O currículo oculto e práticas escolares herdadas do militarismo

O currículo oculto e práticas escolares herdadas do militarismo

Saiba como o autoritarismo da ditadura militar pode ter afetado a educação dos adultos de hoje

“Carlo Ginzburg, em ensaio clássico, nos fala de um princípio indiciário. Método este extremamente difundido na comunidade acadêmica. Nele o historiador é equiparado a um detetive, pois é responsável pela decifração de um enigma, elucidação de um enredo e pela revelação de um segredo (…) presta atenção nas evidências, por certo, mas não entende o real como transparente. Aliás, refere Ginzburg, o próprio Marx afirmara que, se a realidade fosse transparente, não haveria necessidade de interpretá-la!” (PESAVENTO,2005.p.67)

É possível observar que os projetos educacionais passam sempre por intencionalidades contidas nos currículos de formas não explícitas. Pensar sobre mentalidades e currículos ocultos é sempre interessante, ainda mais quando o período delimitado é entre as décadas de 1960-1980, cheias de transformações sociais, culturais, estruturais e ideológicas inclusive no tocante da importância da Educação Infantil e na formação dos futuros cidadãos “pró- Estado” e progresso.

O período entre as décadas de 1960-1980 é conhecido como de grandes agitações sociais desde o início da República no Brasil. Dentre essas, o processo de ampliação da Escola de Educação Infantil e visão sobre a infância. É importante que se analise a relação entre as políticas educacionais e a formação do pensamento coletivo de credibilidade e ideia de progresso e disciplina. Para Foucault, disciplina são os métodos que permitem controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante das forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade. A disciplina aumenta ou diminui as forças do corpo de acordo com as intencionalidades de quem a rege. Foucault mostra uma percepção em relação à organização do espaço escolar semelhante ao de uma prisão.

Segundo ele, o sucesso desse controle disciplinar se deve ao uso de: olhar hierárquico, que se trata de uma relação de poder; sanção normatizadora, que utiliza o castigo para ordenação dos indivíduos e exame, por meio do qual são diferenciados e sancionados.

Tal definição deixa muito mais instigante pensar nessa relação com as crianças numa escola contextualizada no período da ditadura militar. Pensar em conceitos como disciplina, ordem, trabalho como condição para dignidade, progresso, e currículos com valorização às datas cívicas, heróis nacionais, obediência nas “inocentes” brincadeiras como formação de filas, “siga o mestre”, “ marcha soldado” ou “seu mestre mandou” em detrimento de formação de um pensamento livre, crítico e politicamente ativo.

Essa definição está claramente dentro da perspectiva positivista de Educação, perspectiva esta criada no século XIX e muito utilizada no militarismo e nas escolas do período, a fim de se estabelecer a “ordem” como algo imprescindível ao aprendizado. É importante que se perceba que essa definição pertence a um contexto específico: Ditadura e Guerra Fria.

Nesta perspectiva, qualquer manifestação de inquietação, questionamento, discordância, conversa ou desatenção por parte dos alunos é entendida como indisciplina, já que se busca  “obter a tranquilidade, o silêncio, a docilidade, a passividade das crianças de tal forma que não haja nada nelas nem fora delas que as possa distrair dos exercícios passados pelo professor, nem fazer sombra à sua palavra.” (Wallon, 1975, p.379).

“(…) durante o regime autoritário não havia espaço para optar (…) a opção era obedecer ou desobedecer; não havia espaço para debate ou inovações (…) na ansiedade de romper com o autoritarismo, tentamos passar de um regime no qual todas as decisões são centralizadas em uma só pessoa ou pequeno grupo de pessoas para um regime no qual todas as decisões são tomadas a partir de consulta e/ ou debate de todos interessados.” (D’ Antola, 1989. p.49-50).

“ (…) os alunos são punidos. A função da punição não é de resolver o problema, mas apenas conseguir que o aluno indisciplinado não incomode mais (…) nestas reticências vamos encontrar todo tipo de  ameaças, desde repreensões, retiradas dos alunos da sala de aula, diminuição da nota de aproveitamento, realização de exercícios escolares como castigo, até mesmo a expulsão do aluno (…)”.                (DÁntola, 1989. p. 51).

A escola não é isolada da sociedade. Interfere e interage com os contextos sociais e econômicos muito enraizados não somente no que o Estado impõe, mas nas práticas diretas de formação, de divulgadores de políticas educacionais pró-Estado, como o caso da Revista Escola, de posturas e valores das crianças nas escolas, inclusive de Educação Infantil, com a capa de que o foco principal seria prepará-las para o ensino fundamental e talvez novamente com a ideia de séculos anteriores de conceber crianças como adultos em miniaturas.

Nessa perspectiva, talvez seja possível  analisar a construção de uma identidade social fruto da ditadura militar no Brasil com a intencionalidade de formação de cidadãos formatados ao modelo de Estado partindo das escolas. Essas não como canais de agentes transformadores da realidade mas como objeto de manutenção do status quo.

Dicas de leitura sobre a questão da disciplina na escola:

 

ABUD, Maria; ROMEU, Sonia. A problemática da disciplina na escola : relato de experiência. In: D’ANTOLA,Arlette (Org.). Disciplina na escola. São Paulo : E.P.U., 1989.

D’Antola, Arlete. Disciplina democrática na escola. In: Disciplina na escola: autoridade versus autoritarismo. São Paulo: EPU, 1989.

­­­__________ (Org.). Disciplina na escola. São Paulo : E.P.U., 1989a.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

__________. Educação e mudança. São Paulo : Paz e Terra, 1991.

FOUCALT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

__________. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1977.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

VASCONCELLOS, Celso. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. 4. ed. São Paulo : Libertad, 1995.

VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

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