Carlos: a personificação do "lixo social"

No último dia 6 fomos surpreendidos com a notícia da morte de Carlos Roberto, 39 anos, catador, em situação de rua de uma forma que já se tornou “clássica” entre a população mais marginalizada do nosso país: queimado enquanto dormia. Mais um triste episódio que ilustra a personificação do “lixo social”.

Segundo o prefeito Bruno Covas, a prefeitura está terminando um levantamento sobre a população de rua e indica um aumento de até 60% no número de pessoas nesta condição desde o último dado oficial (cerca de 15 mil pessoas em 2015), fruto da crise econômica. Outras fontes que atuam diretamente com o atendimento da população em situação de rua indicam que o número pode chegar até 50 mil pessoas somente na cidade de São Paulo.

 

Brasil registra mais de 17 mil casos de violência contra moradoresde rua em 3 anos
Dados do Ministério da Saúde

Uma história antiga…

Na nossa História alguns sempre foram tratados como lixo social. Não importa o espaço em que possam estar, são vistos como um incômodo. Uma mancha na “Cidade Linda”. Não se quer por perto, e com um agravante: é orgânico e vivo!

No Brasil, após a lei Bill Aberdeen (que proibia o tráfico negreiro), a maioria dos negros não eram empregados a cargo algum. E com a política de embranquecimento e gentrificação do Rio de Janeiro promovida por D. Pedro II, foram destruídos os cortiços no centro da cidade. Os negros e pobres se viram obrigados a subir os morros e a iniciar as conhecidas favelas. Termo esse, tido como ofensivo e definido como forma irregular de moradia que foge do padrão burguês de organização habitacional.

Na guerra contra o Paraguai, o Brasil encontrou uma boa serventia para o “lixo social” (mérito da primeira Cruzada que teve estratégia parecida): criou a política dos “escravos da pátria”, ou seja, aqueles que servissem o exército brasileiro na guerra (sem preparo militar algum) e retornassem vivos, teriam sua alforria. Como isso era lucrativo para os “donos” deles, que seriam indenizados, milhares foram mandados ao Paraguai, a grande maioria dizimada; 

Para onde vai o dinheiro?

E assim nos anos e séculos seguintes foi seguida uma mesma política de extermínio e invisibilidade dos que foram deixados às margens: uma pequena parcela populacional, direcionando atividades e vidas dos setores pobres. Para que a discrepância social permanecesse em espécies de castas, foi-se fazendo tudo às avessas. Instituíram educação pública apenas para os que já tinham condições de ter primeiramente professores particulares que os fizessem ser promovidos em provas admissionais (vestibulares), podendo assim ingressar na educação formal. Iam à Europa e voltavam como doutores. Isso foi sendo feito durante séculos e ainda temos ranços atualmente.

 

O município de São Paulo gasta cerca de 1500 reais por morador de rua por mês. Mas em meio a terceirizações e repasses, muito pouco do dinheiro chega a quem realmente precisa.

Dentre as várias outras políticas de marginalização social e cultural do nosso povo, trazemos como troféu uma das piores distribuições de renda do mundo. Também somos um dos povos que mais pagam impostos, estes, convertidos em benefícios incertos. Por exemplo, um levantamento da Comissão de Finanças da Câmara Municipal de São Paulo aponta que cada pessoa em situação de rua custa cerca de R$1500,00 por mês aos cofres públicos. É um funil em que sobra quase nada ao público-alvo, pois grande parte dos investimentos na ficam na mão das empresas terceirizadas.

Na prática, quase não se tem serviço da rede direta, somente um ou outro funcionário que atua no CRAS. As empresas recebem por abordagem, os acolhimentos são feitos de forma descentralizada. Não se pensa em políticas permanentes de direitos e manutenção da dignidade humana. Quantos banheiros e bebedouros públicos temos na maior cidade do país, por exemplo? 

Liberou geral!

A violência é generalizada contra a população pobre. Muitas vezes parte do próprio Estado na ausência de política pública ou na figura de seus agentes, que não são julgados nem condenados por crimes cometidos. Essa banalização reverbera numa oficiosa “liberação” para outras ações violentas, uma vez que nem mesmo o poder público se importa mesmo. Contra a população de rua serve matar por diversão, serve fazer a “limpeza com as próprias mãos” para defender a fachada, o patrimônio, o chocolate. Serve o chicote, o açoite com fio, o banho gelado na calçada, o escombro na cabeça, a internação compulsória, o subemprego, a bala em nome do belo.

Se for analisado a fundo cada um tido como “lixo social”, as histórias serão distintas, mas todas terão um “radical”, não como um fundo léxico comum, mas como fundo social comum, que envolve dinheiro e muita humilhação. 

Carlos, Galdino, Marta, Pedro são sujeitos de direitos, são pessoas, precisam ser ouvidos e representados. É necessário que se possa pensar em pessoas excluídas socialmente (gênero, social, racial ou quaisquer que sejam), como HUMANOS, que vivem, pensam, sonham, amam. Não são “saquinhos vazios”, tratados como entulho que enfeiam qualquer local em que possam estar. É preciso o respeito e é preciso o trabalho sério do Estado para que todos sejam reconhecidos e valorizados como cidadãos! Somente assim poderemos parar de lidar com a personificação do “lixo social”.

Vivian Alves Nunes

Vivian Alves Nunes

Vivian Alves é diretora de escola na Rede Municipal de Educação, historiadora, pedagoga e ativista. Atualmente faz parte da caravana da educação do Professor Vereador Toninho Vespoli.

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