Por que Clara é sim a heroína do filme Aquarius?

Sônia Braga Clara Aquarius

A personagem Clara feita por Sônia Braga não é essa “mesquinha” que o mercado imobiliário quer fazer parecer.

Perto da revisão do Plano Diretor, principal lei municipal que estabelece regras, parâmetros e incentivos para o desenvolvimento da cidade, o lobby do mercado imobiliário começa a circular meias ideias para dar base aos seus novos investimentos. Uma discussão que sempre volta — sinal de que sentiram a crítica — é sobre o papel de Sônia Braga no filme Aquarius (2016).

A personagem Clara, dirigida por Kleber Mendonça Filho (mesmo cineasta de Bacurau), é uma moradora de Recife resistindo à especulação imobiliária, como última moradora de um antigo prédio de frente para o mar, onde criou seus filhos e teceu inúmeras lembranças. Contra ela, está a Construtora Bonfim e seu herdeiro, Diego — uma caricatura dos mais novos gestores do capital brasileiro, formado em “bussiness”, em uma faculdade qualquer dos Estados Unidos.

Os amigos das construtoras querem nos convencer de que a beleza de Sônia Braga é uma armadilha, e que na verdade ela é uma anti-heroína. Afinal, as táticas de dissuasão e a multiplicidade de assédios implementadas pela Bonfim não passam de um meio incomum para o fim benevolente de aumentar a oferta de imóveis e contribuir para o adensamento urbano.

“Mas a ciência ensina que Clara é um perigo.” Uma mesquinha, dogmática, incapaz de perceber que tudo não passa de uma relação ganha-ganha, certo? Quanta fantasia! Essa ideia é mais fictícia que o filme.

Verticalização é diferente de adensamento

Isso porque o filme se baseia em uma disputa ardente e real na Cidade de Recife, cujo marco histórico é a criação do PREZEIS (Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social), criado em 1987 por iniciativa dos movimentos populares. Antes mesmo da constituição democrática, a luta por moradia já havia pressionado a administração municipal a reconhecer “o princípio de que a terra existe para morar e não para ser fonte de lucro e especulação.”

E contrariando as expectativas de quem acredita nas mágicas do mercado, existem bairros periféricos de Recife com mais habitantes por hectare (Alto Santa Terezinha – 245,74 hab/ha) do que o principal modelo de adensamento urbano de grandes arranha-céus, a ilha de Manhattan (272,27 hab/ha), em Nova York.

É claro, deve-se considerar que Manhattan tem áreas públicas e comerciais para acrescentar na conta, mas a comparação serve para nos perguntar: verticalização como, onde, para quê e para quem? Trazendo a questão para São Paulo, a urbanista Raquel Rolnik explica:

 

“Sem nenhum espigão, nossos bairros populares são muito mais densos que bairros nobres verticalizados. Mesmo bairros com muitos sobradinhos geminados, como o Bixiga ou o Rio Pequeno, são mais densos que um bairro “paliteiro” como Moema, por exemplo.”

 

Como está a revisão do Plano Diretor em São Paulo?

Depois de muita pressão dos movimentos sociais e ativistas pelo adiamento, em função da pandemia de covid-19, que impede participação ampla nas discussões, a Prefeitura apresentou à Câmara, uma proposta para prorrogar o prazo da discussão do Plano Diretor.

Segundo o gabinete de Ricardo Nunes, “a medida foi necessária diante da inviabilidade de cumprimento do prazo atual (31 de dezembro de 2021) para concluir a revisão.”

O atraso do prefeito é injustificável, desde quando o Ministério Público enviou-lhe parecer recomendando o adiamento das audiências públicas em agosto deste ano. O parecer também detalha como a Prefeitura falhou em cumprir uma série de requisitos para que a revisão pudesse acontecer de forma acessível a todos os paulistanos.

  

Breno Queiroz

Breno Queiroz

Graduando em jornalismo e estagiário no mandato popular e periférico do professor Toninho Vespoli.

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