antifascistas

Tem Gente com Fome!

Tem Gente com Fome!

Saiba porque os entregadores estão lutando por comida!

Já dizia o poema, mais tarde musicado, do poeta negro Solano Trindade “Trem sujo da Leopoldina; Correndo, correndo, parece dizer; Tem gente com fome, tem gente com fome […]”. O Poeta do Povo não tinha como saber, mas seus versos hoje se mostram tão atuais quanto os nossos smartphones: entregadores de aplicativos vão correndo pela cidade carregando em suas mochilas comida para aqueles que podem pagar. Mas eles próprios passam fome. São forçados à humilhação de ter que entregar comida de estômagos vazios. Recentemente, com a nova onda de protestos, alguns entregadores têm se levantado contra a opressão. Exigem o mínimo: que lhes dêem comida!

A situação para esses trabalhadores é avassaladora. Segundo pesquisa da Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas), entregadores que trabalham por 12 horas por dia ganham em média míseros 936 reais por mês! Nós já cobrimos em outro texto como essas empresas de aplicativo se safam dessa, chamando trabalhador precarizado de “empreendedor”.

Os trabalhadores se unem!

Mas agora os trabalhadores estão se voltando contra os patrões. Paulo Lima, conhecido como “Galo”, é uma das lideranças do novo movimento dos entregadores. Em fala impressionante de apenas um minuto, durante protesto na capital paulistana, conseguiu resumir o que pensadores e intelectuais não souberam falar em discursos e comícios de horas de duração. E em formato olho no olho, feito para chamar seus colegas para ação. “A gente precisa de vocês meus companheiros! Ninguém aqui é empreendedor de porra nenhuma! Nós é força de trabalho!” Diz ele em um momento marcante no vídeo que em 5 dias já teve mais de 500 mil visualizações. Atrás dele, durante a fala, colegas de trabalho erguem o punho em sinal de protesto. Todos com mochilas de entregadores.

Paulo Lima é nascido no bairro Jardim Guaraú, bairro de periferia da zona norte de São Paulo. Lá ele conta, em entrevista ao jornal UOL, que aprendeu política com o rap. “Ali, vi que os rappers eram respeitados porque eram inteligentes. Porque cada letra de rap é uma aula de política. As músicas são cheias de referências. Quando ganhei o livro do Malcolm X, fiquei feliz porque estava curioso para descobrir quem era esse cara.” Comentou Galo durante a entrevista. Ele próprio encarou o compromisso. Foi buscar conhecimento, foi buscar poder. E a cada livro que lia foi escrevendo um rap novo.

RAP é Compromisso

A escola popular é a escola da poesia. Dos saraus, dos slams, do rap. Já dizia Sabotage “rap é compromisso”. Compromisso dos mais pobres, dos miseráveis, contra a classe dos opressores. E assim Galo dá vazão à luta. Organiza a sua classe contra os patrões da “indústria 4.0”.

Galo conta que ainda enfrenta preconceito dos seus companheiros. “Fui falar com um, e ele me mandou ir para Cuba. Beleza. Fui falar com um segundo, e ele me mandou ir para Cuba também. Aí, irmão, George Orwell tinha que estar lá comigo para poder escrever um livro sobre aquele momento”. Na verdade Galo hoje luta pelo mínimo “Comida, comida, comida, comida, comida. Nós só temos essa pauta. A gente só pede o básico do básico para o ser humano viver bem”. Comenta ele sobre o objetivo de fazer com que as empresas de aplicativo forneçam algum tipo de auxílio para alimentação.

Movimento de Pensadores

E mesmo com o preconceito de alguns colegas, Galo não abaixa a cabeça. Continua indo firme pra briga. “Eu sei que o caminho é esse, é empoderar essas pessoas. Tem que fazer a galera pensar. Os entregadores antifascistas é pra ser isso: um movimento de pensadores”

Se Solano Trindade ainda estivesse vivo, sofreria ao ver o quanto ainda ficou por fazer. Mas ver Galo e outros Poetas do Povo se organizarem lutando pela comida que lhes é negada, talvez fizesse Trindade manter a fagulha de esperança acesa.

“Se tem gente com fome, dá de comer”
Solano Trindade.

Gabriel Junqueira

Gabriel Junqueira

Gabriel Junqueira é jornalista, ativista e militante do Partido Socialismo e Liberdade. Atualmente estuda Direito e compõe Mandato Popular do Professor Vereador Toninho Vespoli.

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A RENOVAÇÃO DA ESQUERDA BRASILEIRA PODE TER INICIADO NESSE DOMINGO

A RENOVAÇÃO DA ESQUERDA BRASILEIRA PODE TER INICIADO NESSE DOMINGO
Fonte: Mídia Ninja

Postado originalmente no site: https://institutocultiva.com.br/a-renovacao-da-esquerda-brasileira-pode-ter-iniciado-nesse-domingo/

Por Rudá Ricci

Prometi que escreveria sobre a possível renovação da esquerda brasileira a partir do que foi ontem.

Ontem tivemos manifestações fortes em muitas capitais do país. Os manifestantes eram, em sua maioria, jovens negros, trabalhadores da limpeza urbana, do pequeno comércio (farmácias, padarias), moradores das periferias.

Não foi significativo o número dos que portavam bandeiras de partidos (havia as do PSTU, PSOL, UP e PCB, mas também alguns militantes assustados do PCdoB e PT), todos foram acolhidos pelos que protestavam. As falas e palavras de ordem eram novas, mais agressivas.

Colhi vários depoimentos e falas de gente que andava nas ruas. Convergiam para aquele orgulho meio irônico dos jovens da periferia dos grandes centros urbanos. Sempre que falo para gente da periferia, ouço o mesmo: “somos perifa, aqui não entra qualquer um”. Pois bem, esse discurso estava nas ruas do domingo. Eles diziam que apanham da polícia toda semana e que não tiveram como se esconder do Covid19 porque pegam ônibus diariamente para trabalhar. Não há como fugir da realidade para esse pessoal. O mais interessante é que ironizavam o que chamavam de “esquerda branca de classe média”. Muitos diziam que somos covardes ou “preguiçosos” (este adjetivo leva a ironia fina dos negros da periferia, gente que fala com um sorrisinho irônico no canto da boca).

São jovens, saíram às ruas porque saem todos os dias. E continuarão saindo. Eles enfrentam a PM há tempos, nos seus bairros, no morro, nos jogos de futebol. Conhecem essa violência institucional desde crianças. Parte deles está chegando na política por esses dias. Começaram a perceber que os ataques ao bolsonarismo não eram discurso despeitado de quem perdeu as eleições. Nem gente que quer ter uma boquinha. Começaram a perguntar o que é ditadura.

Vários vieram pelo chamado das torcidas organizadas. Que decidiram se unir para enfrentar esse pessoal que conhecem bem: a repressão das policiais militarizadas que perseguem pretos pobres. Já havia visto essa reação dos jovens da periferia em 26 de junho de 2013.

Mas, e a esquerda tradicional? Como agiu? Com covardia extrema. Trata-se de uma esquerda desconectada do mundo real, focada em valores da época do lulismo. PT, PCdoB, PSB, PSOL e PDT possuem um quinto dos vereadores e prefeitos do país. É um exército político sem generais. O PSOL foi à guerra, mas os outros 4 partidos que citei ficaram no muro. Em Belém do Pará, os 5 se uniram para não apoiar as manifestações. Algo raro na última década. Quais os motivos deste pânico? A leitura parlamentar do jogo político que os engoliu.

A lógica parlamentar é marcada por uma estética da fala: discursos épicos, definitivos, muitas vezes, de confronto. Porém, a prática é cândida, de longas e permanentes negociações com seus pares no parlamento. Jogam em espaços curtos fazendo jogadas capciosas. A esquerda tradicional brasileira é dominada por esse estilo parlamentar, discursivo, de pouca prática incisiva no mundo real. Fazem notas públicas, petições online, distribuem números de WhatsApp e e-mail de autoridades públicas para serem pressionadas via internet. Esse jogo estético que leva a quase nada.

Pior: desde o impeachment de Dilma, destilam um discurso defensivo e medroso. Vários expoentes dessa esquerda de tipo parlamentar – que muito fala e pouco faz – começaram a bradar que o golpe está perto, que não haverá eleição, que o apocalipse é “now“. Já sugeri que se trata de uma faceta do transtorno do estresse pós-traumático. O impeachment de Dilma, a prisão de Lula e os absurdos votados pelo Congresso Nacional se somaram às eleições de alguns governadores e um presidente de extrema-direita. Arriaram. A esquerda acometida por transtorno do estresse pós-traumático teme a extrema-direita. Acredita que formaram um bloco poderoso, articulado aos interesses dos EUA, fechado no apoio das FFAA e das PMs estaduais, com um núcleo de apoio social estabilizado ao redor de 30%.

Essa leitura enviesada acaba invariavelmente sugerindo que já vivemos uma espécie de ditadura velada. A construção discursiva é absolutamente subjetiva, sem base na realidade concreta, um rebaixamento conceitual e político que raramente presenciamos na história da esquerda.

O medo e a baixa autoestima começaram a derrotar moralmente essa esquerda de tipo parlamentar. Anda como siri; corre como siri para dar impressão de movimento, aquele jogo do Dunga para inglês ver. Não poderia dar em outra: condenaram a saída às ruas. Sair às ruas, disseram, seria dar pretexto para uma intervenção militar. Não importavam a queda de popularidade de Bolsonaro e seu governo, os rachas no interior do governo, o enfrentamento sóbrio do STF aos desmandos do governo, as reações de jovens nas redes sociais. Não importaram os dados sobre aumento estratosférico dos índices de desemprego, as ações de solidariedade envolvendo muitas organizações populares, a queda vertiginosa de renda dos pobres, as mortes diárias por Covid19. Para a esquerda parlamentarizada, os dados são adornos.

Enfim, a esquerda parlamentarizada é aquela que não consegue utilizar os dados objetivos da realidade e não consegue enxergar os sinais da subjetividade popular. Porque está sempre na tribuna. Essa esquerda parece envelhecida precocemente, embebida em formol.

Mas, no confronto com o que ocorreu ontem, essa esquerda deixou estampada a diferença dos ambientes em que ficou paralisada nesse domingo e o ambiente para onde foram os jovens negros das periferias. Um apartheid comportamental de grande envergadura.

O discurso de muitos jovens que ontem estavam nas ruas era irônico, forte, de esquerda ou flertando com os valores de esquerda. Nenhum de direita. Todos falavam do enfrentamento de classe. Sim, usavam o termo classe social. Não estavam para brincadeira.

Então, aqui vai minha percepção: ali pode estar a renovação da esquerda brasileira. A de um novo ciclo, mais pujante, com menos vícios institucionais. Talvez, esteja apontando o começo do ocaso do lulismo. Um bastão repassado em que o corredor de antes já cumpriu seu papel.

Essa possível renovação das esquerdas é mais ousada, mais curtida pela vida, menos classe média, menos branca, menos masculina. Aprenderá a lidar com o jogo de xadrez, mas, agora, prefere boxe. Se puder mesclar os dois tipos de jogos, será mais preparada que a esquerda atual.

Aguardo confirmação. Sociólogo é preparado para ler tendências. Algumas se realizam, outras minguam no desenrolar dos acontecimentos. Sociólogo não prevê, mas treina seu olhar para enxergar tendências. Essa é uma: a esquerda acovardada deu lugar aos jovens da periferia.

Este é um texto de opinião de um(a) autor(a) convidado(a). As opiniões aqui presentes não necessariamente refletem as visões do vereador Toninho Vespoli, ou de sua equipe.

Rudá Ricci

Rudá Ricci

Rudá Ricci é Sociólogo e Doutor em Ciências Sociais

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