PARA ALÉM DO ANTIBOLSONARISMO – UM MANIFESTO ANTIFASCISTA

PARA ALÉM DO ANTIBOLSONARISMO - UM MANIFESTO ANTIFASCISTA

Nos últimos dias há uma movimentação política nas redes sociais brasileiras. Elas estão estampadas por imagens do slogan antifascista. Corinthianos, palmeirenses, umbandistas, mulheres negras, professores e uma infinidade de agrupamentos sociais se expressam: Sou (preencha-aqui), sou antifascista.

A radicalização do discurso de Bolsonaro, seus filhos e apoiadores fez surgir, mesmo em meio a uma pandemia, um sentimento de luta e enfrentamento ao bolsonarismo. Membros de torcidas organizadas se reuniram para protestar contra o governo de Jair Bolsonaro no último fim de semana. 

Essa luta não se trava apenas na Internet, com suas infinitas notas de repúdio, mas também nas ruas, lugar que naturalmente a esquerda ocupou e, ocupa, de onde jamais deve se retirar.

Antibolsonarista ou antifascista?

Para entender o que é ser antifascista é preciso outro questionamento: o que é o fascismo? O fascismo não morreu em 1945, quando os regimes totalitários, como o de Hitler, na Alemanha, e de Mussolini, na Itália, foram derrotados na Segunda Guerra Mundial. Caracterizá-lo não é uma tarefa fácil, mas há um rico arsenal bibliográfico para explicar .

O fascismo é uma fusão de ingredientes diferentes que se combinam. Os elementos são o nacionalismo exacerbado e retrógrado, a supremacia branca e a direita radical, unidos por inimigos em comum e por uma motivação de falsa unidade de Nação.

Nesse sentido, vale destacar que o fascismo encontrou e encontra lastro nos governos de direita ou extrema-direita que, também, buscam a manutenção do capitalismo, através da força, das armas e, principalmente, da violência. Além de ser 

um movimento que tem por objetivo principal a destruição de toda e qualquer forma de organização social combativa e independente com a finalidade de alterar substancialmente a correlação de forças na sociedade a favor da grande burguesia. 

Por isso, é necessário combater as estruturas que geram o fascismo, uma delas, o sistema capitalista. Aqui vale lembrar dos selos antifascistas da Internet, que até mesmo a apresentadora Xuxa compartilhou um em suas redes com a seguinte legenda: “não sou de esquerda, não sou de direita, sou brasileira” e o selo “Brasileira antifascista”.

Não se iludam, nem todo antibolsonarista é antifascista. Mas todo antifascista é antibolsonarista. Acontece que o sentimento de revolta e até de arrependimento, por parte de alguns, jogou todos no campo do antibolsonarismo. Porém, não se pode esquecer que ser antifascista é algo maior. 

Aqui, podemos citar dois exemplos, Sergio Moro e Alexandre Frota. Ambos estiveram à favor do fascismo e apoiaram fortemente as ideias de Bolsonaro, porém agora que Bolsonaro não atende mais seus interesses, pularam fora.

(Brasília - DF, 29/08/2019) Solenidade de Lançamento do Projeto em Frente Brasil.

Uma luta contra o capitalismo e o neoliberalismo

A luta antifa ou antifascista é um conjunto de práticas e saberes que se lança contra a qualquer pessoa, grupo ou ação que remeta ao fascismo. Para Mark Bray, autor do livro O Manual Antifascista, o antifascismo é uma política nada liberal, é a revolução social aplicada ao combate à extrema-direita, não apenas à figuras fascistas, como o Bolsonaro.

É perigoso nos atentar unicamente à imagem do presidente, como a personalização do fascismo. Esse pode ser um álibi a todos os que contribuíram para a sua eleição e que, portanto, toleraram seus discursos racistas e misóginos. Nesse sentido, questionamos, por que quem lhe deu apoio anteriormente está voltando aos armários? Seus atos foram longe demais ou o plano econômico prometido saiu dos eixos?

Mesmo que antes de sua eleição, a figura pitoresca já vociferava preconceitos, sua campanha teve apoio de setores artísticos, empresariais e da classe média. Como carta na manga, seu projeto político-econômico  tinha Paulo Guedes, como avalista para o mercado financeiro com o pilar da diminuição do Estado, através de privatizações, do ataque ao funcionalismo público e das contra-reformas sociais previdência e trabalhista. 

Na periferia do mundo, o capitalismo neoliberal apresenta uma crise crônica. Para a filósofa e professora Marilena Chauí, há uma tese, defendida por alguns economistas, de que o neoliberalismo chegou ao seu ponto de crise final. “O que estamos assistindo é esse ponto de mutação e nesse momento de crise, ele faz aquilo que é típico do capitalismo: é sempre a resposta autoritária”, explica.

De acordo com Chauí, a resposta capitalista à crise é o endurecimento da direita e extrema direita, o que leva a regimes autoritários. É preciso salientar que no Brasil, vivemos uma democracia às avessas. Não é errado afirmar que vivemos em um regime fascista. Um regime autoritário que busca uma reafirmação nacionalista retrógrada (ironicamente, muito submissa aos EUA) e que já destrói a cultura, sucateia e persegue a formação acadêmica, e implementa reformas de aprofundamento do capitalismo.  

O regime fascista só está de black tie. Debaixo das vestes do “eleito democraticamente” está uma farda suja de sangue. Além disso, sua base é sustentada pelo apoio incondicional às milícias, Caixa Dois, alusão a torturadores e genocidas, uso de robôs e de fake news. O fascismo não existe sem os meios de comunicação!

Por isso, ser antifascista é combater com força esse sistema vigente. Ser antifa no Brasil é, também, lutar contra as reformas aprovadas no governo Temer e Bolsonaro.

Não dá para fechar os olhos e achar que a reforma trabalhista ou a PEC do Teto são questões menores. Esses dispositivos aprovados e apoiados por muitos que se hoje se colocam como antifascista são a causa da radicalização e aprofundamento do capitalismo. Combater as desigualdades e as leis que a aprofundam é lutar contra o regime fascista que, também, se materializa na economia. 

Uma luta antirracista

Os fascistas talvez não saibam o que querem, mas sabem bem o que não suportam. O governo Bolsonaro vocaliza e se expressa no ódio. E pior de tudo, encontra respaldo em parte da sociedade brasileira. Recentemente, isso foi concretizado na polêmica reunião ministerial em que o presidente e seus funcionários não apresentavam nada concreto frente à pandemia do novo coronavírus, mas declamavam preconceitos.

“Odeio o termo povos indígenas. (…) Só tem um povo nesse país”, disse Abraham Weintraub, ministro da Educação. Em outro momento, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos questionava o nascimento de crianças em quilombos: “Nossos quilombos estão crescendo e os meninos estão nascendo nos quilombos e seus valores estão lá. Então, tudo vai ter que ver a questão dos valores”, disse Damares. Para o fascismo, há a tentativa de impor a ideia de que somos apenas um único povo. E para fazer parte desse povo é preciso seguir uma série de condições: raça, classe social, religião e os valores impostos pelos fascistas. Ou seja, negros ou indígenas continuarão sendo excluídos, tendo suas populações dizimadas. 

A ideologia do fascismo também é a da negação. Nega-se tudo que não faça parte do grupo homogêneo, nem o conhecimento, e em consequência, o diálogo. O núcleo de toda violência contra diferença é o ódio, que no extremo de sua expressão, aniquila o outro.  Eles dizem que o inimigo do povo brasileiro são os comunistas, que, na realidade, são todas as pessoas que discordam deles. E isso remete à mesma estratégia da ditadura, situação na qual a finalidade é de destruir o inimigo interno em prol da manutenção do regime. 

Desse modo, a supremacia branca e a manutenção de seus valores, como cristianismo e a família tradicional, que preocupavam a ministra, controlam os corpos não-brancos do país. Os negros, assim como os povos originários, são os que sofrem com a violência institucional, que se expressam na negação da sua cultura até o punitivismo, que os encarceram e os matam. 

A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil, segundo a Anistia Internacional. E como afirma Djamila Ribeiro, no seu livro Pequeno Manual Antirracista, “não é permitido odiar os negros, mas podemos odiar criminosos”. Portanto, ser antifascista é também ser antirracista.

O fascismo, o capitalismo e o racismo são os pilares que sustentam um sistema de opressão que nega direitos, anulam vidas e beneficia economicamente por toda história a população branca, ao passo que a não-branca é tratada como mercadoria, não tendo acesso a direitos básicos e à distribuição de riquezas.

Charge de Latuff. https://latuffcartoons.wordpress.com/2020/06/

Temos um projeto maior

Antonio Gramsci no seu texto Nem Fascismo, nem liberalismo: Sovietismo! descreve, de forma direta, o caminho que temos que percorrer:

“A tarefa essencial de nosso partido consiste em penetrar essa ideia fundamental  entre os operários e camponeses: somente a luta de classe das massas operárias e camponesas derrotarão o fascismo. Somente um governo de operários e camponeses pode desarmar a milícia fascista. Quando tais ideias essenciais tiverem penetrado o espírito das massas operárias e camponesas por meio de nossa incansável   propaganda, os trabalhadores das fábricas e dos campos, ou qualquer outro partido, entenderão a necessidade de construir Comitês Operários e Camponeses para a defesa de seus interesses de classe e para a luta contra o fascismo.”

O recado é simples e direto. Precisamos incansavelmente dialogar com os trabalhadores para apresentar e mostrar que temos uma saída, que é um governo popular, onde as lutas dos negros, das mulheres, dos LGBTQIA+, dos trabalhadores e dos pobres estarão no centro.

Gramsci nos alerta ainda para termos cuidado e atenção com os liberais que até ontem compunham o governo, e agora dizem estar do lado dos trabalhadores contra o fascismo. A crise gerada pelo fascismo “só pode ser resolvida com a ação das massas trabalhadoras. Não há possibilidade de liquidação do fascismo no plano das intrigas parlamentares, apenas um compromisso que deixa a burguesia na dianteira com o fascismo armado a seu serviço. O Liberalismo, mesmo se inoculado com as glândulas  do macaco reformista, é impotente. Pertence ao passado”.

E por fim, o mais importante! Ao construirmos um governo popular e dos trabalhadores devemos construir uma nova forma de pensar e de agir. Esquecer o pensamento burguês liberal. 

“Um governo das classes dos trabalhadores e camponeses, que não irá se preocupar nem com a constituição nem com os princípios sagrados do liberalismo, mas que está determinado em derrotar definitivamente o fascismo, desarmá-lo e defender os interesses dos trabalhadores da cidade e do campo contra todos os exploradores, essa sozinha é a única força jovem capaz de liquidar um passado de opressão, de exploração e crime e de dar um futuro de verdadeira liberdade a todos que trabalham”, escreve Gramsci.

Referências bibliográficas

TIBURI, Marcia – Como conversar com um fascista 

BRAY, Mark – O Manual Antifacista

PAXTON, Robert – A anatomia do fascismo 

RIBEIRO, Djamila – Pequeno Manual Antirracista

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