Como se prevenir contra o coronavírus se você é pobre

Como se prevenir contra o coronavírus se você é pobre

Pandemia não deve ser tratada como "salve-se quem puder", principalmente, na periferia

O novo coronavírus não infecta por CEP, cor ou classe social, mas as políticas públicas adotadas no Brasil que poderão ser responsáveis pelo contágio e a morte de pessoas pobres e periféricas do país. De antemão é preciso enumerar as nossas diversas peculiaridades que – ante a chegada do vírus – colocam a saúde pública em xeque, como a condição de vulnerabilidade de grande parte dos brasileiros. Todos conseguirão seguir os protocolos de prevenção à doença? 

Nós conhecemos de perto os surtos de dengue, zika, chikungunya, enfermidades relacionadas ao nosso clima tropical.  Dessa vez, o vilão veio importado e por gente “granfina”. Nos primeiros casos noticiados, até artistas estariam contaminados. Pessoas com suspeitas, que estiveram ou que tiveram contato com alguém que viajou aos EUA, Europa ou Ásia, por exemplo, correram aos hospitais particulares para obterem o veredicto sobre o contágio. 

Na semana passada, a periferia poderia até acreditar de que esses causos eram relacionados a uma “doença de rico”. No entanto, o aumento dos números de infectados ou suspeitos por Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus que já mostra sua força no país,passa a levantar o debate a respeito da sui generis desigualdade brasileira frente ao enfrentamento da pandemia

Exemplo disso são as últimas informações divulgadas a respeito da primeira vítima fatal, um homem de 62 anos que era porteiro aposentado e que raramente saia de casa. Mesmo apresentando sintomas, o idoso não estava na lista de casos suspeitos e não havia realizado teste para verificar a existência do vírus, o que foi feito após sua morte. A família aponta negligência por parte do hospital, que é particular, já que cinco pessoas que moram com ele apresentam indícios da doença, estão em grupo de risco e não foram diagnosticados por exames. Será que casos estão sendo subnotificados? Pobres poderão morrer sem saber se contraíram a doença?

É a partir daí que é preciso se preocupar. A doença é “democrática”, mas o acesso ao diagnóstico e ao tratamento pode não ser. Inegavelmente, nosso sistema público de saúde é referência mundial, mas a sua obsolência programada está em curso pelos governos federais há alguns anos. Em 2019, foi reduzido R$ 9 bilhões em recursos da  verba destinada à saúde pelo Governo Federal via a emenda constitucional do teto de gastos. Quem depende do atendimento público à saúde já enfrentava a precarização, com a falta de médicos, de materiais, de vacinas… E agora, José?

Há mais o que ser dito. A campanha de combate à doença divulgada oficialmente e pelos veículos de comunicação soa como um ato individual. Responsabiliza-se o próprio povo para a salvação: “sigam esse protocolo, senão o mundo terá consequências”. E como adotar medidas de prevenção ao coronavírus, como isolamento social, lavar as mãos com sabão frequentemente, usar álcool em gel frequentemente ou manter distância de pessoas, quando essas atitudes não se tratam de uma escolha?

Essa lógica de que só a solidariedade irá nos salvar da pandemia é tão perversa que os próprios trabalhadores consideram o home office como um “privilégio” para alguns. Mas não, não é você que precisa sair de casa para trabalhar que será o culpado pelo aumento do número de mortos no país, mas o Estado. E se alguma atitude efetiva por parte das instituições públicas não for tomada o cenário será como um “salve-se quem puder”. 

Se gradativamente os serviços já estão parando, o setor produtivo também vai. E, por consequência, ocupações sem vínculos empregatícios deixarão de ser necessários. Além disso, no Brasil, os trabalhadores informais representam 41,4% do mercado de trabalho, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicados em janeiro deste ano. 

Marreteiros, motoristas de aplicativos e diaristas sem CLT estão no olho do furacão, tanto no que se diz respeito à contaminação e às consequências econômicas. Um fato que retrata esse drama é a morte de uma empregada doméstica de 63 anos com a suspeita da doença na última terça-feira (17). A senhora trabalhava para uma mulher cujo exame deu positivo para o Covid-19 depois de uma viagem à Itália. Assim como a primeira vítima fatal pela doença, o teste da doméstica foi coletado posteriormente à sua morte e até o momento está sob análise. 

Um estudo dos pesquisadores Débora Freire, Edson Domingues e Aline Magalhães, da UFMG mostra que a camada de menor renda dos brasileiros deve ser a mais afetada. Num cenário de queda de 0,14% do PIB e de 0,1% no nível de emprego, a pesquisa conclui que as famílias com renda entre 0 e 2 salários mínimos podem ter sua renda 20% mais impactada do que a média de outras famílias. Se não houver intervenção estadual, muitos morrerão pela doença ou de fome. 

A crise também é sanitária. Só 48% da população tem coleta de esgoto e 35 milhões não possuem água tratada. Estamos falando de milhões que vivem em amontoados de cortiços ou barracos. Mães que não podem deixar de perder a diária como empregada doméstica. Muitos que não têm água em casa quando chega do trabalho porque a Sabesp faz racionamento. Trabalhadores cuja renda não paga uma unidade de sabão. Pessoas que vivem com o esgoto na porta de casa. Essa realidade está presente na capital paulista, o epicentro da doença no país.

O novo coronavírus escancara para o mundo a nossa desigualdade e reforça o papel fundamental dos governos. Vivemos uma situação de calamidade pública em que a solução não será dada pelo mercado. São as instituições públicas que podem e devem tomar  medidas emergenciais que garantirão a sobrevivência da população mais pobre. 

É urgente que haja a obrigatoriedade de empresas em manter os salários e empregos; tabelamento de preços dos itens de prevenção ou de itens da cesta básica; distribuição gratuita dos medicamentos antivirais e equipamentos de prevenção; estatização dos leitos hospitalares privados; anistia das contas de água, luz, gás e aluguel enquanto durar a pandemia; distribuição de renda básica emergencial; ampliação do prazo de recebimento do seguro-desemprego; suspensão de mandados de reintegração de posse, despejos e remoções judiciais ou extrajudiciais – exceto em casos de risco de vida e a revogação da PEC do Teto de Gastos. 

Saídas existem, basta vontade política.

Juliana Ghizzi

Juliana Ghizzi

Juliana Ghizzi é Jornalista pela PUC-SP. Atualmente, trabalha como assessora de comunicação do Mandato Popular do Vereador Toninho Vespoli

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