Minas-Gerais

Naturalmente a chuva cai do céu; socialmente ela escorre pela terra

Parasita

Os desastres naturais que assolam a Bahia e Minas-Gerais nesse verão, são tão naturais como sociais.

Quem já assistiu o melhor filme de 2020, Parasita, tem plena noção dos diferentes impactos na vida do rico e do pobre frente a um fenômeno natural. Enquanto seus patrões, morando na parte alta da cidade em bairro planejado e arborizado, agradecem a chuva por amenizar a poluição; Kim, o protagonista que mora com a família em um apartamento subterrâneo, tem que ir ao trabalho mesmo tendo perdido tudo com a enchente.

O que sentimos assistindo essa cena é próximo do que sentimos na última semana do ano passado, quando o presidente do país estava dando suas “fugidas de jet ski”, ao mesmo tempo em que o sul da Bahia se afogava. As chuvas de verão, como fenômeno natural, são para todos — não importa a classe. Mas são nossos desígnios sociais que escolhem quem irá arcar com os prejuízos.

E não podemos nos enganar: ficará pior daqui para frente. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, em virtude das mudanças climáticas, eventos extremos estão — e se tornarão — ainda mais frequentes e letais.

Estado de alerta

A Defesa Civil do estado da Bahia contabilizou 850 mil pessoas atingidas pelos temporais. Dessas, 26 mil estão desabrigadas, ou seja perderam totalmente suas casas. E mais de 61 mil estão desalojadas, sem saber quando poderão voltar ao seu lar.

Pelas contas da Defesa Civil mineira, até a última segunda-feira (10), o estado tinha 13.734 desalojadas e 3.409 desabrigadas, enquanto 145 municípios permanecem em estado de alerta. Como outro motivo de preocupação — e evidência de que existe sim quem culpar pelo clima — há diversas barragens, de hidrelétricas e de rejeito de mineração, em iminência de rompimento ou transbordamento.

O município de Itatiaiuçu por exemplo, à 70 km de Belo Horizonte, está sob a ameaça do rompimento de barragens das siderúrgicas ArcelorMittal e Usiminas, com as comunidades de Lagoa das Flores e Vieiras isoladas, sem rota de fuga, por conta da inundação da área.

Ecologia e jardinagem

É preciso superar a noção de que não há controle sobre o clima, ou então de que toda a humanidade é responsável pela “vingança da natureza”. Só um olhar mais abrangente consegue identificar os verdadeiros culpados. Parafraseando o seringueiro, militante ambiental e sindicalista Chico Mendes:

“Ecologia sem luta de classe é jardinagem.”

Foi a classe burguesa que colocou os bens naturais em esgotamento. Foi ela quem colocou — e ainda coloca sempre que tem chance — os lucros acima do bem comum. E suas tentativas de reparação de cima para baixo são inócuas.

Uma bilionária como Luiza Trajano fazer doações de produtos Magalu para os desabrigados da Bahia, no valor aproximado de R$ 1,6 milhões, parece muita bondade. Mas se lembrarmos que seu patrimônio é de R$ 27 bilhões, isso seria o equivalente a um trabalhador que ganha um salário mínimo doar 6 centavos.

É hora de apresentar além dos culpados, um novo sistema produtivo. Um que substitua a exploração predatória incentivada pelo lucro, pelo extrativismo incentivado pela necessidade coletiva organizada e planejada democraticamente.

Não vamos combater o fogo com mais fogo, vamos combater com água; não vamos combater o capitalismo com outro tipo de capitalismo, vamos combater com ecossocialismo.

Breno Queiroz

Breno Queiroz

Graduando em jornalismo e estagiário no mandato popular e periférico do professor Toninho Vespoli.

Para além de combater a Covid, vamos combater o neoliberalismo

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