Nos últimos dias, após o anúncio de flexibilização da quarentena, tem sido ventilado diariamente na grande mídia a necessidade da reabertura das escolas, em especial das instituições que atendem a primeira infância (CEI e EMEI). Especialistas em Educação de todo o país têm se debruçado sobre o assunto, inclusive com a produção do documento “Para um retorno à escola e à creche que respeite os direitos fundamentais de crianças, famílias e educadores” (baixe aqui o documento). Com o retorno será importante observar e respeitar direitos das crianças como a preservação da saúde e período de adaptação.

Quando se refere sobre a questão da saúde em escolas de Educação Infantil, um ambiente que permita a exploração e o brincar estão envolvidos diretamente. Como brincar sem espaço físico, cheiros, texturas e toque? Na Educação Infantil o contato físico gera uma estrutura emocional de pensamento, onde reprodução de conteúdo não é o suficiente, mesmo para quem tem equipamentos e recursos tecnológicos (tablet, notebook, rede de acesso…),

Estaremos construindo culturas infantis?

No ano passado foi feita uma reestruturação na rede municipal de São Paulo que reduziu drasticamente o quadro de funcionários nas equipes de limpeza. Em alguns casos são apenas duas pessoas para dar conta da higienização de todos os ambientes (o que especificamente na Educação Infantil envolve trocadores, locais para banho – cubas e espaços com chuveiros – penicos, um grande número de privadas), além das salas, colchões, brinquedos estruturados, refeitório, solário, pátio, parque, brinquedoteca e todos os outros espaços que a escola possuir. Ou seja, antes de se cogitar o retorno das crianças com a garantia dos cuidados com a saúde e a preservação do brincar, é latente que seja revisto o quadro de funcionários nas equipes de limpeza, que terão a partir de agora maior recorrência em suas tarefas diárias, além de acrescentar outros cuidados recomendados pela OMS.

Outro aspecto importante é reconhecer que a volta às escolas será um recomeço, em especial para os bebês e crianças pequenas, em que a rotina é tão necessária para o desenvolvimento. Portanto é imprescindível que seja respeitado um novo período de acolhida e adaptação, inclusive com atendimento em horário diferenciado, o que requer articulação com as famílias e redes de apoio. Além disso, é necessário que se tenha o olhar muito apurado ao grande mediador dos processos de aprendizagem e descobertas das crianças na Educação Infantil: o professor. O trabalho do professor nessa etapa da Educação está muito pautado no contato físico (inclusive em contato direto com excrementos) e na afetividade.

Portanto é necessário que todos os EPI tais como álcool em gel, luvas, máscaras, lenços umedecidos e sabonete líquido sejam disponibilizados em quantidade adequada à nova realidade pensando na questão do cuidar e da estrutura pensando no brincar e o fazer pedagógico. Da mesma forma que as crianças, os professores precisam ser acolhidos e participarem dos processos de reorganização da escola e do replanejamento, anteriormente à chegada dos pequenos.

Um dificultador do retorno das crianças às escolas de 0 a 5 anos é uma reivindicação histórica da categoria: o número de crianças por agrupamento.

Dependendo da idade, cada turma possui de 7 a 35 crianças e no caso dos menores, às vezes chegam a ocupar a mesma sala 3 ou 4 agrupamentos com os respectivos professores. Como tentar cogitar algum distanciamento dessa forma? Como acolher esses bebês e crianças com a mínima segurança? Isso sem falar na relação de crianças por Unidade Escolar, que acabam se encontrando e interagindo nos horários de entrada e saída, além dos espaços coletivos.

Enfim, são muitos aspectos a serem observados e garantidos para que APÓS a pandemia o atendimento nas escolas de Educação Infantil possa ser retomado com segurança e garantia de direitos, em especial das crianças atendidas. Afinal, o direito à vida é maior que as necessidades mercadológicas estabelecidas.

 

Vivian Alves é filósofa, diretora de escola e ativista pela educação. Atualmente ocupa o mandado do Vereador Toninho Vespoli

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