De olho na COP-26: alerta de emergência climática

Tempestade de areia

Conheça o contexto de criação da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e as expectativas para o evento deste ano.

Água é transparente. Pelo menos em pequena quantidade. Mas o gelo não é tão transparente assim. Quando tiramos do freezer um cubinho de gelo, é possível perceber que a luz não o atravessa perfeitamente, refletindo uma cor branca. Isso que interfere na luz é o ar, que estava preso na água e não teve tempo de sair até o congelamento. É com esse princípio físico-químico que a natureza guardou a história do clima no nosso planeta.

Esconder tudo ao máximo

Em agosto de 1975, o paleoclimatologista — alguém que pesquisa as mais profundas e antigas camadas de gelo do planeta, entre outros registros do clima —, Wallace Smith Broecker, publicou um artigo intitulado “Mudança climática: estamos à beira de um aquecimento global?”[1], o primeiro a fazer referência ao fenômeno. Demorou muito até que chamasse atenção.

Na década de 80, quando estudos sobre o clima global ainda estavam limitados a um nicho científico, um dos primeiros modelos matemáticos prevendo a catástrofe climática foi desenvolvido, justamente, por quem mais queria esconder os fatos. Marty Hoffert, responsável pelo modelo, enquanto funcionário da petroleira Exxon, pôde assistir os executivos da multinacional americana usando seus pronunciamentos para colocar dúvidas sobre os dados científicos. 

A ideia era classificar tudo como uma mera teoria, e através da incerteza garantir que os negócios não fossem afetados. Estratégia emprestada das companhias tabagistas quando as ligações do produto com o câncer começaram a aparecer.

O mundo capitalista só saiu do armário, quanto às mudanças climáticas, quando lhe foi propício. O enterro da União Soviética, no início dos anos 90, marcado pela derrubada do muro de Berlim, trouxe ares de “fim da história” e abriu oportunidade para falar de outro inimigo global. Não é à toa, que um dos primeiros líderes a discursar para as Nações Unidas sobre o aquecimento global foi a premier inglesa e ícone do liberalismo, Margaret Thatcher.

A primeira COP

Desde então o tema começou a ganhar relevância no contexto global, e em 1992, a Conferência das Nações sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro (Rio-92),  deu origem à Conferência das Partes (COP, na sigla em inglês) como órgão supremo da Convenção do Clima.    

Para selar o fim da disputa ideológica característica da Guerra Fria, a primeira COP aconteceu em Berlim no ano de 1995. Mas só na terceira Conferência, dois anos depois, é que um acordo robusto entre os países desenvolvidos, para frear as emissões de gases de efeito estufa, foi fechado. O já ultrapassado Protocolo de Kyoto.

Até então, a Conferência não incluía a participação dos países periféricos, e um dos maiores contribuidores para o aquecimento global, os Estados Unidos não se comprometia com as metas de redução.

Só na COP-21 em Paris que os americanos resolveram tomar responsabilidade. O Acordo de Paris substituiu o Protocolo de Kyoto, e foi até comemorado por alguns ambientalistas ao estabelecer metas rígidas, incluindo a questão do financiamento, a fim de manter um aquecimento, pelo menos, mais controlado.

Ação coordenada global

Como uma extensão da desigualdade promovida pelo sistema capitalista, os efeitos das mudanças climáticas recaem com mais intensidade sobre aqueles que menos contribuíram para tal catástrofe. Daí a importância de fóruns internacionais que estendam a solidariedade dos países centrais à periferia do sistema.

Um dos pilares que fundamenta essa solidariedade, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), apresentou em seu último relatório uma questão de urgência, não para amanhã, ou para hoje — mas para ontem. Estamos correndo contra o tempo perdido para manter a meta de aumento em 1,5 ºC, enquanto cientistas afirmam não saber o que esperar caso atinjamos um aumento de 2 ºC.

Apesar desse mesmo sistema construir subjetivos cada vez mais acostumados a reconhecer indivíduos, e esquecer agrupamentos maiores como classe, gênero, raça e até a própria sociedade, já é possível que cada um sinta na pele o alerta do planeta.

No último mês, por exemplo, além da falta de chuvas intrinsecamente ligada ao desmatamento, o interior de São Paulo presenciou algo jamais visto na região: uma tempestade de areia, digna de uma região desertificada.

É preciso conectar essas experiências individuais e localizadas a ações políticas globais, que deem conta do fenômeno como um todo, sem ignorar as desigualdades tecnológicas, financeiras e culturais, como devem ser as propostas elaboradas pela Conferência do Clima deste ano.  

Tensão Geopolítica 

Por conta da pandemia de Covid-19, a conferência anual não aconteceu no ano passado, sendo adiada para este ano. A COP-26 começa no dia 31 de outubro, em Glasgow, na Escócia, e vai até 12 de novembro, sob presidência do Reino Unido.

A principal preocupação dos analistas está na recente tensão geopolítica entre Estados Unidos e China. Expressa também no nível militar pelo controle do mar chinês, a disputa reaparece na corrida tecnológica por energia limpa, intensificada após a eleição do presidente Joe Biden.

Conferência Produção+Limpa e Mudanças Climáticas

Como preparação para a COP-26, a Conferência P+L e Mudanças Climáticas apresenta o debate para o âmbito municipal. Afinal, a cidade de São Paulo já sofre impactos perceptíveis, principalmente, pela população periférica. Longos períodos de estiagem, calor extremo, aumento da frequência e da intensidade das chuvas e um aquecimento climático médio acima de 3ºC.

O tema do evento será “Mudanças Climáticas: Um código vermelho para o planeta”, e acontecerá em formato online no dia 25 de outubro, das 18h às 21h. As inscrições estão abertas e podem ser feitas no site: https://materiais.toninhovespoli.com.br/conferencia-clima-sp      

Breno Queiroz

Breno Queiroz

Graduando em jornalismo pela ECA USP e estagiário de comunicação no mandato do vereador Toninho Vespoli

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