Educação

REFLEXÕES/CONSIDERAÇÕES E AÇÕES – PERÍODO DE SUSPENSÃO DE ATENDIMENTO/ATIVIDADES, DEVIDO A PANDEMIA DO COVID 19.

Conheça as trilhas da aprendizagem! E entenda como a educação pode ir para além das salas de aula

Isso tudo nos pegou de surpresa, estamos com medo e inseguros, diante de uma situação que não conhecemos e nem sequer, podemos recorrer a quem conhece, pois, ninguém na face da terra conhece de fato.

Talvez, nunca soubemos tão pouco sobre o que está por vir; assim, tudo que pensamos e falamos é: “Vai passar…”, e de um jeito ou de outro, vai mesmo.

Vale dizer, que o que estamos passando deixará marcas, memórias e lembranças, algumas muito boas, outras nem tanto, deste modo, consideramos que tudo depende de quem somos, de como enxergamos o mundo, de como nos conectamos uns com os outros, depende dos nossos recursos, das nossas concepções, das nossas limitações, assim como depende das nossas habilidades, dos nossos medos e das nossas ousadias.

Depende do que estamos dispostos a fazer durante este período, quem temos auxiliado e quem temos do nosso lado, oferecendo ajuda. Depende de como anda nossa paciência com as pessoas no supermercado; àquelas que insistem em se aproximar, mais do que o recomendado, e principalmente, de como está nosso entendimento de que nós mulheres/professoras, estamos carregando: o peso da administração da casa, dos animais, dos maridos, dos filhos, das plantas, dos nossos pais e/ou dos irmãos em nossas “costas largas”; sempre tão largas.

Para muitas mulheres estar em casa é também trabalho

Talvez os maridos estejam em home office, enquanto muitas de nós (a grande maioria na educação), trabalhando em casa, estamos em ”home-tudo” (sem ter no momento, a pretensão de tentar consertar, o que é uma luta há séculos), mas é fato, que entre tantos outros motivos, isto pode estar nos cansando e nos confundindo, pois não sabemos trabalhar sem o barulho das nossas crianças, sem administrarmos os conflitos existentes nas turmas de estudantes, sem olharmos cada um dos trinta e cinco como únicos, e identificarmos se estão felizes, animados, tristes, desanimados, receptivos ou tímidos.

Podemos neste momento sugerir, que o que mais faz falta no nosso fazer é trabalharmos o famoso “Currículo Oculto”, onde não há palavras que possam definir a diversidade e o encantamento que existem nas relações com os pequeninos, em suas descobertas, aprendizagens e reações. Professora é sim, um ser que fala com o olhar, que enxerga com o ouvido e que fala com o coração, no melhor sentido da palavra. Por estes motivos, que o nosso cuidado em não nos descaracterizarmos seja redobrado, durante esta separação social, à qual não escolhemos e muito menos provocamos.

Há poucos dias, tínhamos um espaço físico para trabalharmos, horários definidos, uma rotina para pensar nas crianças em suas especificidades, e para a partir delas, dos seus interesses, dos seus saberes e curiosidades, planejarmos nossas ações e nossos projetos de trabalho pedagógico.

Atualmente e por enquanto, temos um lugar de encontro que se chama Zoom, um canal de comunicação que se chama Facebook, um material que irá nortear o nosso trabalho e que se chama: Trilhas de Aprendizagem.

Sobre o Trilhas:

Ah, por que não nos consultaram antes? Teríamos pensado em tão boas ideias, possivelmente mais econômicas e mais eficazes para dialogar diretamente com as nossas crianças. Bastaria um bom livro de literatura infantil e um pequeno kit de brinquedos, contendo uma cordinha, uma peteca, um pião, uma bolinha, uma panelinha com colherinha, um carrinho, alguns papéis de diferentes tamanhos e texturas, cola, tesoura, lápis pretos e coloridos, fitas adesivas e giz de cera, ou seja, um pequeno kit-criatividade, mas enfim, o que está feito, feito está.

Contudo e infelizmente, era preciso rapidez para dar alguma resposta à sociedade letrada e ansiosa para saber como ficaria a situação escolar e assim, não houve tempo para pensar no que nossos pequeninos, de fato precisam, sobretudo, houve uma desconsideração no que se refere a uma infância com repertório próprio e com uma cultura própria, a quem o adulto acostumou-se a olhar de cima para baixo, mas então que passemos a analisar com profundidade o conteúdo proposto no Trilhas, que a nosso ver, dialoga até certo ponto com a família, como está posto.

Qual família?

Na nossa interpretação:

  • A família que tem endereço de fácil localização;
  • A família que consegue ler e interpretar os bilhetes que a escola envia, sem perguntar para Professora o que é, ou aquela que depois de ler o bilhete, não liga para a escola e pergunta do que se trata;
  • A família que lê textos no Facebook com mais de quatro parágrafos;
  • A família que tenha pelo menos um membro, que compreenda o papel da escola de Educação Infantil e ao folhear o Caderno/Trilhas, não irá questionar: a falta de desenhos prontos e estereotipados para serem pintados, os perversos traçados a serem contornados, os desenhos com copas de árvores para serem preenchidas com papel crepom verde colado em formato de bolinhas, bem arredondadas de preferência. Fazeres que pouco ou nada acrescentam para os pequeninos, pois eles os fazem sem nenhum desafio ou fazem, sem nada compreender e com interesses focados em outras coisas, como por exemplo: chamar atenção da professora ou do colega.
  • Família que tenha uma casa boa e confortável, com uma sala ampla, tapete aconchegante e uma enorme TV 32’ para mais, como traz a ilustração do Caderno Trilhas.
  • Família com estoque de alimentos suficiente, para testar uma receita de um delicioso bolo de chocolate;
  • Família que é familiarizada com o vasto e rico repertório da nossa música popular brasileira e que além das atuais músicas de cunho comercial e de rasas inspirações, costumam deixar que as crianças acessem o conhecimento que as canções podem ensinar;
  • Família que esteja habituada a ler para seus filhos e que tenham materiais em casa, para que uma caixinha com materiais diversos possa estar à disposição da criança;
  • Família que tenha um banheiro com box e um bom chuveiro, onde a criança possa brincar e se divertir com a água e aprender a estabelecer excelente relação entre hábitos saudáveis de higiene com diversão;
  • Família preocupada com a proteção da criança e que na verdade, não precisa do Trilhas para se orientar, pois intuitivamente já realiza todas as propostas contidas no Caderno Trilhas, de uma forma ou de outra.

Diante destas suposições, ainda temos o importante dado, de que demoramos por volta de duas horas ininterruptas para lermos o Trilhas de Aprendizagem, no qual estávamos bastante interessados.

Sobre nosso grupo de Professoras:

Eu quero que a escola se reinvente e se reinventar não significa transformar professor em youtuber, mas aprender a abrir mão do conteudismo, entender que a aprendizagem vai além do que é dado pela escola e aceitar que o ano letivo já não cabe mais em 2020.

Vivenciando a Pandemia, juntamente com todas as indagações, angústias e experiências que já citamos acima, estas mulheres, mesmo fora do seu habitat natural, corajosamente, buscaram de todos os recursos e meios possíveis para produzirem o que a princípio chamamos de atividades e agora já chamamos de “Histórias”, em um universo amedrontador e desconhecido para a maioria (tecnologias da internet) e assim, conectaram-se com as crianças que puderam ter acesso às nossas postagens no famoso canal de comunicação gratuito, também conhecido como Facebook, numa fanpage da nossa Unidade Escolar.

Juntaram-se em uma rede solidária de coleguismo e proteção, onde cada uma, à sua maneira, fez e ofereceu o melhor que pôde; isso ficou claro. Não sabemos com certeza, quantas crianças nos viram, quantas gostaram, nem tampouco, o que de fato conseguiram, mas é certo que alguns nos viram e ainda que tivesse sido uma única criança, já teria valido a pena.

Calculamos grosseiramente, que o tempo que as docentes levaram para realizarem tais produções, fora infinitamente menor do que o tempo que utilizaram para pensarem o que fariam, como fariam, e principalmente com qual objetivo fariam, enfim um precioso tempo.

Sobre nossas principais intenções para maio e junho/2020:

Avaliarmos conjuntamente as produções e postagens na fanpage do Facebook, durante este mês de abril e chegamos à conclusão de que urge: planejar uma escola SEM DIST NCIA dos nossos princípios, das nossas concepções, da nossa ética, da equidade, da gratuidade, do que é laico, da inclusão, das Artes, das brincadeiras, da infância, dos vínculos afetivos constituídos como inerentes aos nossos fazeres diários, e constantes em nosso PPP – Projeto Político Pedagógico.

Propiciar para as professoras, formações de caráter reflexivo e dentro de análises críticas do atual momento da Pandemia (vídeo da FEUSP), lives e palestras sobre a temática, que nos auxiliem acerca de como podemos nos situar de forma consciente sobre o papel da escola de Educação Infantil e os fazeres das professoras, durante este período tão atípico.

Elaborar de forma mais ampla e democrática, mais um canal de comunicação gratuito com as famílias, com objetivo de estabelecer um alcance possivelmente maior e mais apropriado para conhecermos de fato quem estaremos atingindo, criação de grupos de Whatsapp, administrados pela Equipe de Apoio e Equipe Gestora.

Estarmos atentos para acolhermos a equipe docente a toda comunidade escolar em suas necessidades, anseios, inquietações, sugestões, formando assim, uma rede de proteção dentro das nossas possibilidades.

Trilha sonora: Miséria – Titãs

Miséria é miséria em qualquer canto

Riquezas são diferentes

Índio, mulato, preto, branco

Miséria é miséria em qualquer canto

Riquezas são diferentes

Miséria é miséria em qualquer canto

Filhos, amigos, amantes, parentes

Riquezas são diferentes

Ninguém sabe falar esperanto

Miséria é miséria em qualquer canto

Todos sabem usar os dentes

Riquezas são diferentes

Miséria é miséria em qualquer canto

Riquezas são diferentes

Miséria é miséria em qualquer canto

Fracos, doentes, aflitos, carentes

Riquezas são diferentes

O Sol não causa mais espanto

Miséria é miséria em qualquer canto

Cores, raças, castas, crenças

Riquezas são diferenças

A morte não causa mais espanto

O Sol não causa mais espanto

A morte não causa mais espanto

O Sol não causa mais espanto

Miséria é miséria em qualquer canto

Riquezas são diferentes

Cores, raças, castas, crenças

Riquezas são diferenças

Índio, mulato, preto, branco

Filhos, amigos, amantes, parentes

Fracos, doentes, aflitos, carentes

Cores, raças, castas, crenças

Em qualquer canto miséria

Riquezas são miséria

Em qualquer canto miséria.

FIM

28 de Abril, 2020
EMEI PADRE NILDO DO AMARAL JUNIOR
EQUIPE GESTORA: Elaine Coutinho, Eloisa Ramires e Hélio Brasileiro

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A rebeldia da juventude e o coronavirus: epicurismo ou realidade?

A rebeldia da juventude e o coronavirus: epicurismo ou realidade?

Entenda o que está acontecendo com a juventude nas quebradas durante a pandemia

Uma das preocupações durante a quarentena entre os educadores, especialmente os que atuam no Ensino Fundamental e Médio, é sobre o que seus alunos que não estão interagindo nas plataformas virtuais estão fazendo. Se estão bem.

Não faltam relatos de ruas cheias de jovens empinando pipas, de fluxos lotados ou de colegas mudando as fotos de perfil nas redes sociais com mensagens de luto.

É importante pontuar que via de regra muitos jovens dos extremos periféricos estão sendo contaminados e parecem desafiar as regras de cuidados impostos durante a quarentena.

Por outro lado, já vivem em meio às piores expectativas de vida da cidade. São os que não têm acesso ao saneamento básico. São os que esperam por 9 horas para uma consulta simples. São os que são selecionados negativamente na vaga de emprego pelo CEP. São muitas vezes os que dividem um cômodo para 7 pessoas da família. São os que não possuem acesso a diferentes fontes de lazer que muitas vezes é proporcionado pelas interações na escola. São as maiores vítimas de morte violenta e de “erros” por parte do Estado, é neles que cabe a justiça com as próprias mãos, furto de chocolate vira chibatada, furto de carne gera tortura com choques.

Falar que estão arriscando as vidas e que podem morrer por um vírus significa o que na rotina de vida desses meninos?

Sabe aquele papo do aluno que não sabe se vale a pena ser como o “bandido” da vila, pois é respeitado, anda de moto, tem namoradas, tênis da moda e uma TV legal em casa? Ele te fala que sabe que provavelmente viverá pouco, mas terá aproveitado ao máximo.

Às vezes é exatamente essa a impressão deixada quando alguns compram pebolim ou churrasqueira durante a quarentena e festejam como se não tivesse amanhã.

Em tempos normais, com alguns dias de não comparecimento às aulas a escola tenta contato com família, com conselho tutelar. E durante a quarentena? O trabalho dos conselhos precarizados foi intensificado? Quais as ações foram pensadas pelo governo para a busca ativa desses nossos estudantes? Quais foram as estratégias reais de proteção a essas vidas e de prevenção a evasão? Provavelmente poucas ou nenhuma, afinal os que eram invisíveis antes da pandemia, continuam tristemente a sê-lo.

Vivian Alves

Vivian Alves

Vivian Alves é filósofa, diretora de escola e ativista pela esucação. Atualmente ocupa o mandado do Vereador Toninho Vespoli.

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A dualidade entre o real e o ideal!

A dualidade entre o real e o ideal!

Entenda sobre o descaso da administração pública contra os professores e alunos!

Estamos diante de tantas incertezas que nos causam medo, dúvidas e indignação, por isso, gostaria de iniciar com uma frase de Darcy Ribeiro, antropólogo, escritor e político brasileiro: “só há duas opções nessa vida; se resignar ou se indignar.” E Darcy Ribeiro afirmou que não iria se resignar nunca! Assim como ele, eu também não posso me resignar, uma vez que ao professor é inerente professar! Não posso me omitir neste momento e digo que a nossa categoria, como um todo, está indignada diante deste contexto pelo qual a educação vem sendo submetida!

Como dizia Paulo Freire, “me movo como educador porque, primeiro, me movo como gente!” É como gente que me sinto indignada! – Pelo descaso à educação; – Pela falta de elementos pontuais aos trabalhadores da saúde; – Pelo descaso à população periférica e negra; – Pela mulher e a violência sofrida em silêncio mais do que nunca; – Pela falta de condições para que a população pudesse ficar em isolamento social; Enfim, não nos falta pelo que nos indignarmos! Trago uma afirmação da filósofa húngara Agnes Heller, foi professora de Sociologia na Universidade de Trobe, na Austrália, “Se agimos, somos responsáveis pelo que se realiza através de nossa ação; se nos afastamos da ação, somos responsáveis pelo que não fizemos.” (Carecimentos e valores, em “Para Mudar a Vida: Felicidade, Liberdade e Democracia”, Editora Brasiliense)…. 

A Secretaria Municipal de Educação contraria a OMS

Segundo a Instrução Normativa número 38, publicada pela Secretaria Municipal de Educação em 22/11/2019 sobre as diretrizes para a elaboração do calendário de atividades para o ano letivo de 2020 nas unidades escolares, o período destinado ao recesso escolar seria de 10 a 19/07. Contudo, em março, esse período foi antecipado para 23/03 a 09/04, medida adotada pela Secretaria Municipal de Educação como forma de enfrentamento inicial à pandemia, naquele momento adotar tal medida foi a solução mais simples tomada, que não exigiu esforço por parte da SME. Além de tardia, mostrava o despreparo no trato em relação à Covid 19, pois não foi eficaz, uma vez que sabíamos que não se tratava de uma “gripezinha”.

Sendo assim, o período destinado ao recesso escolar, seria, como de fato foi, insuficiente diante dessa realidade. Tanto que SME se viu na necessidade de publicar instruções normativas, em virtude da manutenção das escolas abertas visando a adequação ao trabalho de gestores e do pessoal do quadro de apoio, forçando-os a cumprirem plantões nas escolas, totalmente na contramão das orientações da Organização Mundial de Saúde, que pedia pelo isolamento social, ignorando os milhares de apelos pelo fechamento das escolas.

Cada vez mais SME apresenta justificativas para manter as escolas em funcionamento, inclusive contrariando sua própria orientação, pois na instrução normativa no 13/2020, no artigo 4o dispõe que não haverá atendimento ao público, e dessa maneira, desrespeita seus profissionais, expondo-os nesse enfrentamento, nas trincheiras pela educação, exercendo para além do nosso papel de educador e da escola enquanto instituição educacional, suprindo mais uma vez as faltas de políticas públicas do governo, e cada vez mais, absorvendo as mazelas sociais nunca tão visíveis e de forma tão escancarada. 

Os servidores públicos devem se orgulhar!

A equipe escolar (quadro de apoio e gestores) mantida como guarda patrimonial, vulneráveis à toda forma de violência social, ou à contaminação quando colocados num trato direto com a população para garantir uma prestação de serviço assistencial que não deveria ser de competência dos profissionais da educação. A naturalização da exclusão pela negação da realidade. Vitor Paro, professor da Faculdade de Educação da USP e grande especialista em gestão democrática, esteve recentemente num bate-papo com o vereador prof. Toninho Vespoli e foi veemente na questão do fechamento das escolas, pontuando duras críticas ao atual governo em relação a forma de gerir e ao sistematizar uma relação vertical, desconsiderando os profissionais envolvidos. 

Nós, servidores públicos, que estamos no atendimento direto à população, devemos nos orgulhar em conseguirmos cumprir com efetividade nossas funções, muitas vezes sem o mínimo necessário nas repartições públicas, mas realizando um serviço eficaz e garantindo ao munícipe um atendimento efetivo. 

É triste saber que a escola pública, tão sucateada, reflexo de anos de abandono, é e talvez seja sempre a única opção à população! Para Vygotsky, psicólogo bielorusso, o homem é um ser que se forma em contato com a sociedade. 

“Na ausência do outro, o homem não se constrói homem”. Sua compreensão é a de que a formação se dá na relação entre o sujeito e a sociedade a seu redor. Assim, o indivíduo modifica o ambiente e este o modifica de volta. 

A EAD ressalta as desigualdades

Numa pandemia, instituir uma EAD, estranha ao processo educacional e esvaziada de sentido, ressalta as desigualdades e as condições insalubres, evidenciando a falta de um ambiente favorável à alfabetização e as experiências cognitivas, culturais, sociais, afetivas e lúdicas diante de um processo histórico nas relações territoriais. Entretanto, quando falamos em educação, é fundamental abordamos as legislações pertinentes.

Recentemente acompanhei uma live com a professora Selma Rocha, prof.a da FEUSP, atuou na SME entre os anos de 1989 a 1992, também fez parte do Conselho Municipal de Educação. Em sua fala, ela resgata a importância dos marcos legais e o direito inalienável à educação, previstos nos artigos 205 e 206 da constituição nacional, a lei 9394/96, nossa LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e o Plano Nacional de Educação, que institui a educação como um direito de todos e dever do estado e da família dos 04 aos 17 anos, de forma presencial, e a Educação à distância, somente de forma complementar. 

Não há educação sem afeto

O parecer do CNE não caracteriza a educação remota, mas entende que há a necessidade da realização de atividades pedagógicas não presenciais, na tentativa de evitar uma ruptura ou lacuna no processo de aprendizagem, bem como a perda do vínculo com a escola que poderá levar à evasão… Precisamos pontuar a medida provisória 934/2020 que possibilitou a flexibilização do calendário escolar em carácter excepcional ao cumprimento dos 200 dias letivos, mantendo porém a exigência em relação às 800 horas. “Se você acha que educação é cara, experimente a ignorância!” Derek Bok. 

Se educar é impregnar de sentidos, garantir a permanência dos vínculos é fundamental na relação estabelecida entre o professor e seus alunos. Não há processo de aprendizagem sem os sujeitos de direitos exercendo amplamente suas potencialidades e capacidades, favorecidos por um diálogo de possibilidades, carregados de significados sob o olhar sensível do professor, fica ainda mais notório na educação infantil, que se impregna de sentido pelos cheiros, sons, sabores, cores, ao acalanto e toque das mãos dx educador(a)! 

“A primeira ideia que uma criança precisa ter é a da diferença entre o bem e mal. E a principal função do educador é cuidar para que ela não confunda o bem com a passividade e o mal com a atividade.” – Maria Montessori. 

O professor é o mediador de todo esse processo de aprendizagem e não um mero burocrata transmissor de conteúdo. 

Para tanto, há de fato uma importância da documentação pedagógica e o registro como forma fundamental de preservar e legitimar o processo construído, sem no entanto levar a uma burocratização enfadonha de planilhas e relatórios desconexos, sem nenhuma base científica, que nem de longe expressam a sistematização de um trabalho educacional, mas evidencia uma alienação, ainda que imposta, como uma justificativa documental. Mas o retorno à rotina escolar é inevitável… E está aí rondando às nossas portas e insistindo em nos tirar o pouco da preservação e serenidade que nos resta!

Se a educação se faz para além dos muros escolares, e assim entendemos quando acolhemos aos alunos e seus familiares, também precisamos saber como garantir dentro do espaço físico das escolas e de acordo com a sua realidade, como será essa volta. As escolas públicas, em particular as do município, tiveram redução do número de funcionários nas equipes de limpeza, e portanto é evidente que houve uma precarização dos serviços de higienização dos ambientes escolares e de todo o material ali contido, sobrecarregando os funcionários que são responsáveis pela realização do serviço. 

Precisamos pensar nos direitos dos alunos em sua totalidade

Importante destacar que alguns Centros de Educação Unificado, os CEU’s, estão acolhendo moradores em situação de rua em salas de aulas de suas unidades. De fato, tal acolhimento, recebe nosso respeito, mas como farão, diante dessa situação, quando retornarem às aulas? É pontual destacarmos outra questão em relação aos prédios escolares públicos, pois em regra, com raras exceções, a condição da estrutura física requer manutenção urgente e falta espaços externos. Para Paulo Sergio Fochi, professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul e especialista em Educação Infantil, precisamos pensar nos direitos das crianças, os alunos em sua totalidade, e de seus familiares na construção deste retorno, o acolhimento e o afeto, a aceitação e adequações às possíveis mudanças nesse retorno, inclusive ao ambiente escolar, participar e compartilhar das decisões, serem orientados e receber as informações necessárias para se sentirem tranquilizados…

Mas quem fará esse processo em relação à nossa equipe escolar, até agora em plantão? Bem como aos professores que também precisam sentir que estão acolhidos, protegidos e saber que sua saúde e sua vida serão preservadas! Escola é um organismo vivo, onde todos devem conhecer as ações desenvolvidas, entender como ocorrem as relações, com criticidade para esse espaço e suas intencionalidades, e assim deveriam comungar das mesmas concepções. Clarice Lispector se referindo à educação: “Ela tem em si água e deserto, povoamento e ermo, fartura e carência, medo e desafio. Tem em si a eloquência e a absurda mudez, o requinte e a rudeza.” 

“Mais vale errar se arrebentando do que poupar-se para nada.” Darcy Ribeiro. 

Deborah Fasanelli

Deborah Fasanelli

Deborah Fasanelli é professora de educação infantil e ensino fundamental; pedagoga e Psicopedagoga Pós graduada em Direito Educacional. Atualmente ocupa o mandato Popular do Professor Vereador Toninho Vespoli

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A Alimentação Escolar durante a quarentena

A Alimentação Escolar durante a quarentena

Entenda o descaso dos governantes com crianças que passam fome!

A pandemia de covid- 19, dentre outras coisas, escancarou um papel que as escolas ocupam: espaço responsável pelas principais refeições de muitos dos estudantes.
Não são incomuns os relatos de professores recebendo mensagens de estudantes perguntando sobre alimentação durante as interações online. Outra realidade é a dos profissionais em plantões nas escolas ( gestores e quadro de apoio) que atendem telefonemas ou pessoas batendo nas portas das escolas em busca de informações sobre o cartão- alimentação ou a possibilidade de doação de cestas básicas.

A realidade financeira de muitas das famílias mudou devido ao contexto da quarentena, muitos com salários reduzidos ou com a perda dos empregos, mesmo fora das listas de beneficiários de programas sociais governamentais.

Mesmo que o direito à alimentação esteja garantido na Declaração dos Direitos Humanos, PIDESC, Constituição e ECA, a fome ainda é uma realidade e agravada devido aos estudantes não terem o direito à alimentação escolar garantido. Pelo contrário, governantes têm caminhado no sentido oposto, levando a alimentação escolar como direito de alguns.

Alimentação não é caridade, é dever do Estado!

É indiscutível a relação da garantia da alimentação como preceito para aprendizagem. O Programa de Alimentação Escolar gratuita e universal representa a maior e mais abrangente experiência em Políticas Públicas de alimentação e nutrição na América do Sul, além de ser um dos mais antigos no mundo.

Desta forma, é incompreensível num momento de agravo social e sanitário, impor a privação ao direito dos estudantes de se alimentarem de forma adequada. Argumentar sob o véu da legalidade contratual, quando de fato dados da própria prefeitura apontam o gasto efetivo realizado de pouco mais de 10% do valor total a ser recebido do governo federal chega a ser irresponsável, pois se trata de direito e não de caridade para alguns que estão nos critérios estabelecidos pela Secretaria Municipal de Educação que nem sequer são os mesmos adotados pela Assistência Social, que tem como característica o atendimento da população em maior vulnerabilidade.

Se a alimentação escolar é um direito universal aos alunos, em atividades remotas todos continuam a serem alunos e, portanto devem receber o equivalente à refeição realizada na escola. Essa equivalência precisa inclusive levar em conta que o poder de compra do governo e avulsa são diferentes. Ofertar alimentos aos estudantes seguindo os preceitos da FNDE torna-se mais que urgente para garantir a segurança alimentar dos estudantes que já são tão vulneráveis e estão prejudicados por diversas políticas de governo que não estão considerando-os como sujeitos de direitos e que precisam ter a proteção e ações voltadas para a universalização e em condições de igualdade.

Vivian Alves

Vivian Alves

Vivian Alves é filósofa, diretora de escola e ativista pela educação. Atualmente ocupa o mandado do Vereador Toninho Vespoli.

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Cadáver paga mensalidade?

Cadáver paga mensalidade?

É possível observar que nos últimos dias os jornais foram tomados de notícias sobre protocolos para uma possível volta às aulas em todo o Brasil mesmo numa curva de contágio e mortes causadas pelo vírus covid-19 ascendente e sem vacina ou remédio para tratamento.

Os caminhos sinalizados foram desde a proibição de abraços até túneis de desinfecção (isso num país em que 6,5% das escolas não possui nem banheiros). Mas nada foi tão cruel e pesado como ver campanha de reabertura das escolas particulares para evitar a falência.

É indiscutível a importância de políticas voltadas a micro pequenos e médios empresários, especialmente em tempos de crise. Mas isso de forma alguma pode ter como contrapartida a vida.

Além disso, é uma consideração rasa ao ponto em que no contexto econômico, com salários arrochados, demissão em massa e estagnação financeira em todo o mundo, não é a volta às aulas de forma precipitada que vai garantir a manutenção das matrículas na rede particular.

Quanto vale um filho?

Especular irresponsavelmente sobre a reabertura das unidades escolares sob a justificativa de que os pais precisam de um espaço para deixar os filhos enquanto trabalham já é absurdo, pois desconsidera a criança como um sujeito de direitos e o papel fundamental da Educação.

Por outro lado defender essa reabertura sob a justificativa de manter os proprietários recebendo as mensalidades integralmente das famílias dos estudantes é de crueldade comparável ao fascismo. É genocídio infantil.

Que pai ou mãe ficaria tranquilo em entregar a educação formal dos filhos num local que não o enxerga como uma vida cheia de potencialidade, direitos e sonhos? Que tipo de escola expõe seus educadores ao contágio silencioso e inevitável, fantasiado dos abraços, do contato com as secreções, do espirro inesperado, do consolo ao choro que não quer usar mais a máscara ou daquele sono no colinho?

Sem vacina, sem volta

Muitas das escolas de pequeno e médio porte possuem sua estrutura alçada em casas adaptadas, salas de aula em espaços pequenos e com pouca ventilação.

Além do mais, como garantir afastamento, impedir afeto, garantir o uso e a troca de mascarás, correto manuseio e tantos outros protocolos especulados, durante uma pandemia em que do pouco que se conhece, indica que a maioria das crianças é assintomática. Ou seja, medidas como a aferição de temperatura se tornam ineficazes.

Porém, colocar as crianças como vítimas e vetores para toda a sua rede de relações em nome de lucro não parece ser um preço em que as famílias estejam dispostas a pagar, apesar de autoridades políticas estarem propensas a rifar tantas vidas em defesa de uma estratégia econômica.

Enfim, a reabertura das escolas aumentando a vulnerabilidade, contágio e mortes de nossas crianças e famílias em nome do dinheiro não é uma medida aceitável a quem reste um pouco de humanidade ou sensatez.

Vivian Alves

Vivian Alves

Vivian Alves é filósofa, diretora de escola e ativista pela esucação. Atualmente ocupa o mandado do Vereador Toninho Vespoli.

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A importância do ano letivo ou como estamos fingindo que ele existe.

A importância do ano letivo ou como estamos fingindo que ele existe.

Entenda porque uma geração pode acabar não tendo o ano letivo

Pensem comigo: tenho 199 estudantes em 7 turmas de Ensino Fundamental I, dos quais apenas 29 acessam de forma bem esporádica as atividades da plataforma virtual que insistem em chamar de sala de aula. Agora façamos uma pausa para interpretar os dados. 1, 2, 3… Fez? Eu fiz.

O caderno Trilhas de Aprendizagens foi aparentemente entregue a todas as crianças da minha EMEF. Digo aparentemente porque temos famílias que, na prática, estão desaparecidas. Os endereços cadastrados ou não existem ou estão errados, algumas famílias vivem em comunidades onde os correios não entram e outras, apesar de possuir o endereço cadastrado corretamente, nos informaram que o material nunca chegou.

Imagina os tantos que não poderiam usar EAD?

Aqui na zona norte de São Paulo, não muito longe do bairro de Santana, existem comunidades tão fechadas que o correio não entra, seja pela impossibilidade do terreno ou por não terem autorização da “coordenação” do local. Nestes locais também não entra o respeito e, portanto, o ensino remoto público e gratuito para todos também tem ficado de fora. Cenário muito diferente daquele que deveríamos ter.

Com as portas da escola abertas somos capazes de auxiliar, cuidar e alimentar as crianças. E isso é uma escola, um lugar que integra a vida do ser humano de forma ampla para além da transmissão de conteúdo. Acontece que com a pandemia de COVID-19, as portas estão fechadas para estudantes e educadores, que agora se comunicam virtualmente. Bem, nem todos.

Do trabalho à exaustão

Todos os dias, eu vou dormir exausta dos múltiplos grupos de trabalho e das diversas reuniões virtuais me perguntando se os estudantes ainda estão vivos. Sinto falta da minha pitocada, como costumo chamar minhas crianças cheia de amor e agora com lágrimas nos olhos. Eu não me formei uma transmissora de conteúdo, eu me formei aprendiz da essência educadora. Tive o privilégio de encontrar na minha formação pessoas que me ensinaram a olhar os pequenos humanos para além de sua capacidade técnica. Aprendi que eu não ensino mais do que eles me ensinam e aprendi a criar possibilidades para que os estudantes se expressem com carinho, atenção, respeito e diversamente. E sigo pequena, muito menor que eles, ainda aprendendo com muito orgulho de ser professora da rede pública o que significa a prática educativa.

Desde que o ensino remoto emergencial teve início, estamos nos desdobrando para conseguir transmitir de alguma forma tudo o que acreditamos ser um ensino de qualidade. Todas as orientações didáticas, componentes curriculares, matrizes de saber, ODS, etc. precisaram ser condensadas em cliques, vídeos no youtube, adaptação da linguagem, reuniões e mais reuniões para descobrir como ensinar sem compreender a tecnologia necessária e sabendo muito bem que a maioria dos estudantes não a possuem. Temos feito tudo que está em nosso poder para que todos os estudantes entrem na plataforma virtual: ligações, mensagens nas mídias sociais, vídeos explicativos, comunicados, recados via moradores do bairro e, até agora, 29 de 199 crianças.

Tudo foi feito às pressas. Não tivemos tempo de entender como seria a nossa vida na quarentena, não nos foi dado o direito ao planejamento, não fomos consultados em nada e as normativas ainda estavam sendo construídas enquanto já tinham nos imposto a nova maneira de dar aula. Estamos enlouquecendo para nos apropriar de uma linguagem que está anos-luz distante da ideal para a educação. É ultrajante que o sistema educacional seja [des]construído desta maneira, mesmo que em caráter emergencial.

jogados ao mar, sem colete salva vidas

As equipes de professores, gestores e apoio pedagógico foram jogadas num barco sem remos em meio ao mar agitado. Nossas crianças sem coletes em pequenos botes individuais. Algumas sabem nadar, outras não. A situação é desesperadora e de alto risco, pra dizer o mínimo. E quem nos guia? Para onde vamos? Com qual intuito? Chegaremos em terra firme e o governo nos receberá dizendo que fizeram a parte deles. Mas a verdade é que não sabemos quantos grandes ou pequenos humanos conseguirão chegar e nem quando. Este é o propósito de manter um ano letivo virtual e praticamente imaginário?

Ensino não se faz à distância. Ponto. Num momento tão importante da formação humana, jogamos as ferramentas e alguns poucos materiais na mão dos pequenos e dizemos “construam uma casa forte!”. Que raio de educação é essa? Não é nosso papel ajudar a construir esta casa? Que autonomia têm as crianças para dar conta de um formato
atropelado de “sala de aula” que nem nós fomos ensinados a viver? Que nosso trabalho é essencial eu não tenho dúvidas, mas ele é essencial agora, quando pessoas passam fome e morrem sem os cuidados adequados, sem leitos de UTI, sem água para lavar as mãos? Qual é a prioridade: manter um canal afetivo de cuidado ou fingir que as aulas estão funcionando? Para quem? Para quantos? Onde está o para todos se apenas 29 de 199 crianças conseguem acessar a plataforma? Devemos considerar o ano letivo inválido para as 170 restantes?

Minha pitocada, os pequenos humanos, estão na fase da descoberta do corpo, dos sentidos, do espaço e do outro, fase única e importantíssima para o desenvolvimento motor, da individualidade, do coletivo e do afetivo além daquele proporcionado pela família. As construções nesta fase são a base do que futuramente será o indivíduo, portanto, o ensino remoto, apesar de emergencial, não é capaz de atender nenhuma das necessidades básicas da educação e não está chegando nem ao mínimo aceitável de estudantes atualmente.

Não liberam os auxílios

Enquanto os números de contágio e óbito só aumentam e o auxílio emergencial federal fica retido em mais um ato fascista de crueldade, não é dever de prefeituras e estados amparar o máximo de pessoas possível como as famílias em comunidades fechadas ou as que vivem em casas de palafita? Vidas seguem perdidas! Roubadas! É hora de guardar luto, cuidar dos próximos, socorrer os aflitos! E ao invés de dar um suporte afetivo, alimentar, salarial e igualitário a TODOS estudantes da cidade de São Paulo, estamos aqui trabalhando por um ano letivo que já deveria estar suspenso e nos perguntando: estão vivos? Os meus 170 pitocos que não entraram na sala de aula virtual estão vivos? Têm comida? Passam frio?

As contradições permanecem. Do lado de lá, discursos sobre o “respeito à democracia e à saúde” e, do lado de cá as crianças desamparadas, gestores e equipe de apoio correndo risco ou morrendo por serem forçados a cumprir a função de seguranças do patrimônio e professores sobrecarregados num trabalho remoto que não atende a todos. Pela televisão, os planos de reabertura são anunciados. Enquanto isso, mais uma criança perde a vida para o descaso público mascarado na subnotificação dos óbitos. Um pequeno humano que não vai voltar para escola quando a reabertura se der de fato. Mas, por enquanto, seguimos postando as atividades no sistema. É mais uma tragédia
escancarada na cidade de São Paulo.

*Marília Moreno é professora da PMSP e escritora indignada com o passado, presente e
futuro do ensino público nacional.

Marília Moreno

Marília Moreno

Marília Moreno é professora da PMSP e escritora indignada com o passado, presente e futuro do ensino público nacional.

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E quando for a hora de voltar?

Nos últimos dias, após o anúncio de flexibilização da quarentena, tem sido ventilado diariamente na grande mídia a necessidade da reabertura das escolas, em especial das instituições que atendem a primeira infância (CEI e EMEI). Especialistas em Educação de todo o país têm se debruçado sobre o assunto, inclusive com a produção do documento “Para um retorno à escola e à creche que respeite os direitos fundamentais de crianças, famílias e educadores” (baixe aqui o documento). Com o retorno será importante observar e respeitar direitos das crianças como a preservação da saúde e período de adaptação.

Quando se refere sobre a questão da saúde em escolas de Educação Infantil, um ambiente que permita a exploração e o brincar estão envolvidos diretamente. Como brincar sem espaço físico, cheiros, texturas e toque? Na Educação Infantil o contato físico gera uma estrutura emocional de pensamento, onde reprodução de conteúdo não é o suficiente, mesmo para quem tem equipamentos e recursos tecnológicos (tablet, notebook, rede de acesso…),

Estaremos construindo culturas infantis?

No ano passado foi feita uma reestruturação na rede municipal de São Paulo que reduziu drasticamente o quadro de funcionários nas equipes de limpeza. Em alguns casos são apenas duas pessoas para dar conta da higienização de todos os ambientes (o que especificamente na Educação Infantil envolve trocadores, locais para banho – cubas e espaços com chuveiros – penicos, um grande número de privadas), além das salas, colchões, brinquedos estruturados, refeitório, solário, pátio, parque, brinquedoteca e todos os outros espaços que a escola possuir. Ou seja, antes de se cogitar o retorno das crianças com a garantia dos cuidados com a saúde e a preservação do brincar, é latente que seja revisto o quadro de funcionários nas equipes de limpeza, que terão a partir de agora maior recorrência em suas tarefas diárias, além de acrescentar outros cuidados recomendados pela OMS.

Outro aspecto importante é reconhecer que a volta às escolas será um recomeço, em especial para os bebês e crianças pequenas, em que a rotina é tão necessária para o desenvolvimento. Portanto é imprescindível que seja respeitado um novo período de acolhida e adaptação, inclusive com atendimento em horário diferenciado, o que requer articulação com as famílias e redes de apoio. Além disso, é necessário que se tenha o olhar muito apurado ao grande mediador dos processos de aprendizagem e descobertas das crianças na Educação Infantil: o professor. O trabalho do professor nessa etapa da Educação está muito pautado no contato físico (inclusive em contato direto com excrementos) e na afetividade.

Portanto é necessário que todos os EPI tais como álcool em gel, luvas, máscaras, lenços umedecidos e sabonete líquido sejam disponibilizados em quantidade adequada à nova realidade pensando na questão do cuidar e da estrutura pensando no brincar e o fazer pedagógico. Da mesma forma que as crianças, os professores precisam ser acolhidos e participarem dos processos de reorganização da escola e do replanejamento, anteriormente à chegada dos pequenos.

Um dificultador do retorno das crianças às escolas de 0 a 5 anos é uma reivindicação histórica da categoria: o número de crianças por agrupamento.

Dependendo da idade, cada turma possui de 7 a 35 crianças e no caso dos menores, às vezes chegam a ocupar a mesma sala 3 ou 4 agrupamentos com os respectivos professores. Como tentar cogitar algum distanciamento dessa forma? Como acolher esses bebês e crianças com a mínima segurança? Isso sem falar na relação de crianças por Unidade Escolar, que acabam se encontrando e interagindo nos horários de entrada e saída, além dos espaços coletivos.

Enfim, são muitos aspectos a serem observados e garantidos para que APÓS a pandemia o atendimento nas escolas de Educação Infantil possa ser retomado com segurança e garantia de direitos, em especial das crianças atendidas. Afinal, o direito à vida é maior que as necessidades mercadológicas estabelecidas.

 

Vivian Alves é filósofa, diretora de escola e ativista pela educação. Atualmente ocupa o mandado do Vereador Toninho Vespoli

A indisciplina escolar escancarada no contexto EAD

A indisciplina escolar escancarada no contexto EAD

Entenda porque um sistema de EAD (Educação à Distância) poderia ser desastroso!

Se existe uma afirmação que pode ser feita durante esse período de pandemia no contexto escolar é que o sonho do homescholling não é tão colorido assim.

Imaginando um recorte de cenário ideal em que todas as famílias tivessem as estruturas físicas mínimas como computador e internet, ainda restariam aqueles infinitos áudios que temos recebido pelas redes de desabafo de pais e avós enlouquecidos, vivenciando algumas realidades. Dentre elas, que ter conteúdo em mãos não torna ninguém professor e a eminente “indisciplina” dos nossos filhos e amiguinhos que acontece mesmo sob nossos olhos.

Educação bancária

O contexto EAD muitas vezes tem remetido ao modelo de Educação Bancária. Essa concepção tem a função de transmitir ao aluno, de forma mecânica, conhecimentos historicamente construídos por meio de seu principal agente: o professor. Neste caso, via online e apoiado por apostilas do outro lado da tela.

Assim, a relação entre ele e o aluno se dá de forma vertical, na qual o professor, considerado o único detentor do saber e em poder da palavra e o aluno que espera, passivamente, receber todos os ensinamentos. E quantas vezes os pais não orientavam meses atrás: “quero você sentado na frente, prestando atenção, aprendendo tudo que o professor ensinar!”

O papel da disciplina nessa concepção é fundamental. Nela, a obediência e o silêncio dos alunos são importantes para garantir que os conteúdos sejam transmitidos sem interferências externas. Por isso as salas de aula são organizadas em filas e os alunos distribuídos individualmente para que o professor possa vigiar o comportamento de cada um, apreciá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades e os méritos. Na EAD esse papel cabe aos responsáveis do estudante. Em casa parece ser algo bem mais fácil, não? Mas eis que mesmo com o professor na tela seu filho se perde nos pensamentos, o microfone dos outros colegas está aberto, um imita um “pum” e a aula vai abaixo, mesmo à distância e com a mãe ao lado. E o choro? O “tô cansado”, o “você é mentirosa porque eu já estudei muito e não fiquei inteligente”, o “pro, minha mãe não entende disso, tô com saudades de você”…

Esse menino só quer saber de Chaves, sabe todos os personagens, mas a lição não aprende, eu vou “desmatricular” ele e resolver o problema

Mas outra visão de (in)disciplina nos remete a uma concepção de educação que tem como principal objetivo a libertação do homem. É a Educação Problematizadora.

O diálogo deve ser ao mesmo tempo, ação/reflexão/ação, portanto práxis, pois, ao refletirmos e denunciarmos o mundo em que vivemos, agimos para a sua transformação. Enquanto prática educativa, o diálogo deve ocorrer numa relação horizontal em que tanto educador como educando buscam saber mais em comunhão.

A disciplina é pedagógica e entendida como organização, pois surge da autoridade e compromisso. A finalidade dessa disciplina é de ultrapassar os limites do espontaneísmo e do conhecimento como senso comum; por isso é pedagógica, colaborando com o desenvolvimento da autonomia intelectual e da autodisciplina dos alunos.

Não é o conteúdo, é o mediador

O papel do professor é importante como coordenador do processo educativo, usando da sua autoridade democrática, cria, em conjunto com alunos, um espaço pedagógico interessante, estimulante e desafiador, para que nele ocorra a construção de um conhecimento científico significativo.

As manifestações que na visão anterior eram entendidas como indisciplina e, por isso, aqueles que a praticavam deveriam sofrer punição, nesta são entendidas como democráticas e deverão, portanto, servir como subsídios para a “práxis”.

Desobendiência ou denúncia?

A educação infantil é um campo complexo quando se trata de indisciplina, pois é o período em que os valores estão sendo maior assimilados, levando-os para a prática da vida inteira. Como normalizar bebês tendo “aulas” por uma tela?
O ensino fundamental é um período de maturação diferente da educação infantil. Mas não menos pesado quando se trata de Educação à Distância, e os pais têm relatado isso.

As crianças da escola atual pertencem ao seu tempo específico em que não é mais cabível tê-las como miniaturas de adultos ou incapazes como em outrora.

Trata-se do clamor de um novo tipo de relação civil pedindo passagem a qualquer custo. Nesse sentido, a indisciplina estaria indicando também uma necessidade legítima de transformações no interior das relações escolares, por enquanto à distância, mas que trará mudanças no pós-pandemia.

A indisciplina diminui quando o que a criança faz tem sentido, quando ela sente-se importante com atividades que valorizem a criatividade, o respeito, a cooperação, a tolerância e a conscientização das nossas possibilidades como seres participantes na construção do conhecimento do mundo, em busca de uma sociedade mais justa e humana.

Vivian Alves

Vivian Alves

Vivian Alves é filósofa, diretora de escola e ativista pela esucação. Atualmente ocupa o mandado do Vereador Toninho Vespoli.

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Afinal, é a Educação à distância?

Há tempos se reflete entre os educadores o quanto o modelo de Educação secular já não contempla as necessidades da sociedade e o interesse dos estudantes.

Bonitinhos, mas não inofensivos: os empresários e a educação como negócio

Como as organizações de educação geridas por grandes empresários entendem a pandemia como oportunidade de mercado  

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