Bonitinhos, mas não inofensivos: os empresários e a educação como negócio

Publicado originalmente por Eliane Pinheiro no blog Caminho Suado

Como as organizações de educação geridas por grandes empresários entendem a pandemia como oportunidade de mercado

Em meio a nossa maior crise dos últimos anos e com um Ministro de educação que luta contra moinhos de vento, as respostas ao problema da educação durante e pós-pandemia é buscada em quem vê no apocalipse, oportunidade: são as organizações, instituições e fundações geridas por grandes empresários (Banqueiros, em sua maioria), que estão orientando como a educação deve reagir à crise. Todos, sempre, muito preocupados em “salvar a escola pública”.

Desde o fechamento das escolas, “grandes especialistas” em Educação, representantes de movimentos privatistas, são consultados e convidados a participar de programas de televisão, dão entrevistas em revistas e jornais. Esses “especialistas” em educação “de qualidade”, “sem ideologias”, “neutra” e “eficiente” são os nossos grandes conselheiros. O que ecoa no discursos desses especialistas, aqui e em outros países latinos e europeus, é a concepção consonante com as diretrizes do Banco Mundial para a educação. Está equivocado quem pensa que o pensamento liberal é manter o analfabetismo escolarizado. Com exceção da elite tacanha brasileira que ainda não superou a lei áurea e se ressente de não ter escravos, os capitalistas veem na educação o investimento em mentes criativas capazes de contribuir com a competição científica e tecnológica internacional (trabalho intelectual) e, na forma de ensino técnico, a formação de mão de obra para a produção de tantas outras mercadorias (trabalho braçal). Nas palavras de Andreas Schleicher (um dos responsáveis do relatório PISA), em entrevista publicada pelo El País, “O futuro dos nossos países depende da educação; as escolas de hoje serão a economia de amanhã”.

Desde os seus primórdios o liberalismo vê a educação como um braço forte da economia capitalista. Alfabetizados e alienados, esse é movimento liberal. Não precisa ser analfabeto para ser alienado. Doutores com consciência alienada existem aos montes!

O que não querem, a fim de se perpetuarem no poder, é que a Educação ensine além dos conteúdos técnicos, ou seja, que ensine os conteúdos científicos de maneira crítica de modo que os estudantes apreendam a realidade e se saibam com condições de transformá-la. Por isso a educação formal está no centro do debate hoje: além de ser um lugar para perpetuação das ideologias liberais pretensamente “neutras”, as escolas podem ser fonte de lucro. Quando defendem escolas públicas, não necessariamente defendem que a mesma seja gerida pelo Estado. Apostam nas parcerias e terceirizações: acesso gratuito ao povo, dinheiro público para o setor privado.

O capitalismo precisa vender mercadoria para se manter. Então novos produtos são criados a partir das necessidades existentes (e as próprias necessidades também são criadas pelo capitalismo). Quando se mostram solidários aos docentes quanto ao excesso de trabalho burocratizado e à formação fragilizada, propõem como solução as formações oferecidas pelos seus institutos e fundações, e a gestão da burocracia escolar… bem que poderia ficar por conta deles também! As escolas precisam de tecnologias, diários de classe virtuais, plataformas para educação à distância ou “apenas para apoio das aprendizagens”? Olha só, suas empresas têm! Se as escolas públicas estão afundadas em violências, adoecimento docente e discente, já está a venda o novo produto: habilidades sócioemocionais. Há um clamor contra o racismo, a misoginia, a desigualdade de gênero? Ora, isso não é problema para eles: criam materiais de inclusão, falam em valorização do preto, da mulher, da pessoa com deficiência… Produtos, é o que não falta: projetos de cultura e esporte, premiações, incentivos… Em material recentemente publicado pela UNESCO, os autores dão a deixa do quanto a Educação Pública é a mina do tesouro:

“Sob a designação genérica de “educação” as escolas facultam, na realidade, uma gama muito grande de serviços, que podem incluir instrução, mas também alimentação, instalações desportivas e aconselhamento psicológico e vocacional. Muitos destes serviços paralelos podem ser contratados a firmas privadas; afinal, os alunos e suas famílias estão mais preocupados com a educação que recebem do que com quem a provisiona. Se os prestadores privados se revelarem mais eficientes, então os governos poderão querer encorajar esta opção. Esta poderá ser a abordagem mais frequente e menos polêmica da privatização da educação. Dado que há um número elevado de serviços prestados pela escola que não são diretamente educativos, surgiram já várias companhias que fornecem manuais, alimentação, transportes e serviços de limpeza às escolas. Na década passada, criou-se nos EUA um novo mercado na forma de “Organizações de Gestão Educativa” (OGEs) que fornecem serviços de gestäo as escolas (como avaliação dos alunos, serviços de contabilidade e administraçâo), permitindo as autoridades locais educativas concentrarem-se na educação sem se preocuparem com a merenda ou o transporte escolar”. (Belfind e Levin, 2002, p.25)

Os “grandes especialistas”, não sejamos ingênuos, não defendem o mesmo que nós: escola pública estatal de qualidade. Falam em igualdade, liberdade e fraternidade sem jamais denunciar quem se alimenta da desigualdade, da exploração e da alienação em suas diversas formas. Em seus belos discursos, esquecem de dizer: liberdade para quem? Igualdade entre quem? Fraternidade do Estado para com o Mercado? Liberais podem tranquilamente falar contra o racismo e a desigualdade de gêneros. O que não poderiam, jamais, é denunciarem quem lucra com o racismo e com a desigualdade de gênero. Sabemos que o sistema que eles buscam preservar se mantém na exploração, no individualismo, na competição, na desumanização. Bonitinhos, não inofensivos.

Por Eliane Pinheiro

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