Imagem de Carlos Figueroa – trabalho próprio. CC BY-SA 4.0

Equipe de redação

Por Gabriel Junqueira

“Nada a reportar”. Foram essas as últimas palavras escritas no diário do rei Luís XVI da França. Na tarde do mesmo dia a Bastilha seria invadida. À noite o rei se tornaria refém das massas, alguns dias mais tarde julgado pelos seus súditos. Tal qual um rei absolutista, o bilionário e presidente do Chile, Sebastian Piñera, anunciou dia 17 de outubro que o “Chile parece um oásis”, se referindo a uma suposta estabilidade política, social e econômica. No dia seguinte teve início, no país do cobre, o primeiro dia de uma onda de protestos. O estopim, o aumento das passagens de metrô no país. As causas, entretanto, são desgastes de longa data nos direitos e garantias sociais da população.

Sem dúvida, para quem analisasse apenas frios indicadores econômicos o país pareceria um oásis. A inflação se mostrava baixa, a economia estável, o desemprego em relativo controle, os salários considerados em ascensão… um sólido reino. O problema ocorre quando os indicadores são contrastados com o dia a dia da população chilena: graças ao sistema previdenciário de capitalização, sistema de poupança capaz de beneficiar apenas àqueles que ganharam salários altos o bastante para contribuir para a previdência, 80% dos aposentados recebem menos que o salário mínimo. Como anteriormente ao sistema de capitalização, os sistemas de educação e saúde públicos também contavam com recursos da seguridade social, o esvaziamento da pasta implicou, também, em cortes em toda a infraestrutura social. Talvez uma das maiores falhas das políticas neoliberais seja a sua aparente incapacidade de considerar o cenário social complexo vivido pela população. 

O Povo Revida aos Novos Tiranos

De maneira semelhante, no Equador, o presidente aliado à ala neoliberal de seu país foi, também, incapaz de ter a sensibilidade necessária para considerar os impactos de suas medidas. Em gesto de obediência ao FMI, instituição muito influenciada pelos Estados Unidos, o presidente Lenin Moreno anunciou, por decreto, junto a outras medidas liberalizantes, o fim dos subsídios do diesel. No papel a medida poderia parecer tentadora: permitiria uma economia bilionária aos cofres públicos equatorianos, além de resolver um antigo problema de contrabando internacional do diesel barato. Entretanto os números frios dificilmente revelam a realidade completa: a agricultura do Equador, largamente produzida pelas populações nativas, depende muito do transporte por caminhões movidos a diesel. O decreto declarando o fim dos subsídios tornou o transporte de alimentos mais custoso, elevando o preço de alimentos, e até causando inflação.

Em ambas as nações as respostas do povo a tanto descaso foi lotar as ruas. Mas o Governo, conforme a infeliz tradição latino-americana, respondeu com brutalidade e truculência. O “oásis” chileno foi, pela primeira vez desde a redemocratização, ocupado por tanques e pelas forças nacionais, manifestantes foram brutalmente agredidos, foi instituído toque de recolher e várias escolas tiveram as aulas canceladas. Igualmente, no Equador, as tropas também invadiram as ruas, prendendo, batendo e matando. Até agora são pelo menos 15 mortos no Chile e 7 mortos no Equador, embora algumas ONGs sejam céticas quanto aos números oficiais. 

Precisaremos de mais Terrores?

Ao mesmo tempo, na Argentina, o que se tem é um claro desgaste do Governo Neoliberal de Macri. Os frios remédios neoliberais, não foram capazes de atender às necessidades e desejos reais da população. O desemprego passa de 30%, e no país que mais lê livros na América Latina, a fome volta a ser um problema. De certa forma o principal impulsionador da candidatura à presidência de Alberto Fernandez e Cristina Kirchner é a própria oposição popular às desastrosas políticas econômicas de Macri.

Outros países da América Latina também passam por desgastes: em Honduras a farsa do Governo conservador de Juan Orlando Hernández se desfaz com as condenações na justiça de seu irmão (também político) por narcotráfico. ao mesmo tempo no Haiti, pela quinta semana consecutiva, o povo toma as ruas exigindo a renúncia do presidente liberal Jovenel Moïse. Por grande parte da América Latina a mensagem parece ser clara: Estão cansados do conto de fadas neoliberal.

Nem com violência o governo Chileno foi capaz de reprimir os massivos protestos. Em resposta aos atos, Piñera teve que suspender os aumentos da tarifa. Mas talvez tenha sido tarde demais para ele: não há clareza se os protestos irão arrefecer ou não. Já no Equador, o presidente, também incapaz de dispersar os protestos, aceitou negociar as medidas com lideranças indígenas. As reuniões foram transmitidas em rede nacional, e resultaram no adiamento do corte dos subsídios do diesel. E na Argentina, a perda de Macri é certa, e tudo indica o retorno a um Governo formado por chapa com a ex-presidente Cristina Kirchner. Enfim, neoliberalismo parece estar cedendo às forças populares. Apenas o tempo dirá se os pregadores do autoritarismo capitalista aprenderam que o povo é soberano, ou então se outros terrores e praças de greve serão necessários para ensinar umas duras lições.

É Vez do Brasil

No Brasil a situação é um pouco mais trágica. Os podres poderes parecem não aprender, nem com o passado brasileiro, nem com o presente latino-americano. A casa grande se sente livre para apertar o cabresto do povo oprimido tanto quanto desejar. Talvez seja em parte a tragédia de o Brasil ser o único país que passou por anos de chumbo sem, contudo, lidar com os entulhos da ditadura. A população é ensinada a servir, sem questionar. E os donos do poder são ensinados a continuar reprimindo, sem hesitar. 

Mas as coisas não dão sinais claros de melhora. Os preços das passagens de metrô e de ônibus continuam a aumentar; o Governo finaliza a aprovação de uma reforma draconiana da previdência; as reformas trabalhistas já fazem a população ser forçada a empregos precários e terceirizados. Talvez seja tempo de pararmos de virar nossas costas para o restante da América Latina e aprender com os exemplos de luta e resistência de nossos hermanos. A hora de lutarmos pelos nossos direitos é agora. Que a nova onda de retrocessos sirva, ao menos, como estopim para barricadas no Brasil também subirem! De repente os rostos de Paulo Guedes e Jair Bolsonaro parecem interessantes adornos para uma bela cesta.

1 comment on “Novas barricadas

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