Auschwitz é aqui? O Brasil de 2022 e a necessidade de um novo pacto civilizatório

Genivaldo, Vila Cruzeiro e a necessidade de um novo pacto civilizatório

Bruno é filho de um oficial nazista que assume um cargo importante em um campo de concentração. Sem ter muito o que fazer, ele decide explorar o local e acaba conhecendo Shmuel, um garoto que vive usando um “pijama” listrado e está sempre do outro lado de uma cerca eletrificada. A amizade cresce entre os dois e Bruno passa, cada vez mais, a visitá-lo, tornando essa relação mais perigosa do que eles imaginam.

Shmuel consegue um “pijama” listrado igual ao dele e entrega a Bruno que atravessa a cerca e vai conhecer a rotina do amigo e explorar o outro lado. Durante a expedição dos garotos, em um dos barracões, a SS decide levar todas as pessoas de “pijama” listrado para uma câmara onde irão tomar “banho”. 

O “banho”, na verdade, é uma câmara de gás! Bruno e Shmuel, no meio de um monte de outras pessoas que se empurram e gritam pedindo socorro, se dão as mãos e são assassinados pelo regime nazista em uma câmara de gás. 

A descrição dos três parágrafos anteriores, se o leitor desse blog ainda não identificou, é de “O menino do Pijama Listrado”, o filme descreve os horrores dos campos de concentração nazista e a ideia de extermínio do povo judeu. 

As cenas finais deste filme vieram forte a minha mente quando no último dia 25 de maio, um vídeo de um homem sendo asfixiado com gás pimenta, por policiais, no porta malas de uma viatura viralizou nas redes sociais. 

 

GENOCÍDIO COMO POLÍTICA DE ESTADO

O caso de Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, é um retrato do Brasil em 2022 e da política de morte que está colocada em curso no país. Auschwitz é aqui! 

Genivaldo é mais uma vítima do Estado brasileiro que no dia anterior, 24 de maio, subiu a Vila Cruzeiro, Complexo da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, e assassinou mais de 20 pessoas. 

Genivaldo é mais uma vítima do Estado brasileiro que faz vistas grossas para o genocídio de povos indigenas por garimpeiros.

A morte de Genivaldo demonstra o sadismo do Estado brasileiro. Imobilizado e sem oferecer mais resistência, o homem que sofria de esquizofrenia, foi algemado e colocado no camburão da viatura da Polícia Rodoviária Federal, os policiais soltaram gás pimenta. Genivaldo foi asfixiado. 

Não bastasse matar o corpo, o Estado ainda tenta matar a reputação. Emitem notas, declarações e forjam boletins de ocorrência para dizer que Genivaldo teve um mal súbito e morreu a caminho do hospital ou ainda que apresentou resistência à prisão, por isso foi imobilizado com “técnicas modernas e tecnológicas”. 

O mesmo Estado, na Vila Cruzeiro, segundo notícias de veículos de comunicação e denúncias de moradores, torturou um homem antes de assassiná-lo, ou ainda, metralhou a casa de moradores, mesmo com os pedidos e gritos de que eram casas de moradores.

O Brasil vive uma epidemia de morte. 

A polícia, braço armado do Estado, não atua para proteger e salvaguardar a vida das pessoas, mas para perpetrar um massacre, um verdadeiro genocídio de pobres, pretos, povos indigenas e outras minorias do país. 

 

QUEM ALIMENTA ESSA POLÍTICA? 

Essa política é alimentada por uma turma que não veste farda, mas manda em quem veste. Prefeitos, governadores, presidente, senadores, deputados e vereadores. Políticos que usam de seus cargos para aplaudir e referendar essas ações. 

Essa política de extermínio é alimentada quando termos de guerra são usados para justificar operações urbanas. Ou quando após ações absurdas como as que vimos em Sergipe ou no Rio de Janeiro, o poder público emite nota para tentar justificar dizendo que quem morreu “reagiu” à polícia. 

Alimenta essas ações a grande imprensa, quando usa do expediente de que entre os mortos, um número X de pessoas tinham passagem pela polícia, como se isso fosse uma espécie de salvo conduto para que, à revelia da lei, penas de morte sejam executadas. 

Ao insistir na cantilena de excludente de licitude, o presidente da república e sua horda de apoiadores lunáticos alimentam essas operações e ações de morte. 

Cada cidadão que acredita e aplaude esses massacres e assassinatos perpetrados pela polícia, como se ações como essas, de fato, resolvessem o problema da segurança pública no país. 

 

UM NOVO PACTO CIVILIZATÓRIO 

Urge que o povo brasileiro faça um novo pacto civilizatório. Precisamos olhar para os mortos da Vila Cruzeiro, para Genivaldo, para os Yanomami e para centenas de outros brasileiros que são assassinados pelo Estado e dizer que não toleraremos mais corpos empilhados. 

É imperioso repensarmos que esse novo pacto civilizatório vai respeitar a Constituição e fazer valer a lei e o direito de todas e todos os brasileiro, principalmente os mais pobres e aqueles que há anos estão à margem da nossa sociedade. 

Esse novo pacto civilizatório precisa inverter a pirâmide de prioridades deste país, colocando em primeiro quem sempre esteve por último. 

 

 

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