de grupos que defendem a agricultura orgânica, como o MST e o Greenpeace. Por que se deu essa opção?

O que defendemos não é necessariamente o orgânico, por que para ser um alimento ser considerado orgânico é necessário ter um certificado de algum grupo qualificado para emitir selos orgânicos, o que custa algum dinheiro ou pode ser burocrático.

Na agroecologia a gente não trabalha necessariamente com certificados, mas sim com um processo, com a confiança e a busca por ampliar o acesso à terra e aos seus frutos. Trabalhamos com a conquista da soberania, para que quem cultiva tenha independência das corporações. Considera-se o clima de cada região, as condições ambientais e culturais de cada região. Na agricultura orgânica uma grande empresa poderia criar uma plantação de morango em uma região em que essa fruta não seja nativa e comercializar essa produção para uma elite econômica. Na agroecologia a gente tenta trabalhar com o que dá na terra, com o que é local, e sempre buscando os circuitos diretos de comercialização.

Blog 2 Litrão: Muito se fala hoje sobre a diferença entre segurança alimentar e soberania alimentar. Poderia explicar um pouco essa diferença? Como essa questão define a atuação do movimento?

A soberania é a capacidade de uma população de decidir como o alimento vai ser plantado, como ele vai ser vendido, preparado e comido. Parte da ideia de independência, o poder das pessoas de fazerem escolhas alimentares. Tem a ver com as características do local, com a cultura, com a espiritualidade. Segurança Alimentar e Nutricional é a garantia ao acesso a uma dieta adequada e saudável, direito que está na constituição.

São dois conceitos complementares, mas com a soberania a gente quer favorecer as escolhas da população. Atualmente, nós temos poucos mandando no que muitos comem. Quem decide o que a maioria come é, em geral, a grande indústria agroalimentar, os supermercados e as grandes corporações. Esse poder é usado para manter as desigualdades sociais.

Blog 2 Litrão: Alguns defendem os agrotóxicos argumentando que eles seriam necessários para alimentar a população. Como você vê esse tipo de afirmação?

A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida faz parte dessa Campanha Gente é para Brilhar Não para Morrer de Fome. Nós fazemos questão de deixar claro que os agrotóxicos não são a solução, são os problemas. Geram contaminação, poluição, devastação… O modelo do agronegócio é um modelo insustentável, que gera a devastação de nossos biomas. A produção que faz acaba com os nutrientes da terras em que planta. Então ele precisam sempre continuar a expandir e invadir as florestas. Na verdade acaba sendo o oposto do que os críticos dizem. Se continuarmos nesse modelo vamos acabar com as terras agrícolas, com os nutrientes, e então enfrentaremos uma catástrofe em termos de fome ainda mais grave.

Blog 2 Litrão: Em relatórios a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) tem já há anos comentando sobre a importância da agricultura urbana para combater a fome. De que forma você acha que isso poderia se dar em São Paulo?

Eu sou integrante do MUDA (Movimento Urbano de Agroecologia de São Paulo), que também está integrando a campanha. A gente trabalha a questão de reconstruir a relação entre a cidade e o campo. Nós entendemos que as praças, espaços públicos e periurbanos (áreas nós arredores do espaço urbano) tem potencial muito grande para contribuir para a produção de alimentos. Outras cidades como Amsterdam na Holanda, a cidade de Rosário em Buenos Aires, Belo Horizonte aqui no Brasil, estão fazendo coisas assim. Nós podemos criar hortas em lajes, terrenos vazios, praças. E também criar programas de hortas em escolas por todas as esferas, municipais, estaduais e federais. Há inclusive um grande potencial educativo. De mudar o olhar da criança, o entendimento de que comida é algo que a gente planta, de que o alimento é algo vivo!

Blog 2 Litrão: mandatos como o do Vereador Toninho Vespoli podem ajudar para acabar com a fome?

Nós temos várias cartas que organizações de SAN criaram para orientar os vereadores. No seminário que organizamos para o dia 15, apresentaremos algumas dessas cartas e propostas. É importante destacar que propomos o apoio à agricultura urbana e periurbana (Inclusive temos polos de agricultura periurbana na zona sul de São Paulo); ampliar a aquisição de alimentos da agricultura familiar pelo poder público, por exemplo, com a compra de comida para escolas e hospitais. Há uma lei prevendo que todo o alimento comprado para a Alimentação escolar seja orgânico até 2026. É importante quem está na Câmara pressionar para fazer isso acontecer. Também são importantes as políticas de incentivo à compra de orgânicos baratos pela população (como em sacolões orgânicos). Entre muitas outras propostas. Enfim, fica o convite para conhecerem as cartas e compromissos. E é fundamental manter um canal de comunicação sempre aberto os movimentos pela alimentação. Como tem sido o caso com o Toninho, por exemplo.

É importante falar que fizemos a campanha como uma mobilização inicial. A ideia é criar uma frente ampla e contínua com a sociedade no enfrentamento da fome. Não pode ser apenas algo momentâneo. Convidamos toda a comunidade para debater o modelo atual de produção, para construirmos uma outra alternativa, mais inclusiva, justa e em harmonia com o planeta.

Para saber mais sobre a programação do seminário da campanha Gente é Pra Brilhar Não Pra Morrer de Fome segue esse link! Para saber mais sobre a história da iniciativa, e sobre como ajudar na distribuição de marmitas acesse o site oficial do evento!

Gabriel Junqueira

Gabriel Junqueira

Gabriel Junqueira é jornalista, ativista e militante do Partido Socialismo e Liberdade. Atualmente estuda Direito e compõe Mandato Popular do Professor Vereador Toninho Vespoli.

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