Mandato em Movimento

Desigualdade intergeracional

Republicado da Revista Cidadanista

Por Eduardo Brasileiro

O ponto central que une a Campanha da Fraternidade é um projeto de superação das desigualdades que assolam milhares de brasileiros. Porém, essa questão tem um elemento diferente, pois ela constituiu a nação que temos. Ela não é um acidente de governo X ou Y (porém, há aqueles que aprofundam), ela é promotora do que configura o país, cidade, bairro. Ela não existe por falta de planejamento, é, sim, um projeto na construção das cidades. 

Primeiro desafio para superá-la é notar que existe uma predeterminação política sobre a trajetória de determinados corpos nas cidades. Tristemente, pessoas negras, mulheres e pobres vivem em senzalas urbanas. 

Segundo os dados do Mapa da Desigualdade de 2018 da Rede Nossa São Paulo e o relatório “A distância que nos une” de 2016 da OXFAM, seis em cada dez pessoas têm uma renda mensal de R$ 792,00. Observando o dado em dimensão nacional, no Brasil 80%, ou seja, 165 milhões de pessoas têm uma renda per capita inferior a um salário mínimo.

Do outro lado, os 10% mais ricos do país têm uma renda média per capita de R$ 4.800,00. Um trabalhador que ganha mais ou igual a esse coeficiente está entre os 10% mais bem remunerados do país. Quando se afunila e vê apenas o 1% dessa população, esses detêm renda média mensal per capita de 40 mil reais. 

Analisando a desigualdade pela raça, em 2015 a população branca ganhava em média R$ 1.589,00 mensais, enquanto a população negra recebia uma média de R$ 898,00. Se mantidas as políticas públicas e investimentos nessa velocidade e distância atual, a desigualdade racial só será superada no ano de 2088. Por ironia, 199 anos depois da dita “abolição da escravidão”. Ainda nessas eleições candidatos que negam que exista racismo no país, e, sobretudo, dizem querer acabar com mecanismos de redução de desigualdades como as cotas, por exemplo, foram inúmeros e muitos inclusive estão eleitos. 

Quando o recorte é sobre a desigualdade entre mulheres e homens, o rendimento médio do homem é de R$ 1.508,00 mensais, e o rendimento da mulher é de R$ 908,00 mensais. Se mantidas as políticas públicas e investimentos nessa velocidade e distância atual, para se ter a superação da desigualdade entre homens e mulheres, somente em 2047 terá equiparação salarial. 

Quando é distribuição socioespacial, aí que a desigualdade impera. No relatório é possível ver que a idade média ao morrer em Moema, bairro nobre da cidade, é de 80 anos. Já no Jardim Ângela, a idade média de morte é de 55 anos, e 30 anos de vida separam o morador de Itaquera do Jardim Paulista. No acesso à cultura por exemplo, em 53 distritos da cidade não existe aparelho cultural. 

Quando analisados os 1% mais ricos, vê-se o segundo desafio. Em São Paulo, por exemplo, esses detém 25% de todo o patrimônio imobiliário e 45% de todo o valor imobiliário da cidade. O país tem um déficit fiscal de 100 bilhões de reais não arrecadados em impostos dos mais ricos. O IPTU é bastante desacreditado. É normal criar políticas de tributação maior, a fim de desestimular a concentração de patrimônio. Na França, por exemplo, se você tem um imóvel, paga uma quantia, mas, se você tem mais, aumentam progressivamente os impostos.

Esses dados desnudam uma brutal violência contra o povo, que ao não ter acesso a direitos mínimos são escanteados também das decisões políticas. Não é acidente ou erro de cálculo. Esse projeto da desigualdade brasileira há 500 anos disputa o poder via golpes militares, manipulação midiática ou não aceitando resultados eleitorais. No atual estágio das desigualdades brasileiras e com um governo franco atirador contra as reduções de desigualdades, cabe à sabedoria e eficácia produzir o pensamento contra- hegemônico capaz de desenvolver pessoas críticas e propositivas em busca da resistência. É hora de dizer um basta nessa maldita transferência intergeracional da pobreza, e percebermos que esses dados, por mais duros e desanimadores que sejam, são formuladores de caminhos: políticas públicas. Organizemos nossos bairros para, mais do que resistir, termos projeto e utopia de sociedade.

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