Os “guardas da esquina” que podem melar a eleição

Violência Policial

Os ensaios de golpe do bolsonarismo ganham maior intensidade com as chances da reeleição diminuindo.

Na última segunda-feira (23), o Comando da Polícia Militar de São Paulo afastou das suas funções o coronel Aleksander Lacerda, do Comando de Policiamento do Interior (CPI) 7, por indisciplina, após uma reportagem do Estadão denunciar suas postagens com convocações para os atos bolsonaristas no dia 7 de setembro

Aleksander tinha sob suas ordens 7 batalhões da PM paulista, cuja tropa de cerca de 5 mil homens é desdobrada em 78 municípios da região de Sorocaba. O primeiro a se aproveitar da notícia do afastamento, e enfatizar a celeridade da punição foi o governador, João Doria, preocupado em estabelecer uma diferenciação com Bolsonaro para 2022.

O clima para um rompimento democrático parece mais presente do que nunca, com as pesquisas mostrando que Bolsonaro não é mais competitivo para a reeleição. Mas é preciso voltar mais no passado para prever os movimentos de um ator imprescindível no ensaio de um autogolpe: as Forças Armadas.

Em 2016, as análises mais otimistas já davam conta de que o verdadeiro rompimento institucional acontecera pelas mãos de Eduardo Cunha, quando deu procedimento ao impeachment de uma presidenta com base em uma lei orçamentária. A posse do vice de Dilma por si mesma já demonstrava quais forças compunham o golpe, e entre elas estavam os militares.

Ainda como interino, Michel Temer recriou o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), órgão de assessoramento da presidência para assuntos de segurança nacional. E colocou sob o comando da pasta o general Sergio Etchegoyen, velho crítico da Comissão da Verdade e protagonista da intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro.

A demonstração incontestável da volta dos militares ao poder político foi a nomeação do general Joaquim Silva e Luna para o Ministério da Defesa. Essa pasta foi criada em 1999, justamente para submeter os militares às ordens de civis, e desde a redemocratização até o governo Temer, nenhum militar tinha assumido o comando geral de todas as forças. 

De Temer para Bolsonaro, é possível perceber que não foi preciso muitos incentivos para os militares despertarem um desejo para escreverem sua própria história. Apesar dos mais de 30 anos de militância corporativista nas polícias, para as altas patentes, Bolsonaro ainda significava algo inconveniente na escalada ao poder.

Segundo uma ficha de informações produzida em 1983, quando o atual presidente passava por um processo no exército, ele era visto como um mau militar. “Necessita ser colocado em funções que exijam esforço e dedicação, a fim de reorientar sua carreira. Deu demonstrações de excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente”.

Assim como a grande mídia, o setor produtivo, e pessoas desesperadas pelo poder como Paulo Guedes, as altas patentes das Forças Armadas embarcaram na campanha do Messias esperando sua domesticação quando fosse a hora de implementar grandes projetos dependentes de amplo consenso.

A primeira figura mais representativa dessa ilusão foi o general Santos Cruz, que desembarcou do governo após desentendimentos com o “vereador federal” Carlos Bolsonaro; e uma das últimas, o ministro da Defesa Fernando Azevedo, que deu lugar a Braga Netto, mais afeito ao golpismo bolsonarista — incluindo o desfile de tanques em Brasília no dia da votação do voto impresso.

De acordo com o professor de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor do livro “Os militares e a crise brasileira”, João Roberto Martins Filho, o alto escalão das Forças Armadas pensa mesmo em uma terceira via. Em entrevista ao El País, ele citou a manifestação de alguns generais contra o julgamento que atestou a suspeição de Sergio Moro como comprovação dessa posição.

Quem já tem tudo, no mínimo, quer se manter onde está. No campo econômico, por exemplo, grandes players do mercado financeiro já escreveram seu manifesto colocando-se contra o entusiasmo autoritário do presidente. Nas Forças Armadas, a exposição à política já incomodou o suficiente, e não há privilégio maior a ser preservado do que os privilégios dos militares. O Ministério da Defesa já gasta meio bilhão por ano com pensões.

O que preocupa estudiosos como o professor, é a ideologia bolsonarista no “guarda da esquina”. O afastamento alardeado por Doria é um pequena exceção dentro de um universo de soldados pressionados pelo trabalho, ressentidos com a esquerda, e replicando o discurso bolsonarista, enquanto esperam algum tipo de reconhecimento. 

Até mesmo colegas do “destemido” coronel Aleksander Lacerda esperavam uma punição mais severa do que o afastamento. “Para uma instituição que se diz militar, o afastamento é punição muito tênue, quase insubsistente”, afirmou o coronel da reserva Glauco Carvalho, em entrevista ao Estadão. “Precisamos coibir essas ações com muita firmeza sob pena de termos no Brasil uma tomada de poder por instituições policiais, como na Bolívia.” 

O caso de Eduardo Pazuello, militar da ativa que assumiu participação em ato político, sem sofrer qualquer punição, é a verdadeira regra. É preciso revisitar e aplicar nesse contexto, a célebre frase do 03, Eduardo Bolsonaro, que vazou durante a campanha de 2018: “basta um cabo e um soldado para fechar o STF”.

Outros militares também estão convocando seus colegas para o ato no dia 7. O atual diretor-presidente da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), coronel da reserva da PM de São Paulo, Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, fez vídeo com o uniforme da Rota apelando para a defesa do Presidente e do país, contra o “comunismo”.

Para fazer um aceno à categoria, Bolsonaro até pensou em facilitar o acesso dos militares à casa própria. Não através das milícias fluminenses, que levantam casas prontas para cair no subúrbio do Rio de Janeiro; mas sim através de financiamento subsidiado, um Minha Casa, Minha Vida dos militares.     

Enquanto isso, o regimento da polícia militar funciona apenas quando é para coibir ideais democráticos de adentrar na corporação. Neste mês, o capitão da Polícia Militar do Espírito Santo, Vinícius Sousa, que faz parte do movimento Policiais Antifascistas, recebeu uma notificação de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) pela Corregedoria da PM, acusando-o de manchar a imagem da corporação.

“Me causa espanto permitirem esse nível de ousadia. Há publicações de policiais em manifestação antidemocrática, exaltando a tortura, em favor de violações desrespeitosas a pessoas públicas, ou não públicas”, disse ele à Ponte. “Isso é de conhecimento público, policiais fazendo postagens pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF). A instituição deveria responsabilizá-los por isso, eles sequer respondem por esses atos, não são impedidos e não são alvo de processo.”

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