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Nenhuma pandemia vem de Deus

Saiba como buscar a fé em tempos de pandemia.

Por Moisés Sbardelotto

Nesta pandemia do coronavírus, já me deparei com algumas interpretações religiosas sobre esse fenômeno que me deram calafrios. Em síntese, a ideia mais assustadora é que Deus teria “mandado” o coronavírus. Ou, suavizando um pouco, que Ele não teria mandado, mas “permitido” que o vírus surgisse e se alastrasse. E fez isso para testar a fé da humanidade, ou para lhe ensinar algo, ou para lhe recompensar posteriormente com um dom maior, ou coisas desse gênero.

Assim, caímos no velho dilema: se Deus é onipotente, pode evitar o sofrimento causado por uma pandemia. Mas, se ainda não evitou, então ou não é onipotente ou não é bondoso.

Mas esse impasse, além de improdutivo, é falso e enganoso. A onipotência de Deus se revela precisamente na Sua misericórdia, como ensinam várias tradições religiosas. Se somos pessoas de fé e cremos – independentemente da crença de cada um/a – que só existimos graças a uma Fonte originária que nos deu a vida gratuitamente, por puro amor, podemos nos reconhecer, todos e todas, como irmãos e irmãs. E, por termos nascido livres e recebido em nossas próprias mãos o dom de gerar vida, sentimo-nos inspirados por esse Sopro divino a também proteger a vida, a optar pela não violência, a praticar a solidariedade.

Papa João Paulo I chegou a dizer que “Deus é nosso papai; mais ainda, é mãe”.

Não sou teólogo, apenas um teófilo que – tendo sido criado na espiritualidade cristã e continuar vivendo-a por opção pessoal – foi apresentado ao Deus-Amor a quem Jesus de Nazaré chamava surpreendentemente de “Abbá”, “papaizinho”. O evangelista João, em uma de suas cartas, diz que “Deus é amor”, um amor gratuito, imerecido, eterno, que “vencerá inclusive as piores infidelidades”, como afirma o Catecismo da Igreja Católica (n. 219). O Papa João Paulo I, que liderou a Igreja por apenas 33 dias, chegou a dizer que “Deus é nosso papai; mais ainda, é mãe”.

E eu mesmo, como pai do Martim, hoje com três anos, não consigo imaginar um Deus que possa ser menos amoroso do que eu. Eu nunca mandaria meu filho à beira da morte. Nunca o faria sofrer nem permitiria que ele sofresse deliberadamente com algo proporcionalmente semelhante a uma pandemia apenas para testar o seu amor por mim, para lhe ensinar que “não se brinca com fogo”, ou para depois lhe recompensar com um brinquedo novo. Posso ser limitadíssimo como pai, mas não sou sádico. Essa “pedagogia” é doentia, nem um pouco humana, em seu sentido mais profundo, muito menos divina.
O mal é sempre um mistério. Nenhuma ponerologia, por mais avançada que seja, consegue explicar as teodiceias.

a pergunta deve ser: onde estamos nós diante da pandemia?

Então, a pergunta não deve ser “onde está Deus diante da pandemia?” ou “por que Deus permitiu a pandemia?”. São perguntas injustas com um Deus-Amor. Ao contrário, a pergunta deve ser: onde estamos nós diante da pandemia? Por que nós, humanidade, permitimos ou continuamos permitindo a pandemia?

Há inúmeras causas biológicas que podem ajudar a explicar o surto do coronavírus, mas há também inúmeras outras causas, de ordem social, política, econômica. São verdadeiros “pecados sociais e estruturais”, que podem até não ter gerado o vírus, mas prejudicam ou impedem o seu combate: falta de políticas públicas, de investimento em ciência e educação, de consciência social e ambiental, de equidade, de partilha justa dos bens e das riquezas, de solidariedade…

Mesmo que a pandemia seja apenas um triste “acaso natural”, as respostas que estamos dando, em geral, como humanidade, como sociedade, como cultura, como indivíduos, por meio de muitos de nossos governantes, continuam revelando, muitas vezes, infelizmente, nosso “egoísmo original”.

A culpa não é de Deus

Deus, ao contrário, exatamente neste momento, está do nosso lado, sofre conosco, dando-nos colo e ternura. Deus está especialmente com os mais frágeis e impotentes diante da Covid-19, chorando e gritando junto com eles contra a pandemia e contra as estruturas sociais, políticas e econômicas que impedem o enfrentamento do vírus.

Deus, em seu amor onipotente, não provoca, nem permite, nem pode parar uma pandemia com um “passe de mágica”. Porque mesmo a onipotência de Deus encontra limites diante da estupidez humana e de uma liberdade humana irresponsável, que continuam se manifestando assustadoramente nestes tempos de pandemia.

A “culpa” não é de Deus. Diante do mistério do mal, portanto, é preciso silenciar. E, diante do mistério de Deus, é preciso pôr-se à escuta, para sentir e reconhecer a Sua presença sempre amorosa, principalmente nas situações mais paradoxais. E, assim, poder fazer as perguntas certas para as pessoas certas.

Este é um texto de opinião de um(a) autor(a) convidado(a). As opiniões aqui presentes não necessariamente refletem as visões do vereador Toninho Vespoli, ou de sua equipe

moisés sbardelotto

moisés sbardelotto

Moisés Sbardelotto é jornalista, mestre e doutor em Ciências da Comunicação com estágio doutoral na Università di Roma na Itália. Atualmente, é professor colaborador de Ciências da Comunicação da Unisinos. É palestrante, tradutor e consultor em Comunicação para diversos órgãos e instituições civis e religiosos.

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