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O SUS sonhado por Sérgio Arouca

O SUS sonhado por Sérgio Arouca

Hoje 7 de Abril de 2021, dia mundial da saúde, em meio a maior pandemia da história da Humanidade, com cerca de 2,87 milhões de mortes e com mais 131 milhões de pessoas que foram contaminadas pela Covid-19 em todo mundo até o presente momento. O dia simbólico da saúde nos traz a reflexão de que o sistema capitalista e sua velocidade do lucro estão em choque mediante a uma catástrofe mundial.

Pensar em saúde é muito além do que pensar em assistência médica e leitos hospitalares, mas também reflete pensar em prevenção e promoção em saúde. No Brasil o Sistema Único de Saúde, criado através da Constituição Cidadã de 1988, aonde foi garantido saúde como um direito e não um privilégio de quem pode pagar, através da luta popular e da reforma sanitária, mudou se o conceito de saúde para os brasileiros.

SUS é patrimônio nacional!

O SUS é um patrimônio do povo brasileiro, é fruto de muitas lutas sociais contra os interesses capitalistas que visam saúde como um produto de mercado e não como um direito humano. Mas é óbvio que esse sistema de saúde não está completo, seria total incoerência com a realidade fazermos aqui essa afirmação, porém mesmo sabendo que este sistema está em construção, as suas raízes são estruturas fortes que resistiram e resistem até hoje. Grandes nomes da saúde pública lutaram e lutam até hoje em defesa do SUS. Daqueles que foram a base de uma reforma sanitária no Brasil, não podemos deixar de citar o grande mestre Sérgio Arouca, médico sanitarista que dedicou a sua vida na construção de políticas públicas voltadas a saúde e em seu discurso histórico na 8° Conferência Nacional de Saúde, realizada entre 17 a 21 de Março de 1986, faz aqueles que sonhavam por um sistema público de saúde que atendesse a todos sem exceção, a sonharem e lutarem por saúde como um direito de todos.

Foto do mestre Sergio Arouca

De lá pra cá muitas coisas aconteceram, mas mesmo em meio as tempestades o SUS sobrevive até hoje, muitos daqueles que lutaram naquela época já não estão mais entres nós, mas enfim isso faz parte do viver, mas muitas novas lideranças se formam a cada dia. O orgulho de ter um Sistema Público de Saúde ainda é muito acanhado em nossa sociedade, e não daria para pensar diferente diante de tantos ataques durante sua existência, hospitais cheios, falta de profissionais, insumos, condições precárias de estruturas e por aí vai. Mas de fato essa é uma luta que mexe com os interesses do grande capital e sua busca por mais lucros, mesmo que seja com vidas que necessitam de socorro imediato, não tem limites.

Por um SUS para todos os brasileiros!

Pelos nossos grandes mestres e pelas nossas famílias, continuaremos essa luta em construir um SUS para todos, continuaremos esse sonho lutando por uma sociedade mais justa e igualitária, aonde pessoas tenham mais valor, do que as coisas. Hoje em meio a todo esse caos é o SUS e os seus profissionais que são responsáveis por garantir a assistência de saúde para mais de 80% dos brasileiros, imaginem se tivéssemos o SUS? Quantos mortos não teríamos a mais? Tá eu sei, não tá fácil mais de 4 mil mortes em um período de 24hs é assustador, mas tenho plena certeza que se não tivéssemos o SUS, teríamos muito mais.

A todos aqueles que sonharam e sonham por um SUS cada dia melhor, dedicamos esse dia mundial da saúde, gratidão Sérgio Arouca e a todos os reformistas, movimentos sociais e políticos, muitas vidas foram e estão sendo salvas por esse projeto em construção chamado SUS.

As opiniões presentes no texto não necessariamente refletem as opiniões do Vereador Toninho Vespoli

Douglas Cardozo

Douglas Cardozo

Douglas Cardozo é Economista e Consultor em Saúde do Mandato Popular do Professor

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Reflexões do Grupo JUPIC (S. Paulo Apóstolo IV Centenário) sobre o Cuidado com a Casa Comum

São Paulo, 17 de setembro de 2020

O Homem é a mais insana das espécies. Adora um Deus invisível e mata a natureza visível

Sem perceber que a Natureza que ele mata é o Deus invisível que adora.
Hubert Reeves

Nós, integrante do Grupo JUPIC (Justiça, Paz e Integridade da Criação), da Paróquia São Paulo Apóstolo, Região Belém, reunidos em 14 de setembro de 2020, rezando e refletindo sobre as queimadas ilegais e o desmatamento, a realidade dos povos indígenas e outras agressões as nossa Mãe Terra, resolvemos externar a nossa indignação e soltar o nosso grito de SOS, por meio deste documento.

Estamos vivendo de 01/09 a 04/10 o Tempo da Criação, onde somos convidados a refletir que todos somos filhos e filhas da Terra. Mais ainda, como humanos, somos a própria Terra em seu momento de sentimento, de pensamento, de amor e de veneração, e, portanto, temos o compromisso de Cuidar da Casa Comum com responsabilidade, pois tudo está interligado!

Mas, infelizmente, nos colocamos na contramão deste compromisso e estamos colocando em risco não somente as vidas futuras, mas todas as formas da vida presente. Nos alerta a Carta Encíclica Laudato Si, 8: “Quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para a mudança climática, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas úmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar tudo isso é pecado. Porque, um crime contra a natureza, é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus”.

“Estas situações provocam gemidos da irmã terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, como um lamento que reclama de nós outro rumo. Nunca maltratamos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos”. LS 6

No Brasil vivemos um total descaso com o cuidado da Casa Comum. Tem aumentado demasiadamente o desmatamento, nossa casa está pegando fogo, em função de tantas queimadas criminosas. Quantos pássaros não poderão mais voar? Quantos animais não poderão mais correr, pular? Quantos peixes não poderão mais nadar? Quanta água contaminada? Quantos indígenas assassinados e sem a floresta? Quantos ribeirinhos sem trabalho? Quantos pessoas sem qualidade de vida? Quanto ar poluído? Quanta fauna e flora destruída?

Lamentamos e denunciamos o silêncio cumplice governamental. A omissão deste governo com a preservação do meio ambiente incentiva a queimada e o desmatamento ilegais. O sangue corre em suas mãos, como correu na mão de Caim que matou Abel. Gen, 4,10. É preocupante quando o centro não é a vida, mas o mercado pautado no lucro a qualquer custo. E em nome do lucro se mata, se vende, se cala, se corrompe, não se implementam políticas públicas, não se homologa a terra dos povos originários, não se faz a Reforma Agrária, e muitos ficam impunes diante de tantas atrocidades cometidas. Até quando o dinheiro estará acima da vida?

Queremos outra Economia, outra de verdade, radicalmente alternativa, não simplesmente de “reformas econômicas”. A Outra Economia não pode ser somente econômica. Há de ser integral, ecológica, intercultural, a serviço do Bem Viver, na construção da plenitude humana, desmontando a estrutura econômica atual que está exclusivamente a serviços do mercado total, homicida de pessoas, genocida de povos, destruidora da Casa Comum.

Quando morrer a utopia, quando morrer a utopia, toda canção, toda paixão, morrerão.
Quando morrer a utopia, quando morrer a utopia, terra e céu, tombarão.
Quem cuidará das estrelas, quem velará pelas flores, no coração em nosso chão? Quando morrer a utopia?

Conclamamos a tua solidariedade para que na solidariedade universal possamos resguardar todas as formas de Vida.

Exigimos da esfera governamental atitudes concretas que possam barrar os crimes ambientais e medidas emergenciais, com o uso de todos os recursos necessários para apagar os incêndios que destroem, neste momento, a Floresta Amazônica, o Pantanal e outros biomas brasileiros.

Exigimos dos demais poderes da república e das forças políticas, religiosas e sociais deste país posicionamentos firmes que levem as autoridades públicas a extrapolarem o normal e fazerem o extraordinário, para alterar o atual quadro de morte de nossa fauna, flora e dos povos indígenas.

Solicitamos de cada cidadão e irmão cristão a atitude de encaminhar este documento aos parlamentares, autoridades públicas e religiosas que possam interferir para a mudança do cenário atual.

“Nossa Senhora de todas as dores! Lava em tuas lagrimas a fumaça que nos sufoca e liberta o voo que nos roubaram! Que não nos anestesiem para que encaremos, lúcidos, o atiçador do irmão fogo”

 

Abraços fraternos !

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Padre Norbert H. C. Foerster

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Liz Mari da Silva Marques

 

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Flariston Francisco da Silva

JUPIC - Paróquia São Paulo Apóstolo -  IV Centenário

JUPIC - Paróquia São Paulo Apóstolo - IV Centenário

Neiva do céu e a falocracia do pau ideal: existe diversidade biológica também!

Existe Diversidade Biológica!

Entenda a importância de se reconhecer a diversidade sexual!

Por Luiza Coppieters e Carolina Iara de Oliveira

Um dos momentos de maior orgasmo da população brasileira em 2019 foi o aclamado áudio “Neiva do céu”. Nele, uma mulher cisgênera narra a sua amiga o encontro com um belo homem que, ao levá-lo para casa, narra sua história de sofrimento por ter um micropênis. A amiga de Neiva conta, estupefata, sua surpresa ao se deparar com um homem tão bonito mas com um falo tão pequeno. Como pode? De onde viria essa incongruência?

Ela, uma mulher sozinha, que não conseguia arrumar parceiro, encontra alguém em um aplicativo de encontro, não um alguém qualquer, mas um belo homem que, para sua surpresa, aceita encontrá-la – e vai até sua cidade para vê-la! -, acreditou que poderia conseguir uma boa sessão de prazer encontrou um homem destroçado. Uma pessoa que se abriu à primeira pessoa que lhe pareceu disposta a ouvir-lhe e, pela narração, aos prantos contou sobre sua ausência de vida sexual e de vida afetiva.

“No oceano da ignorância global, emerge (…) a “verdade” de que há apenas duas genitálias”

Para gozo nacional, o pinto pequeno do sujeito e a forma como foi narrada a história, bem característica do modo de ser brasileiro, o áudio se espraiou, Neiva e a autora do áudio foram descobertas e se tornaram famosas, sendo convidadas para programas dominicais. Do “sujeito do pinta” nada se sabe. Inclusive se ainda está vivo.

Na ausência de debate nacional, em que se mistura religião e XX/XY (algo como se fosse preencher jogo lotérico) pouco se fala sobre as diversas formas de genitália. No oceano da ignorância global, emerge como um iceberg a “verdade” de que há apenas duas genitálias. Assim como existem o Sol e a Lua, o fogo e a água, existe O pênis e A vagina. Não se pretende, aqui, levar o debate à seara religiosa, a qual, ao se esgotarem os dogmas, logo afirma-se as entidades XX e XY. 

Mantendo o debate no campo estritamente científico e da realidade, e com o intuito de lançar luz sobre o tema, é de fundamental importância trazer algumas informações sobre a existência de pessoas intersexo, que pode representar, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 2% da população mundial. Precisamos falar de pessoas intersexo e da diversidade biológica dos corpos para evitar não só as cirurgias na infância, mas também o suicídio dessa população.

“existem mais pessoas intesexo que pessoas ruivas”

A Natureza é muito mais diversa, ampla e variada do que a vontade de alguns. E os corpos humanos, no que diz respeito ao sexo (à genitália, não à prática) depende de quatro fatores: cromossomos, gônadas, hormônios e os caracteres secundários. A partir da combinação destes quatro fatores, o ser humano pode, então, ter 43 tipos possíveis de sexo biológico, o que pode envolver diversidade na genitália, no sistema endócrino, nos órgãos internos reprodutivos e gonadais. Serão necessários, pois, muitos tons de azul e rosa. 

É tão comum a existência de pessoas que estão entre os dois parâmetros tidos como certos – portanto entre os outros 41 tipos de sexo possíveis – que existem mais pessoas intesexo que pessoas ruivas. A proporção é de 1 para 3.000. Ou seja, se você viu alguma pessoa ruiva hoje, certamente você já cruzou com pessoas intersexo. E mais certamente ainda elas não sabem que são intersexo.

“No mais das vezes, (…) muitas crianças têm sua genitália mutilada”

Além disso, existe uma relação de poder que subjaz e sustenta o mascaramento da realidade. Existe uma régua chamada falômetro, utilizada pelos médicos para medir o tamanho do falo do bebê ao nascer. Dependendo do tamanho, o médico ou uma junta médica se apresenta à mãe – após o parto – para dizer que o bebê tem um “problema” e que eles irão “consertar”. Conseguem imaginar a cena? No mais das vezes, como é mais fácil construir uma vagina do que um pênis – seja por falta de tecnologia ou por excesso de ideologia -, muitas crianças têm sua genitália mutilada e algumas ficam com dores na região íntima para o resto da vida, com dificuldades de urinar e fazer sexo. Todavia, também há casos de intersexos que nascem com grande quantidade de massa muscular peniana, mas com alguma ambiguidade genital, gonadal e endocrinológica, o que faz com que essas crianças sejam submetidas a cirurgias e mais cirurgias para a construção de um pênis esteticamente “viável” para os padrões pré-estabelecidos pela sociedade.

Resumindo, alguém que veio ao mundo do seu jeito é tido como errado por não se enquadrar no padrão estabelecido e assim tem seu corpo modificado segundo padrões médicos (e sociais) e passa a ser educado dentro dos padrões de gênero que a junta médica determinou ao (tentar) construir a genitália padronizada. Importante ressaltar que muitas vezes são necessárias muitas cirurgias, que irão fazer parte da infância e adolescência dessas pessoas. 

“Entender as pessoas intersexo e a sexualidade humana é também a chave para entender as pessoas trans”

Sem falar que certas cirurgias são fracassadas, fazendo com que essas pessoas tenham problemas para o resto da vida. Outra coisa fundamental: os prontuários médicos, onde estão as decisões tomadas pelos médicos e os processos cirúrgicos, no mais das vezes são escondidos dessas pessoas, devido ao protocolo do psicólogo Money, ainda referência para parte da medicina ocidental no manejo da intersexualidade: consiste basicamente em esconder a história e as cirurgias dessa criança, para forçá-la a crescer com um gênero imposto pela sociedade e, assim, socializada naquele gênero ela se sinta inserida. A alegação? Para que não sofram. Mas tudo o que mais acontece na vida das pessoas intersexo é o aumento de sofrimento, principalmente quando há a descoberta dessas intervenções cirúrgicas, hormonais e sociais.

A ignorância, sabe-se, é a mãe de muitas violências. As pessoas intersexo foram ignoradas socialmente. Pelo poder médico, elas são brutalmente aniquiladas, sendo obrigadas a se enquadrarem no padrão A ou Z. Os poderes legislativo e jurídico referendam essa prática ao admitirem que existem dois sexos apenas. Enquanto isso, pessoas são mutiladas, obrigadas a viver vidas que não são as suas, além de serem privadas de vida afetiva e sexual.

Entender as pessoas intersexo e a sexualidade humana é também a chave para entender as pessoas trans, a necessidade de cirurgia de confirmação de gênero e para enxergar o mundo com todas suas cores, não só azul ou rosa, acabando com a falácia do “essencialismo biológico”, tão defendido por alguns para se contrapor à existência da transgeneridade. 

E mais do que isso: segundo algumas cientistas sociais como Anne Fausto-Sterling, para se manter o sistema de gênero é necessário também moldar socialmente o sexo biológico. E verifica-se que as discussões sobre diversidade sexual e de gênero avançaram nos movimentos sociais, na História contemporânea, quanto a questões socioculturais de comportamentos e subjetividades identitárias, mas pouco ainda se fala sobre uma disputa urgente: a do reconhecimento da diversidade biológica dos corpos. Que existe muito mais nuances de sexo biológico do que a vontade teocrata ou eugenista deseja. 

Este é um texto de opinião de um(a) autor(a) convidado(a). As opiniões aqui presentes não necessariamente refletem as visões do vereador Toninho Vespoli, ou de sua equipe.

Luiza Coppieters

Luiza Coppieters

Luiza Coppieters é uma professora de Filosofia, militante LGBT e feminista brasileira

Carolina Iara de Oliveira

Carolina Iara de Oliveira

É mulher intersexo, integrante do coletivo Loka de Efavirenz, e da ABRAI (Associação Brasileira Intersexo)

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O palhaço triste: Reflexões sobre a obra de Adoniran Barbosa

Por André Luiz Barbosa da Silva

Texto republicado do site portal disparada, no link: https://portaldisparada.com.br/cultura-e-ideologia/palhaco-triste-adoniran-barbosa/

Em plena uma quarta-feira de cinzas chuvosa fui ao cinema assistir um documentário sobre samba, na verdade, mais especificadamente sobre João Rubinato. Aquele que Antônio Cândido descreveu como “lírico e sarcástico, malicioso e logo emocionado, com o encanto insinuante da sua anti-voz rouca, o chapeuzinho de aba quebrada sobre a permanência do laço de borboleta dos outros tempos, ele é a voz da Cidade”. Quem é paulista talvez já tenha sacado quando da ‘voz rouca’. O homem que fez o trem das onze e saudosa maloca, dentre outras canções que retrataram aquela São Paulo que ainda existe nas ruínas do “violento progresso”.

São quase 11 (onze) horas de uma quarta-feira de cinzas e não me contenho em fazer esse convite para que todos assistam o documentário do diretor Pedro Soffer Serrano “Adoniran, meu nome é João Rubinato”.

Um filme que não só retrata a vida da estrela principal, Adoniran Barbosa, mas que também, de modo inescapável, uma vez que falar desse grande sambista é falar da terra da garoa (chove em São Paulo nesse exato momento), faz pensarmos nesse solo que habitamos, dessa selva de Pedra que Rubinato viu crescer e que Adoniran narrou em seus versos certeiros, mais certeiros que a ‘frechada desse seu olhar’.

Dentre as histórias, muitas podiam ser apenas estórias, duvidosas, com várias versões, não se sabe ao certo, apenas que, como dizia Adoniran “É tudo verdade”. No entanto, nada disso importa, pois como disse Fernando Pessoa em seu poema “autopsicografia”: “[o] poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Adoniran era um poeta!

Um poeta das mazelas sociais, da tristeza que o povo sofria e continua a sofrer. Da ordem de despejo, ao sumiço dos amigos e da mulher amada, à morte de Iracema até a pouca comida na mesa. No entanto, não nos esqueçamos que estamos falando de Adoniran Barbosa, que além de poeta tinha também um pouco de palhaço, ainda que triste, ainda que chore, um palhaço que com toda sua acidez arrancava risos daqueles personagens que ele próprio narrava, um riso doído, sarcástico, mas ainda riso. E talvez esta seja a importância do artista popular, transformar o sofrimento em arte, em poesia, não promovendo a aceitação, mas sim a denúncia, a indigestão dos poderosos. Tão é verdade que em seu enterro, como apresenta logo de início o documentário, nenhum figurão político, prefeito, nada; apenas os amigos, as pessoas comuns dos botequins daqueles bairros que frequentou.

João Rubinato, descendente de italianos, Adoniran Barbosa, brasileiro paulistano fez o inimaginável. Com sua “anti-voz”, seu timbre rouco e seu mau-humor engraçado, contou as histórias da cidade em crescimento, ou como ele mesmo disse, em constante mudança, narrou o mundo que se apagou sob seus olhos, contou a dor fingida que deveras sentia.

Adoniran Barbosa, retratado com um vasto arquivo de imagens, um prosador, contador de histórias e de piadas, artista completo, engraçado, dramático, músico e ator, alegre e triste, resultado de uma miscigenação cultural, que o grande crítico literário Antônio Cândido expressou do seguinte modo: “A sua poesia e a sua música [de Adoniran] são ao mesmo tempo brasileiras em geral e paulistanas em particular”.

Cômico e trágico, o documentário tem essa faceta, alcança com os arquivos disponíveis os dois níveis que se misturam nas composições de Adoniran, como Luiz Zanin sinalizou: “Um mergulho nos meandros dessa cidade triste”. Um mergulho nos registros do palhaço triste, que com sua simplicidade de narrativa alcançava a todos e realizava uma crítica implacável a modernização, ao dito progresso desmensurado que criava prédios e mais prédios, enquanto enxotava gente, gente essa que tinha e ainda tem fome, sem teto e sem abrigo. Adoniran com suas tristezas fazia samba e com suas músicas oferecia a essa gente um abrigo na história

Enfim, lanço o convite para assistirem ao excelente documentário

Este é um texto de opinião de um(a) autor(a) convidado(a). As opiniões aqui presentes não necessariamente refletem as visões do vereador Toninho Vespoli, ou de sua equipe

André Luiz Barbosa da Silva

André Luiz Barbosa da Silva

Meu nome é André Luiz, sou estudante de Direito. No entanto, como bom marxista que faz essa graduação, sou enamorado pela Filosofia. Faço parte do Grupo de Pesquisa "A Crítica do Direito e a Subjetividade Jurídica: Sujeito e Sujeito de direito no Debate Marxista e Pós-Marxista Contemporâneo" (Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Universidade de São Paulo), coordenado pelo Professor Dr. Alysson Leandro Mascaro. Meus interesses de pesquisa estão na Teoria Crítica Frankfurtiana, novas leituras de Marx, psicanálise, literatura e cinema.

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