Afinal, é a Educação à distância?

Viver em meio à pandemia colocou todos numa situação desconfortável de “xeque”. Não há precedente próximo em que se possa inspirar, não há formula, não há jurisprudência.

Por Vivian Alves

 

É possível que a Educação esteja no epicentro de pastas que sofrerão mudanças quando tudo isso passar. Há tempos se reflete entre os educadores o quanto esse modelo de Educação secular já não contempla em muitas coisas as necessidades da sociedade e o interesse dos estudantes.

Fazendo um anacronismo, se fosse possível uma pessoa do século XIX ser teletransportada aos dias atuais, provavelmente ficaria impressionada com a transformação das cidades, da tecnologia, os automóveis, descobertas da ciência e etc; talvez o único local em que se sentiria familiarizada no século XXI seria nas escolas (estruturalmente e em recursos). Do ponto de vista pedagógico, a pandemia veio escancarar e trazer desconforto a tudo isso! Mais de um bilhão de estudantes pelo mundo afora em quarentena.

O que fazer? Afinal a Educação se constrói a partir de relações, de trocas entre as crianças e adolescentes e das relações e mediação dos educadores que são permeadas de intencionalidade.

Trazendo para a realidade brasileira com uma das maiores desigualdades sociais do mundo e estreitando mais ainda para o Estado e a cidade de São Paulo que são exemplos explícitos de política educacional privatista e de sucateamento o desafio parece ainda maior. A cidade que consegue ter um dos maiores PIBs do país e ao mesmo tempo ter quase 30 mil pessoas vivendo nas ruas, cerca de 40% de seus estudantes sem acesso à internet, abrigar em seu território crianças que ainda têm a única refeição na escola e único abrigo contra o frio o uniforme escolar.

É consonância quase que mundial a importância de oferecer materiais aos estudantes nesse período de quarentena, mesmo que seja somente para que não percam o contato com o mundo letrado e não sofram grandes retrocessos no desenvolvimento. Quer seja via internet, canais de TV ou em materiais entregues em casa.

O “nó” chega na discussão sobre o direito à equidade ser ferido na medida em que todos não têm acesso aos mesmos recursos e suporte em casa e se seria “justo” computar esse período como letivo ou não.

O “nó” aumenta quando se pensa nos docentes que também não são familiarizados em suas práticas com o mundo tecnológico. De repente precisam prover por meios próprios equipamentos e banda larga que suporte a nova prática como se fossem influenciadores digitais, muitas vezes retomando modelos que reproduzem um formato de Educação mais conteudísta e “bancária”, mesmo que se trate da Educação Infantil.

Cobra-se que a prática empregada esteja diretamente ligada aos materiais que os estudantes estão recebendo em casa, mas não foram consultados no processo de elaboração do material para que em tempo pudessem construí-lo de forma a articular com os Projetos Políticos Pedagógicos e realidade local. Cobra-se das escolas e seus trabalhadores como se não existisse a pandemia, mas somente os prazos e os “resultados”.


O Conselho Nacional de Educação – CNE organizou diretrizes para as escolas durante a pandemia. Nele indica que poderão utilizar como tempo de reposição de aulas: o recesso do meio do ano (São Paulo já adiantou), sábados, férias, o contraturno e a ampliação de jornada.

Sobre esses dois últimos São Paulo de novo encontra dificuldade, pois com a quantidade de estudantes por sala e quantidade de prédios insuficiente para que este número seja reduzido, não há espaço físico para acolher as crianças por mais tempo nas Unidades.

O CNE autorizou os sistemas de ensino a computar atividades não presenciais para cumprimento da carga horária (800 horas). Este deve ser o caminho a ser seguido por são Paulo, uma vez que além da falta dos espaços físicos existe também a implicação que boa parte dos professores da rede acumula cargos legalmente e estão em efetivo trabalho mesmo à distância. É importante lembrar que o Ensino Fundamental exige o cumprimento de 75% da carga horária e a EMEI 60%.

Em meio a tantas mudanças, ansiedades, incertezas e cobranças, que não se percam os objetivos específicos da Educação Infantil, que não se perca o importante vínculo entre as escolas e famílias, que fique clara a importância do papel dos professores na sociedade, que conteúdo em mãos não torna ninguém professor e que a maior cobrança neste momento seja pela preservação da vida.

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