Jovens sendo espancados pela polícia

Equipe redação

Por Gabriel Junqueira

“Abordagem nos Jardins tem de ser diferente da periferia”. Faz 2 anos que Ricardo Araújo, o então Comandante da ROTA, proferiu essa chocante frase. Mas a validade do dizer continua, infelizmente, atual. O recente Massacre do Baile Funk, que deixou 9 mortos, é prova disso. É terrível pensar que eram jovens apenas querendo se divertir à noite. Mais terrível ainda quando contrastado com o tratamento da polícia com pessoas com mais dinheiro. A Praça Roosevelt, no centro de São Paulo por exemplo, é famoso ponto de encontro para festas ao ar livre da classe média paulistana. Assim como em bailes funk, jovens escutam música alta enquanto se utilizam de toda a sorte de entorpecentes (lícitos e ilícitos). Um batalhão da polícia militar permanece estacionado na própria praça, mas age apenas caso ocorram brigas entre os frequentadores do espaço.

Conheça os 9 jovens que foram assassinados durante o massacre

A situação é bastante diferente na periferia, como reforça o Massacre do Baile Funk. Foram pelo menos 9 mortos. Lá a polícia entrou já atirando balas de borracha e bombas de gás, contra todos os frequentadores do espaço, conforme confirmam vídeos de presentes. A população foi acuada, perseguida. No meio do desespero 9 jovens morreram, supostamente, pisoteados. 4 deles eram ainda adolescentes. O mais jovem, o Gustavo Cruz Xavier, tinha apenas 14 anos. “Meu filho foi assassinado. Foi a primeira vez que ele foi a esse bairro.”disse a mãe de Gustavo. Cada jovem tinha uma vida repleta de sonhos. No massacre os sonhos foram destruídos.

Uma das últimas postagens de Dennys Guilherme, um dos mortos no massacre

Ainda será melhor investigada a razão das mortes, mas é certo que a ação da polícia foi criminosa. Uma menina, que preferiu não se identificar, relata sobre quando ela levou uma garrafada de um dos policiais. “Quando me levantei, um policial me deu uma garrafada na cabeça. Os policiais falaram que era para colocar a mão na cabeça.” Vídeos demonstram jovens sendo covardemente espancados por agentes da repressão. Outro vídeo mostra, ainda, jovens correndo de volta para suas casas, enquanto policiais atiravam em suas costas, supõe-se que com balas de borracha.

O que se tem na prática é o genocídio da população negra

Não se trata de evento isolado. Segundo números da própria polícia militar foram, apenas neste ano, 45 ações contra o baile funk em que ocorreu o massacre. O Baile Funk é alternativa de lazer e entretenimento para a população das quebradas. A perseguição feita pela polícia é a forma do Estado dizer que os pobres e periféricos não devem possuir oportunidade alguma para entretenimento. “Não temos áreas de lazer em Paraisópolis (…) Ao invés do Estado proporcionar estruturas de lazer para o jovem, ele reprime por meio da polícia”, diz Gilson Rodrigues, líder comunitário e presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis.

Tampouco trata-se de ação simplesmente contra os bailes funk. O que se tem, na realidade, é uma operação estruturada com o objetivo de reprimir e matar a população negra e pobre de São Paulo. A população que mais é vítima de assassinatos pela polícia militar em centros urbanos são os jovens negros de periferia, conforme dados do Atlas da Violência de 2017. Mas apesar dos dados, ainda existe quem tente negar o genocídio: enquanto os vereadores votavam a lei de Toninho Vespoli que institui a Semana de Combate ao Genocídio Negro, houve quem se recusou a votar a favor, alegando a inexistência do problema! No fim a lei foi aprovada, mas a contragosto de alguns. Enquanto isso, jovens brancos de classe média, fumam maconha na praça Roosevelt ao lado da viatura da polícia.

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