espiritualidade

A REVOLUÇÃO DO CUIDADO COMO RESPOSTA

Saiba como as comunidades católicas de base estão lutando contra o novo coronavírus

Durante essa quaresma – ocupada de supetão pela quarentena contra o COVID-19 – as comunidades católicas de todo o Brasil estão refletindo a Campanha da Fraternidade, que esse ano parece genérica, mas só parece. Com o tema “Fraternidade e Vida: dom e compromisso” e o lema inspirado na parábola do Samaritano a Campanha provoca o compromisso com a defesa das vidas, de todo forma de vida.

Ao longo dos anos, a Campanha da Fraternidade motivou políticas públicas, estimulou discussões e colaborou na elaboração de soluções para situações existenciais do povo brasileiro. O Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, o Estatuto do Idoso, a política de proteção dos menores em situação de vulnerabilidade são alguns dos exemplos.

Esse diálogo fé, vida e comunidade possibilitou que a Igreja fosse vanguarda de momentos históricos do Brasil. Em 1978, com a Campanha “Fraternidade no mundo do trabalho – Trabalho e justiça para todos” houve um incentivo para a luta sindical e organização do operariado. Em 1981, o mote “Saúde para Todos” engajou – sobretudo as mulheres – a formarem Movimentos Populares de Saúde que foi a principal força para reivindicar um sistema de saúde universal e gratuito e que se concretizou na 8º Conferência Nacional de Saúde, em 86.

Globalização da Indiferença

A Campanha de 2020 nos chama a atenção para a anestesia social que se vive diante de tantas realidades de morte em nosso meio. Os “novos” valores promovidos pelo capitalismo, como o individualismo e o intimismo – e já cristalizados na realidade urbana presente – provocam, ainda que involuntariamente, uma incapacidade de perceber as dores, os gritos e a escravidão de milhões de irmãos nossos. Isso o Papa Francisco chama de Globalização da Indiferença.

A raiz dessa atitude é a mesma causa que gera uma multidão de excluídos, largados à própria sorte: Uma Economia da Exclusão. Em 2013, na Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium), Francisco reforça com entusiasmo as pragas produzidas pelo capitalismo e escreve “Essa Economia MATA”, convidando a romper com a economia da exclusão e da desigualdade.
Ora, se o Evangelho nos exige um compromisso concreto com a defesa da vida e a Igreja nos mostra que o motor deste sistema de morte é a Economia Capitalista, temos aí um imperativo moral: Destruir o capitalismo.

Alguém, então, poderia dizer que não, que o real problema que gera morte no mundo é a violência. Mais uma vez vem Francisco e lembra (nº59 EG) que “será impossível” acabar com a violência sem eliminar a exclusão e a desigualdade. “Se cada ação tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas de uma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte”, finda. Está dito, com esse sistema não há vida plena.

“Os poucos de cima esmagam a base”

É essencial fazer esse recorte “econômico” para que a gente possa perceber que todas as formas de violência que são mais tangíveis e visíveis brotam dessa relação de poder, de acumulção e exclusão. Vejamos: Muitas de nossas comunidades se sentiram convidadas a uma ação concreta com os moradores em situação de rua, por ser o grupo vulnerável que mais se assemelha com a pessoa que foi cuidada pelo samaritano.

Pois bem, na maioria das vezes nós falhamos porque ficamos no cuidado superficial. As ações assistenciais são muito importantes e traduzem um cuidado com o irmão, mas são paliativas. Para essas ações conseguimos mobilizar um pouco mais. Mas, se ousarmos a questionar o porquê a esses irmãos foi negado direitos a teto, terra, trabalho e pão muitos vão nos acusar de “discurso político” e a ação parece se distanciar da caridade.

Aqui cabe a máxima de dom Helder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”. O desafio está em perceber e construir uma política que seja retrato da caridade e que o único interesse seja o cuidado com a vida. Isso porque, a superação das causas estruturais que geram a pobreza não pode esperar.

Rostos sofridos x Direitos Humanos

Há pouco mais de 40 anos, a III Conferência do Episcopado Latino-americano apresentou os efeitos da dominação imperialista do capital na figura dos rostos sofridos da América Latina. É triste pensar que depois de quatro décadas não só continuam esses rostos a sofrer, como se somam tantos outros vítimas da opressão, da ganância, da mentira e do preconceito.

Atingidos por barragens, refugiados, trabalhadores vítimas da “uberização” neoliberal, e populações inteiras sem direito a saúde se enfileiram lado a lado com os rostos já conhecidos que sofrem com a violência de gênero, com o racismo, com o desemprego, com o assalto da esperança e projeto de vida. Todos esses rostos se encontram e se assemelham na classe. Todos estão na base da pirâmide, sendo usado de escada para uns poucos.

Essa reflexão nos adverte a urgência de trabalharmos com nossas comunidades, grupos e coletivos a realidade dos Direitos Humanos. No senso comum os DH parece ser uma pessoa, uma instituição e não um conceito. Talvez por culpa nossa, que ao invés de traduzir esse acúmulo de debate na concretude na vida cotidiana, criamos chavões academicistas para nossa bolha social.

Precisamos mostrar que permanecer em seu território, interrompendo um projeto de mineração que vai sacrificar todo um ecossistema e as comunidades nativas; é direito humano. Que ter direito a um sistema de seguridade social que o permita sobreviver mesmo diante do desemprego e subemprego; é direito humano. Que ter um atendimento de saúde básica que trabalhe a prevenção; é direito humano.

Revolução do Cuidado

O educador Paulo Freire dizia que “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si”. Pois bem, podemos parafraseá-lo e pregar que diante dessa situação de globalização da indiferença, ninguém salva ninguém, ninguém salva a si mesmo, mas que todxs se salvam entre si. É nossa tarefa diária se perceber parte de um todo e que podemos – juntos – cuidar uns dos outros.

A Campanha deve nos incomodar e nos fazer perceber qual tem sido nosso compromisso – de cuidar – nas dimensões pessoal, comunitária, social, econômica e ecológica. A busca por novos caminhos é o convite a Revolução do Cuidado.
Cuidado vem do latim cogitare, que é pensar. O prefixo “co” significa junto e “gitare” deriva de agere, agir. Olha só o que traduz nossa atitude de cuidado: Pensar fazendo; fazer aquilo que pensou; construir o planejado para gerar vida. Pensar novos caminhos também é cuidar.

Essa revolução do cuidado vai nos fazer romper com toda realidade de morte: de escravidão e dominação, de exploração e concentração. Somos convidados a construir um mundo de todos e para todos. Nosso compromisso com a vida deve ser, necessariamente, um compromisso anticapitalista e anti-neoliberal.

Peterson Prates

Peterson Prates

Peterson Prates é jornalista, Conselheiro - Subprefeitura Sapopemba e assessor do gabinete do Professor Vereador Toninho Vespoli

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