porque a Linha 15-Prata é um erro​

Entenda porque a zona leste virou experimento para a privatização

Desde sua inauguração, transporte inédito acumula atrasos e uma série de falhas

Em nenhum lugar do mundo, a não ser na cidade de São Paulo, o monotrilho é utilizado como meio de transporte de alta capacidade. No entanto, esse pioneirismo não vem acompanhado de um pleno funcionamento. Pelo contrário, desde sua inauguração em 2014, a linha Linha 15 – Prata, que liga Vila Prudente até São Mateus, coleciona atrasos, falhas e acidentes. 

Diariamente, usuários enfrentam velocidade reduzida, troca de trens, grandes intervalos entre viagens, e pra piorar, a superlotação com a inauguração de novas estações. 

Há um ano, dois trens se chocaram próximo à estação Sapopemba. Em 2016, um trem prosseguiu viagem com as portas abertas na estação Oratório.  Agora, em 2020, a linha liderou o ranking de problemas em janeiro. Em 28 dias, ela teve operação normal somente em 76,4% do tempo, ou seja, a cada quatro horas de funcionamento, uma foi atípica. Aliás, são raros os fins de semana em que a linha não opera em horário reduzido. Geralmente a partir de quinta-feira começam a surgir placas de chão com o seguinte aviso: “Estação fechada no domingo até às 14h. Motivo: testes operacionais”. É isso que ocorre quando tentam vender São Paulo

Barato que sai caro…

Não é a única justificativa, mas o Metrô não possui expertise suficiente para operar a nova tecnologia. Um dos vilões dos funcionários da linha é o equipamento chamado “Finger Plate”, uma placa metálica afixada a cada quatro vigas para evitar dilatação do concreto sem que isso prejudique os pneus do monotrilho. Com as viagens, os parafusos que prendem essa estrutura se soltam. Mas por que o governo estadual resolveu investir em algo desconhecido até então? 

O projeto da Linha 15-Prata saiu dos papéis durante o governo tucano de José Serra em 2009. A promessa era que esse tipo de modal teria custo inferior e menor tempo de implementação comparado a uma nova linha de Metrô. Os olhos poderiam até brilhar só de pensar que tal economia viabilizaria um trajeto mais rápido entre Vila Prudente e Cidade Tiradentes. 

De início, foi anunciado o valor de investimento de R$ 2,8 bilhões, já que evitaria desapropriações, por exemplo. A conclusão de toda obra (até Cidade Tiradentes) deveria ocorrer em 2012, com a entrega de 17 novas estações com 23,8 km de extensão. Na prática, nada disso aconteceu.

Hoje, o valor total gasto chega a quase R$ 5,5 bilhoes. A data de entrega da linha  já foi adiada várias vezes, já que as obras foram interrompidas de tempos em tempos. Em 2014, engenheiros “descobriram” galerias de águas de um córrego embaixo da avenida paralela ao monotrilho. Em 2018, uma empresa contratada para realizar serviços hidráulicos abandonou o trabalho e as obras ficaram paradas por oito meses. E por aí vai…









No monotrilho, 2,8 bilhões viraram 5,2 bilhões. O preço aumenta, a qualidade diminui.













As primeiras duas estações, Oratório e Vila Prudente, ficaram prontas em 2014 com funcionamento parcial. Só em 2016, tiveram o horário estendido entre as 4h às 0h. Ou seja, após cinco anos do início das obras em 2009 foram construídos apenas 2,9 km. Após dois anos, em 2018, foram abertas quatro estações: São Lucas, Camilo Haddad, Vila Tolstói e Vila União. Ano eleitoral! 

Finalmente em 2019, foram inauguradas Sapopemba, Fazenda da Juta e São Mateus. No data da abertura, o governador João Doria de olho na eleição presidencial anunciou  que a linha chegará à Cidade Tiradentes até dezembro de 2022. Dez anos após a previsão inicial. Deveríamos acreditar? 

Feita para ser privatizada

Sob gestões tucanas, reconhecidas pela sua saga privatista, o monotrilho foi construído como modelo de negócio. O sistema exige a contratação de poucos funcionários, o que seria um atrativo para sua concessão. Já em 2016, o governo Alckmin anunciou o interesse na privatização, o que não aconteceu.  

Em março de 2019, o Consórcio ViaMobilidade – Linha 15, formado pela CCR e pela RuasInvest Participações, venceu a licitação com uma oferta  de lance de R$ 160 milhões, mas foi impedida pela Justiça após ação do Sindicato dos Metroviários. Ainda bem! O grupo, o único a participar do leilão, arrematou por apenas 3% dos R$ 5 bilhões já gastos pelo governo. Preço de banana. A operação e manutenção ficaria sob sua responsabilidade por 20 anos. O grupo está à frente de duas linhas em operação – a 4-Amarela e a 5-Lilás. 

A alegria dos empresários durou pouco. Em novembro de 2019, a Justiça determinou a anulação da concessão acatando os argumentos dos metroviários.  O juiz Kenichi Koyama, da 11ª Vara da Fazenda Pública do TJSP – Tribunal de Justiça de São Paulo acatou o argumentos dos metroviários de que a licitação não teve autorização da Alesp – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e que o modelo de contrato impossibilita a expansão da linha com uma nova licitação como manda a lei. O Sindicato também criticou na ação a cláusula que prevê remuneração fixa de R$ 1,70 por passageiro transportado à concessionária. Com atualização do valor, o Governo do Estado arcaria com eventuais prejuízos.








No monotrilho serão 405 mil passageiros por dia. Tragédia anunciada?












Monotrilho: porque a Linha 15-Prata é um erro

A demanda estimada para a linha 15 pronta é superior a 405 mil passageiros por dia, o que lhe dará o título de maior monotrilho do mundo. No entanto, com tantas falhas, atrasos e acidentes é questionável a capacidade do monotrilho em comportar a região leste de São Paulo, a mais populosa da cidade.

Como falado no início do texto, após a abertura das estações Sapopemba, Fazenda da Juta e São Mateus em horário integral – das 4h40 à meia-noite – os trens estão cada vez mais lotados, obrigando o usuário a esperar até cinco composições para conseguir embarcar. A Secretaria Estadual de Transporte chegou a afirmar que foi previsto o aumento de demanda com a abertura das estações e de que na Vila Prudente há o desligamento de escadas rolantes como “estratégias operacionais”, fato muito criticado com quem usa a linha. 

De acordo com reportagem do jornal Agora, os ônibus que fazem o percurso da linha 15 estão esvaziando. Obviamente, qualquer avanço em transporte público é bom e necessário. O trajeto pode até ficar menos demorado, mas a superlotação é um grande problema, visto que as obras sequer terminaram. 

Prevendo esses riscos que agora acontecem com a linha, em parceria com o Sindicato dos Metroviários, o vereador Toninho Vespoli (PSOL) enviou uma representação ao Ministério Público Estadual em março de 2019, que solicitava medida cautelar quanto a segurança do monotrilho. O inquérito está  aberto pela Promotoria de Justiça do Patrimônio Público.

Até o momento fica evidente que o investimento em metrô convencional seria o mais prudente para o trecho Vila Prudente e Cidade Tiradentes. Para o bem dos usuários, o governo estadual terá que cumprir os prazos de entrega e se responsabilizar pelas más escolhas. Já a Companhia do Metrô terá que aprender com os próprios erros para que a linha do monotrilho possa operar plenamente. 

Juliana Ghizzi

Juliana Ghizzi

Juliana Ghizzi é Jornalista pela PUC-SP. Atualmente, trabalha como assessora de comunicação do Mandato Popular do Vereador Toninho Vespoli

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