Autor: Companheiro

Por que Paulo Freire é tão odiado pela direita?

A ideologia bolsonarista importa menos pelas ideias absurdas, e mais pelas ações que essas ideias desencadeiam.

Depois de ser preso e exilado durante a ditadura militar, Paulo Freire viveu o período democrático com consciência de que sua imagem esteve sempre moldada pelo contexto histórico. Em uma entrevista para a Folha de S. Paulo em 1994, menos de três anos antes da sua morte, ele afirmava quase profeticamente:

“Você veja o que é a história. Hoje diriam apenas que sou um saudosista das esquerdas. O discurso da classe dominante mudou, mas ela continua não concordando, de jeito nenhum, que as massas populares se tornem lúcidas.”

Com o enfraquecimento da democracia depois do golpe operado sobre Dilma Rousseff, e a subsequente volta dos militares ao poder, a imagem de um dos maiores educadores do Brasil tomou rapidamente outro significado. Afinal, por que Paulo Freire é tão odiado pela direita hoje?
Como bem apontado na sua frase anterior, quem compõem o discurso vigente é a classe dominante, sempre mantendo constante seu desejo por alienar as massas de tudo que lhe possa dar autonomia e liberdade. E até mesmo para pensar a educação, um processo que hoje é considerado intrinsecamente libertador, a classe dominante enxergava nela um instrumento para alienação.
John Locke, por exemplo, enquanto figurava como um dos idealizadores do ensino público — que hoje defendemos arduamente —, era também um grande investidor do tráfico de escravos. Liberdade para escravizar. Locke via no ensino público, garantido pelo Estado burguês, a possibilidade de sempre contar com qualificação mínima para transformar qualquer um em um bom trabalhador fabril.
A forma mais moderna desse mesmo pensamento é a paixão dos neoliberais pelo tal “ensino técnico”:

“Então essa tara por diploma superior não pode existir. É bom? Sim, vamos ter nossos mestres, nossos doutores, sim. Mas se você no Ensino Médio colocar algo técnico, você melhora nossa economia.”

Essa frase de Bolsonaro em entrevista à GloboNews, antes mesmo de virar presidente, é uma ótima síntese do discurso que promove a liberdade apenas para oprimir e ser oprimido.
Ainda no processo de reciclagem do fascismo brasileiro, grandes figuras como Olavo de Carvalho misturavam o método freireano para alfabetização com uma subjetiva frouxidão moral, característica do diagnóstico fascista para explicar os males da sociedade.
A possibilidade do professor aprender com o aluno, e incorporar sua realidade na didática, virou um sinal de fraqueza. Era nesse sentido que os bolsonaristas, com sua memória extremamente seletiva, criticavam a “Lei da Palmada” aprovada durante o governo Dilma, que proíbe o uso de castigos físicos ou tratamentos cruéis e degradantes contra crianças e adolescentes.
No final das contas, a ideologia bolsonarista importa menos pelas ideias absurdas e mais pelas ações que essas ideias desencadeiam. No caso, tornar mais passiva ainda a predileção da maioria da população por um ensino técnico- instrumental, destinado à formação de empregados para manutenção do capitalismo, além de fazer os jovens perderem qualquer deslumbre com a educação.
Mesmo quando um setor da classe dominante tenta reapresentar a história de Paulo Freire, o faz com argumentos subservientes, afirmando as obras freireanas como referências nos sistemas de ensino de países europeus desenvolvidos. O Itaú Cultural, por exemplo, fará uma mostra dedicada à vida do pernambucano, que durará até 5 de dezembro.
E não é por menos. Já que a inovação trazida por Freire é na verdade uma leitura do espírito de seu tempo. “Vygotsky, inclusive, me influenciou antes que eu o lesse, nós dizemos coisas parecidas sobre o procedimento da prática da alfabetização.” dizia ele na entrevista de ‘94 para a Folha.

A mudança de perspectivas entre a posição de professor e aluno, foi fagocitada pelo capitalismo mais avançado e regurgitada para estabelecer novos paradigmas entre marca e cliente, rede social e usuário. Os produtos, agora mais do que nunca, levam em consideração um pouco da nossa realidade para nos atingir em cheio.

Breno Queiroz

Breno Queiroz

Graduando em jornalismo pelo ECA USP e estagiário da equipe de comunicação do mandato do Toninho Vespoli.

Vidas Negras Importam!

Vidas Negras Importam!

Como são colocados os alvos nos corpos de crianças e jovens negros?

Escrevo este texto ao pensar em como as ações de pessoas brancas contribuem com o colocar destes alvos todos os dias. Duas mortes de jovens no Rio de Janeiro nos últimos dois dias ganham pouquíssima repercussão nacional, mas evidenciam mais e mais uma vez uma realidade que atravessa o peito e que reforça a urgência da ação antirracista: o genocídio de crianças e jovens pretos.

Mas como estes se tornam os corpos classificados como matáveis não só pelo Estado, mas pela sociedade brasileira privilegiada?
Para além de falar sobre a atuação precária e limitada da polícia (não só a militar), escrevo aqui para refletir como a sociedade civil branca contribui para que alvos sejam colocados dia a dia sobre os corpos destas meninas e meninos negros. Afinal, você branco ou branca, já parou para pensar como é construída esta realidade em que eles e elas são desumanizados, negligenciados e caracterizados como matáveis?

Além da necessidade óbvia de justiça nestes casos em específico, é urgente que toda a sociedade se responsabilize, principalmente brancos privilegiados como eu.

Quando um corpo negro é classificado como “matável”

Um corpo negro é classificado como “matável” toda vez que uma mesa de debates (mesmo as organizadas pelo campo do terceiro setor) exclui mulheres ou homens negros.

Um corpo negro é classificado como “matável” toda vez que um processo seletivo histórica e recorrentemente seleciona exclusivamente pessoas brancas (mesmo a população negra sendo a maioria no Brasil).

Um corpo negro é classificado como “matável” quando é visto como o outro, quando brancos e brancas continuam – mesmo que muitas vezes com uma suposta perspectiva solidária – restringindo-os a espaços de fala sobre diversidade, inclusão ou mesmo desigualdades.

Um corpo negro é classificado como “matável” quando uma pessoa nunca leu ou mal consegue lembrar de ter lido um livro escrito por uma pessoa negra

Um corpo negro é classificado como “matável” quando autores negros e negras sequer são lembrados enquanto pesquisadores ou cientistas pelas invenções que fizeram e revolucionaram a humanidade.

Não basta não ser racista. E preciso ser antirracista!

O que aconteceu com João Pedro, Ágatha, João Victor e muitos outros e outras não diz respeito somente à realidade das comunidades vulneráveis do país. O genocídio de crianças e jovens negros – que acontece todos os dias no Brasil – diz respeito ao que nós, brancos prioritariamente, escolhemos ou deixamos de escolher nos nossos espaços de privilégio e poder financeiro, político, social, acadêmico, cultural, etc.

Lembremos eu e você (brancos desta rede social) que é urgente ser antirracista sempre, mas principalmente hoje, agora! Uma luta de todo dia e em que devemos estar alertas, em ação contínua e permanente.

#RacismoMata #JoãoPedro #VidasNegrasImportam

Gabriel Maia Salgado

Gabriel Maia Salgado

Gabriel Maia Salgado é jornalista, especialista em sociologia e coordenador de projetos sociais

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