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O currículo oculto e práticas escolares herdadas do militarismo

O currículo oculto e práticas escolares herdadas do militarismo

Saiba como o autoritarismo da ditadura militar pode ter afetado a educação dos adultos de hoje

“Carlo Ginzburg, em ensaio clássico, nos fala de um princípio indiciário. Método este extremamente difundido na comunidade acadêmica. Nele o historiador é equiparado a um detetive, pois é responsável pela decifração de um enigma, elucidação de um enredo e pela revelação de um segredo (…) presta atenção nas evidências, por certo, mas não entende o real como transparente. Aliás, refere Ginzburg, o próprio Marx afirmara que, se a realidade fosse transparente, não haveria necessidade de interpretá-la!” (PESAVENTO,2005.p.67)

É possível observar que os projetos educacionais passam sempre por intencionalidades contidas nos currículos de formas não explícitas. Pensar sobre mentalidades e currículos ocultos é sempre interessante, ainda mais quando o período delimitado é entre as décadas de 1960-1980, cheias de transformações sociais, culturais, estruturais e ideológicas inclusive no tocante da importância da Educação Infantil e na formação dos futuros cidadãos “pró- Estado” e progresso.

O período entre as décadas de 1960-1980 é conhecido como de grandes agitações sociais desde o início da República no Brasil. Dentre essas, o processo de ampliação da Escola de Educação Infantil e visão sobre a infância. É importante que se analise a relação entre as políticas educacionais e a formação do pensamento coletivo de credibilidade e ideia de progresso e disciplina. Para Foucault, disciplina são os métodos que permitem controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante das forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade. A disciplina aumenta ou diminui as forças do corpo de acordo com as intencionalidades de quem a rege. Foucault mostra uma percepção em relação à organização do espaço escolar semelhante ao de uma prisão.

Segundo ele, o sucesso desse controle disciplinar se deve ao uso de: olhar hierárquico, que se trata de uma relação de poder; sanção normatizadora, que utiliza o castigo para ordenação dos indivíduos e exame, por meio do qual são diferenciados e sancionados.

Tal definição deixa muito mais instigante pensar nessa relação com as crianças numa escola contextualizada no período da ditadura militar. Pensar em conceitos como disciplina, ordem, trabalho como condição para dignidade, progresso, e currículos com valorização às datas cívicas, heróis nacionais, obediência nas “inocentes” brincadeiras como formação de filas, “siga o mestre”, “ marcha soldado” ou “seu mestre mandou” em detrimento de formação de um pensamento livre, crítico e politicamente ativo.

Essa definição está claramente dentro da perspectiva positivista de Educação, perspectiva esta criada no século XIX e muito utilizada no militarismo e nas escolas do período, a fim de se estabelecer a “ordem” como algo imprescindível ao aprendizado. É importante que se perceba que essa definição pertence a um contexto específico: Ditadura e Guerra Fria.

Nesta perspectiva, qualquer manifestação de inquietação, questionamento, discordância, conversa ou desatenção por parte dos alunos é entendida como indisciplina, já que se busca  “obter a tranquilidade, o silêncio, a docilidade, a passividade das crianças de tal forma que não haja nada nelas nem fora delas que as possa distrair dos exercícios passados pelo professor, nem fazer sombra à sua palavra.” (Wallon, 1975, p.379).

“(…) durante o regime autoritário não havia espaço para optar (…) a opção era obedecer ou desobedecer; não havia espaço para debate ou inovações (…) na ansiedade de romper com o autoritarismo, tentamos passar de um regime no qual todas as decisões são centralizadas em uma só pessoa ou pequeno grupo de pessoas para um regime no qual todas as decisões são tomadas a partir de consulta e/ ou debate de todos interessados.” (D’ Antola, 1989. p.49-50).

“ (…) os alunos são punidos. A função da punição não é de resolver o problema, mas apenas conseguir que o aluno indisciplinado não incomode mais (…) nestas reticências vamos encontrar todo tipo de  ameaças, desde repreensões, retiradas dos alunos da sala de aula, diminuição da nota de aproveitamento, realização de exercícios escolares como castigo, até mesmo a expulsão do aluno (…)”.                (DÁntola, 1989. p. 51).

A escola não é isolada da sociedade. Interfere e interage com os contextos sociais e econômicos muito enraizados não somente no que o Estado impõe, mas nas práticas diretas de formação, de divulgadores de políticas educacionais pró-Estado, como o caso da Revista Escola, de posturas e valores das crianças nas escolas, inclusive de Educação Infantil, com a capa de que o foco principal seria prepará-las para o ensino fundamental e talvez novamente com a ideia de séculos anteriores de conceber crianças como adultos em miniaturas.

Nessa perspectiva, talvez seja possível  analisar a construção de uma identidade social fruto da ditadura militar no Brasil com a intencionalidade de formação de cidadãos formatados ao modelo de Estado partindo das escolas. Essas não como canais de agentes transformadores da realidade mas como objeto de manutenção do status quo.

Dicas de leitura sobre a questão da disciplina na escola:

 

ABUD, Maria; ROMEU, Sonia. A problemática da disciplina na escola : relato de experiência. In: D’ANTOLA,Arlette (Org.). Disciplina na escola. São Paulo : E.P.U., 1989.

D’Antola, Arlete. Disciplina democrática na escola. In: Disciplina na escola: autoridade versus autoritarismo. São Paulo: EPU, 1989.

­­­__________ (Org.). Disciplina na escola. São Paulo : E.P.U., 1989a.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

__________. Educação e mudança. São Paulo : Paz e Terra, 1991.

FOUCALT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

__________. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1977.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

VASCONCELLOS, Celso. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. 4. ed. São Paulo : Libertad, 1995.

VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

Projeto de Escola Integral – PEI e Novo Ensino Médio: sob a ótica da educação liberal? 

Projeto de Escola Integral - PEI e Novo Ensino Médio: sob a ótica da educação liberal? 

Saiba como a nova lei do ensino médio coloca em risco o senso crítico do povo brasileiro!

As políticas sociais exercidas no Brasil e no mundo nas três últimas décadas têm sido produzidas sob o pensamento neoliberal com desdobramentos em privatizações das empresas estatais, medidas de redução em investimentos financeiros nas áreas sociais. Sobretudo, saúde, transporte e educação. Neste sentido, ataques sistemáticos aos funcionários públicos têm sido a tônica da política do mercado nacional e internacional. Ações desdobradas e expressadas na retirada de direitos trabalhistas, planos de demissão incentivada entre outros. Ataques sistemáticos aos direitos conquistados e legitimados historicamente pela classe trabalhadora.

Os planos políticos para a educação no Brasil foram formulados e geridos por economistas de instituições financeiras internacionais, Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional – FMI, sob a égide do Consenso de Washington. Um receituário aos países subdesenvolvidos da América Latina, traduzida na diminuição do poder e do lastro do Estado nos investimentos sociais de seus respectivos países. Em linhas gerais, estas instituições financeiras estabelecem condições e exigências à política educacional brasileira no momento de negociar e viabilizar novos empréstimos financeiros.

Com efeito, a tônica das políticas educacionais no Brasil tem sido balizada pelo raciocínio econômico nas últimas décadas de 1990, 2000, 2010. Coadunando a esse pensamento. mencionamos a Reforma do Ensino Médio que foi consolidada na Lei 13.415 de fevereiro de 2017.  De acordo com Roberto Catelli Jr, em entrevista concedida à Carta Educação, a Reforma do Ensino Médio ocorreu em meio a utilização de propaganda enganosa e a realidade ocultada. O autor aponta para o discurso utilizado nas grandes mídias de comunicação para persuadir os jovens educandos no que diz respeito a possibilidade de escolhas das disciplinas e áreas de conhecimento. No entanto, a Lei 13.415/17 de amparo ao Novo Ensino Médio esclarece que a oferta do currículo deverá ser organizada em diferentes formas, de acordo com a relevância do contexto local e a possibilidade de organização da estrutura dos sistemas de ensino.

Entretanto, a nova lei de amparo do Novo Ensino Médio permite às secretarias estaduais de educação realizar disciplinas e cursos de caráter técnico na modalidade de Ensino a Distância EAD por instituições privadas e organização não governamental ONG. Ainda, contempla as iniciativas privadas no que concerne a oferta de disciplinas curriculares de composição da parte diversificada prevista nos Parâmetros Curriculares. Desta forma, a Lei 13.415/17 abre possibilidades aos governos estaduais de diminuição da responsabilidade do Ensino Médio, uma forma de lesar, ainda que parcialmente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação LDB 9394/96 vigente no país.

Outro fator agravante no Novo Ensino Médio foi a utilização do argumento de excesso de disciplinas na composição de sua grade curricular. Uma ideologia que visa deslegitimar o modelo anterior e apresentar uma solução supostamente inovadora. Ressalta-se que o novo projeto para o Ensino Médio foi financiado por grandes corporações, entre eles a Fundação Lehman e a Fundação Itaú. Uma das fórmulas para a elaboração da nova grade curricular foi a supressão integral da Filosofia e Sociologia e, também, a retirada parcial de horas semanais de História e Geografia. Uma forma articulada de inviabilizar o ensino de caráter crítico e de condução ao pensamento elevado. Sobretudo, às escolas das redes estaduais de ensino que abarcam grande porcentagem de estudantes no Brasil. O Novo Ensino Médio deixa latente que, com o perdão da redundância, a escola se torna uma escola de classe.

Logo, a nova composição do Ensino Médio dará luz à dualidade que já está presente na educação básica brasileira, porém acentuará as desigualdades sociais. Um diapasão de ensino que deixa factível a contradição na educação. Escolas bem estruturadas e organizadas fazem opção pela manutenção do currículo permeado por áreas do conhecimento científicas que são essenciais à formação plena do ser humano. Geralmente, estudantes inseridos nesta condição, alcançam êxito no acesso às melhores universidades e na condução da vida. Por outro lado, as classes menos favorecidas estudam em escolas da rede estadual moldadas e alinhadas na administração empresarial. Uma educação abordada com o viés tecnicista, consensual e acrítica. Contém grade curricular forjada pelos ditames do mercado e com objetivo de formação de sujeitos consumistas inseridos no contexto de competitividade exacerbada.

Os educandos das escolas públicas serão lançados ao abismo da desigualdade social, sobretudo, dos estados mais pobres e diagnosticados pela escassez de recursos financeiros. Portanto, o Novo Ensino Médio é um modelo mais agressivo e perverso em relação a reforma do ensino médio da ditadura civil militar, conforme aponta Gaudêncio Frigotto em seu estudo acerca do tema. Em artigo publicado pela APEOESP, o pesquisador destaca que o novo modelo de ensino“piora porque aquela reforma visava a todos e esta só visa os filhos da classe trabalhadora que estudam na escola pública. Uma reforma que legaliza o apartheid social na educação no Brasil”. A análise acerca do Novo Ensino Médio coaduna-se ao pensamento do Paulo Freire quando afirmou que “a educação não é neutra, toda neutralidade afirmada há uma opção escondida”.

O governo de São Paulo e sua secretaria de educação não se restringe apenas ao Novo Ensino Médio para atender o receituário neoliberal imposto pelo mercado financeiro. Nesse sentido, está em curso o Projeto de Ensino Integral – PEI, projeto que avança em diversas unidades escolares da Rede Estadual de São Paulo. São indicações geradas pela Secretaria Estadual de Educação. Para desvelar o arcabouço do Projeto de Ensino Integral vamos utilizar e jogar holofote num significativo relato de uma docente que trabalhou numa escola de ensino integral da Rede Estadual de São Paulo. Relato concedido à APEOESP e, posteriormente publicado em sua página da internet em 29 de abril de 2021.

No primeiro momento, o Projeto de Ensino Integral é atrativo, pois é apresentado aos docentes a perspectiva de trabalhar e desenvolver disciplinas diferenciadas do currículo regular. Outro aspecto de grande atratividade é o acréscimo de uma gratificação 75% no salário. Entretanto, a professora revela que após as primeiras semanas de trabalho o encantamento produzido, a princípio, pela abordagem ideológica do PEI cai por terra. Surge, então, o sentimento de desencanto, na medida em que o trabalho se desdobra no dia a dia. Fica perceptível que o relato entre os educadores que trabalham no chão da escola e a propaganda ideológica disseminada pelo governo, anteriormente à implantação do PEI, são paradoxalmente distantes. Neste contexto, vale resgatar o pensamento de Paulo Freire ao explanar que “é fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”.

Relato da professora à APEOESP é substancial quando diz que há escassez de verbas e  de materiais pedagógicos suficientes para contemplar o desenvolvimento das aulas. Uma realidade que conduz o corpo docente a utilizar, na maioria das vezes, seus próprios recursos financeiros na tentativa de viabilizar o percurso das aulas, muito embora, seja uma prática pedagógica recorrente exercida na profissão docente. Ainda, o governo de São Paulo divulga a oferta de alimentação saudável e diferenciada aos educandos das escolas PEI. Entretanto, a realidade é distinta, pois os educandos são atendidos com alimentação predominantemente composta de bolachas, bolos industrializados e pão com margarina. Notoriamente, a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo transita no campo contraditório entre o que se diz e o que se faz.

Outro elemento que deve ser desmistificado no Projeto de Escola Integral – PEI, diz respeito a incumbência ao professor para exercer a função de tutor. O estudante da PEI nomeia um professor para ser seu responsável no que tange ao seu respectivo rendimento de aprendizagem e, também, eventuais casos de indisciplina, gerando demanda de atendimento aos pais ou responsáveis dos estudantes. Ressalta-se que esta função é exercida pelos coordenadores pedagógicos nas escolas regulares. De acordo com o relato da professora, a responsabilidade dos professores enquanto tutores são exercidas semanalmente no momento de horas de estudo, em detrimento à formação continuada do professor. Vale salientar a garantia do processo de formação docente continuada conforme expresso na LDB 9394/96.

A Avaliação 360 é um processo avaliativo com vistas a mensurar de forma articulada todos os profissionais da escola PEI em sua plenitude. Consiste em autoavaliação e avaliação mútua entre estudantes, funcionários, professores, coordenação e direção sob a ótica do conceito de administração empresarial Fordista/Taylorista. Os professores fazem planos de ações que passam pelo crivo da comissão de calibragem para mensurar a porcentagem do cumprimento do plano estabelecido. Conforme os documentos orientadores do PEI, a comissão de calibragem tem a prerrogativa de elevar ou diminuir a nota por meio de critérios subjetivos da direção. Usando um trocadilho, é o diretor que tem o voto de minerva e, portanto, bate o martelo e decide pela permanência ou remoção do professor na unidade escolar.

Durante o processo da Avaliação 360 e, no intuito de alcançar metas e resultados, os diretores exercem pressão ao corpo docente de forma tácita. Pois, na iminência de resultado insatisfatório visualiza-se a possibilidade de cessação do cargo. Para além da ação arbitrária, o relato da professora da PEI concedida a APEOESP denota que eventuais ausências de qualquer natureza, abonada, saúde, doação de sangue ou outra licença docente, são utilizados como instrumentos de assédio moral. Uma forma de competição perversa entre os professores da unidade escolar, desarticulando o trabalho coletivo. Em via de regra, o professor assíduo é designado a substituir o professor ausente no período de formação e Hora de Estudo. Um modus operandi, conflituoso, que exerce a divisão do corpo docente.

As opiniões presentes no texto não necessariamente refletem as opiniões do Vereador Toninho Vespoli

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REFLEXÕES/CONSIDERAÇÕES E AÇÕES – PERÍODO DE SUSPENSÃO DE ATENDIMENTO/ATIVIDADES, DEVIDO A PANDEMIA DO COVID 19.

Conheça as trilhas da aprendizagem! E entenda como a educação pode ir para além das salas de aula

Isso tudo nos pegou de surpresa, estamos com medo e inseguros, diante de uma situação que não conhecemos e nem sequer, podemos recorrer a quem conhece, pois, ninguém na face da terra conhece de fato.

Talvez, nunca soubemos tão pouco sobre o que está por vir; assim, tudo que pensamos e falamos é: “Vai passar…”, e de um jeito ou de outro, vai mesmo.

Vale dizer, que o que estamos passando deixará marcas, memórias e lembranças, algumas muito boas, outras nem tanto, deste modo, consideramos que tudo depende de quem somos, de como enxergamos o mundo, de como nos conectamos uns com os outros, depende dos nossos recursos, das nossas concepções, das nossas limitações, assim como depende das nossas habilidades, dos nossos medos e das nossas ousadias.

Depende do que estamos dispostos a fazer durante este período, quem temos auxiliado e quem temos do nosso lado, oferecendo ajuda. Depende de como anda nossa paciência com as pessoas no supermercado; àquelas que insistem em se aproximar, mais do que o recomendado, e principalmente, de como está nosso entendimento de que nós mulheres/professoras, estamos carregando: o peso da administração da casa, dos animais, dos maridos, dos filhos, das plantas, dos nossos pais e/ou dos irmãos em nossas “costas largas”; sempre tão largas.

Para muitas mulheres estar em casa é também trabalho

Talvez os maridos estejam em home office, enquanto muitas de nós (a grande maioria na educação), trabalhando em casa, estamos em ”home-tudo” (sem ter no momento, a pretensão de tentar consertar, o que é uma luta há séculos), mas é fato, que entre tantos outros motivos, isto pode estar nos cansando e nos confundindo, pois não sabemos trabalhar sem o barulho das nossas crianças, sem administrarmos os conflitos existentes nas turmas de estudantes, sem olharmos cada um dos trinta e cinco como únicos, e identificarmos se estão felizes, animados, tristes, desanimados, receptivos ou tímidos.

Podemos neste momento sugerir, que o que mais faz falta no nosso fazer é trabalharmos o famoso “Currículo Oculto”, onde não há palavras que possam definir a diversidade e o encantamento que existem nas relações com os pequeninos, em suas descobertas, aprendizagens e reações. Professora é sim, um ser que fala com o olhar, que enxerga com o ouvido e que fala com o coração, no melhor sentido da palavra. Por estes motivos, que o nosso cuidado em não nos descaracterizarmos seja redobrado, durante esta separação social, à qual não escolhemos e muito menos provocamos.

Há poucos dias, tínhamos um espaço físico para trabalharmos, horários definidos, uma rotina para pensar nas crianças em suas especificidades, e para a partir delas, dos seus interesses, dos seus saberes e curiosidades, planejarmos nossas ações e nossos projetos de trabalho pedagógico.

Atualmente e por enquanto, temos um lugar de encontro que se chama Zoom, um canal de comunicação que se chama Facebook, um material que irá nortear o nosso trabalho e que se chama: Trilhas de Aprendizagem.

Sobre o Trilhas:

Ah, por que não nos consultaram antes? Teríamos pensado em tão boas ideias, possivelmente mais econômicas e mais eficazes para dialogar diretamente com as nossas crianças. Bastaria um bom livro de literatura infantil e um pequeno kit de brinquedos, contendo uma cordinha, uma peteca, um pião, uma bolinha, uma panelinha com colherinha, um carrinho, alguns papéis de diferentes tamanhos e texturas, cola, tesoura, lápis pretos e coloridos, fitas adesivas e giz de cera, ou seja, um pequeno kit-criatividade, mas enfim, o que está feito, feito está.

Contudo e infelizmente, era preciso rapidez para dar alguma resposta à sociedade letrada e ansiosa para saber como ficaria a situação escolar e assim, não houve tempo para pensar no que nossos pequeninos, de fato precisam, sobretudo, houve uma desconsideração no que se refere a uma infância com repertório próprio e com uma cultura própria, a quem o adulto acostumou-se a olhar de cima para baixo, mas então que passemos a analisar com profundidade o conteúdo proposto no Trilhas, que a nosso ver, dialoga até certo ponto com a família, como está posto.

Qual família?

Na nossa interpretação:

  • A família que tem endereço de fácil localização;
  • A família que consegue ler e interpretar os bilhetes que a escola envia, sem perguntar para Professora o que é, ou aquela que depois de ler o bilhete, não liga para a escola e pergunta do que se trata;
  • A família que lê textos no Facebook com mais de quatro parágrafos;
  • A família que tenha pelo menos um membro, que compreenda o papel da escola de Educação Infantil e ao folhear o Caderno/Trilhas, não irá questionar: a falta de desenhos prontos e estereotipados para serem pintados, os perversos traçados a serem contornados, os desenhos com copas de árvores para serem preenchidas com papel crepom verde colado em formato de bolinhas, bem arredondadas de preferência. Fazeres que pouco ou nada acrescentam para os pequeninos, pois eles os fazem sem nenhum desafio ou fazem, sem nada compreender e com interesses focados em outras coisas, como por exemplo: chamar atenção da professora ou do colega.
  • Família que tenha uma casa boa e confortável, com uma sala ampla, tapete aconchegante e uma enorme TV 32’ para mais, como traz a ilustração do Caderno Trilhas.
  • Família com estoque de alimentos suficiente, para testar uma receita de um delicioso bolo de chocolate;
  • Família que é familiarizada com o vasto e rico repertório da nossa música popular brasileira e que além das atuais músicas de cunho comercial e de rasas inspirações, costumam deixar que as crianças acessem o conhecimento que as canções podem ensinar;
  • Família que esteja habituada a ler para seus filhos e que tenham materiais em casa, para que uma caixinha com materiais diversos possa estar à disposição da criança;
  • Família que tenha um banheiro com box e um bom chuveiro, onde a criança possa brincar e se divertir com a água e aprender a estabelecer excelente relação entre hábitos saudáveis de higiene com diversão;
  • Família preocupada com a proteção da criança e que na verdade, não precisa do Trilhas para se orientar, pois intuitivamente já realiza todas as propostas contidas no Caderno Trilhas, de uma forma ou de outra.

Diante destas suposições, ainda temos o importante dado, de que demoramos por volta de duas horas ininterruptas para lermos o Trilhas de Aprendizagem, no qual estávamos bastante interessados.

Sobre nosso grupo de Professoras:

Eu quero que a escola se reinvente e se reinventar não significa transformar professor em youtuber, mas aprender a abrir mão do conteudismo, entender que a aprendizagem vai além do que é dado pela escola e aceitar que o ano letivo já não cabe mais em 2020.

Vivenciando a Pandemia, juntamente com todas as indagações, angústias e experiências que já citamos acima, estas mulheres, mesmo fora do seu habitat natural, corajosamente, buscaram de todos os recursos e meios possíveis para produzirem o que a princípio chamamos de atividades e agora já chamamos de “Histórias”, em um universo amedrontador e desconhecido para a maioria (tecnologias da internet) e assim, conectaram-se com as crianças que puderam ter acesso às nossas postagens no famoso canal de comunicação gratuito, também conhecido como Facebook, numa fanpage da nossa Unidade Escolar.

Juntaram-se em uma rede solidária de coleguismo e proteção, onde cada uma, à sua maneira, fez e ofereceu o melhor que pôde; isso ficou claro. Não sabemos com certeza, quantas crianças nos viram, quantas gostaram, nem tampouco, o que de fato conseguiram, mas é certo que alguns nos viram e ainda que tivesse sido uma única criança, já teria valido a pena.

Calculamos grosseiramente, que o tempo que as docentes levaram para realizarem tais produções, fora infinitamente menor do que o tempo que utilizaram para pensarem o que fariam, como fariam, e principalmente com qual objetivo fariam, enfim um precioso tempo.

Sobre nossas principais intenções para maio e junho/2020:

Avaliarmos conjuntamente as produções e postagens na fanpage do Facebook, durante este mês de abril e chegamos à conclusão de que urge: planejar uma escola SEM DIST NCIA dos nossos princípios, das nossas concepções, da nossa ética, da equidade, da gratuidade, do que é laico, da inclusão, das Artes, das brincadeiras, da infância, dos vínculos afetivos constituídos como inerentes aos nossos fazeres diários, e constantes em nosso PPP – Projeto Político Pedagógico.

Propiciar para as professoras, formações de caráter reflexivo e dentro de análises críticas do atual momento da Pandemia (vídeo da FEUSP), lives e palestras sobre a temática, que nos auxiliem acerca de como podemos nos situar de forma consciente sobre o papel da escola de Educação Infantil e os fazeres das professoras, durante este período tão atípico.

Elaborar de forma mais ampla e democrática, mais um canal de comunicação gratuito com as famílias, com objetivo de estabelecer um alcance possivelmente maior e mais apropriado para conhecermos de fato quem estaremos atingindo, criação de grupos de Whatsapp, administrados pela Equipe de Apoio e Equipe Gestora.

Estarmos atentos para acolhermos a equipe docente a toda comunidade escolar em suas necessidades, anseios, inquietações, sugestões, formando assim, uma rede de proteção dentro das nossas possibilidades.

Trilha sonora: Miséria – Titãs

Miséria é miséria em qualquer canto

Riquezas são diferentes

Índio, mulato, preto, branco

Miséria é miséria em qualquer canto

Riquezas são diferentes

Miséria é miséria em qualquer canto

Filhos, amigos, amantes, parentes

Riquezas são diferentes

Ninguém sabe falar esperanto

Miséria é miséria em qualquer canto

Todos sabem usar os dentes

Riquezas são diferentes

Miséria é miséria em qualquer canto

Riquezas são diferentes

Miséria é miséria em qualquer canto

Fracos, doentes, aflitos, carentes

Riquezas são diferentes

O Sol não causa mais espanto

Miséria é miséria em qualquer canto

Cores, raças, castas, crenças

Riquezas são diferenças

A morte não causa mais espanto

O Sol não causa mais espanto

A morte não causa mais espanto

O Sol não causa mais espanto

Miséria é miséria em qualquer canto

Riquezas são diferentes

Cores, raças, castas, crenças

Riquezas são diferenças

Índio, mulato, preto, branco

Filhos, amigos, amantes, parentes

Fracos, doentes, aflitos, carentes

Cores, raças, castas, crenças

Em qualquer canto miséria

Riquezas são miséria

Em qualquer canto miséria.

FIM

28 de Abril, 2020
EMEI PADRE NILDO DO AMARAL JUNIOR
EQUIPE GESTORA: Elaine Coutinho, Eloisa Ramires e Hélio Brasileiro

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A indisciplina escolar escancarada no contexto EAD

A indisciplina escolar escancarada no contexto EAD

Entenda porque um sistema de EAD (Educação à Distância) poderia ser desastroso!

Se existe uma afirmação que pode ser feita durante esse período de pandemia no contexto escolar é que o sonho do homescholling não é tão colorido assim.

Imaginando um recorte de cenário ideal em que todas as famílias tivessem as estruturas físicas mínimas como computador e internet, ainda restariam aqueles infinitos áudios que temos recebido pelas redes de desabafo de pais e avós enlouquecidos, vivenciando algumas realidades. Dentre elas, que ter conteúdo em mãos não torna ninguém professor e a eminente “indisciplina” dos nossos filhos e amiguinhos que acontece mesmo sob nossos olhos.

Educação bancária

O contexto EAD muitas vezes tem remetido ao modelo de Educação Bancária. Essa concepção tem a função de transmitir ao aluno, de forma mecânica, conhecimentos historicamente construídos por meio de seu principal agente: o professor. Neste caso, via online e apoiado por apostilas do outro lado da tela.

Assim, a relação entre ele e o aluno se dá de forma vertical, na qual o professor, considerado o único detentor do saber e em poder da palavra e o aluno que espera, passivamente, receber todos os ensinamentos. E quantas vezes os pais não orientavam meses atrás: “quero você sentado na frente, prestando atenção, aprendendo tudo que o professor ensinar!”

O papel da disciplina nessa concepção é fundamental. Nela, a obediência e o silêncio dos alunos são importantes para garantir que os conteúdos sejam transmitidos sem interferências externas. Por isso as salas de aula são organizadas em filas e os alunos distribuídos individualmente para que o professor possa vigiar o comportamento de cada um, apreciá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades e os méritos. Na EAD esse papel cabe aos responsáveis do estudante. Em casa parece ser algo bem mais fácil, não? Mas eis que mesmo com o professor na tela seu filho se perde nos pensamentos, o microfone dos outros colegas está aberto, um imita um “pum” e a aula vai abaixo, mesmo à distância e com a mãe ao lado. E o choro? O “tô cansado”, o “você é mentirosa porque eu já estudei muito e não fiquei inteligente”, o “pro, minha mãe não entende disso, tô com saudades de você”…

Esse menino só quer saber de Chaves, sabe todos os personagens, mas a lição não aprende, eu vou “desmatricular” ele e resolver o problema

Mas outra visão de (in)disciplina nos remete a uma concepção de educação que tem como principal objetivo a libertação do homem. É a Educação Problematizadora.

O diálogo deve ser ao mesmo tempo, ação/reflexão/ação, portanto práxis, pois, ao refletirmos e denunciarmos o mundo em que vivemos, agimos para a sua transformação. Enquanto prática educativa, o diálogo deve ocorrer numa relação horizontal em que tanto educador como educando buscam saber mais em comunhão.

A disciplina é pedagógica e entendida como organização, pois surge da autoridade e compromisso. A finalidade dessa disciplina é de ultrapassar os limites do espontaneísmo e do conhecimento como senso comum; por isso é pedagógica, colaborando com o desenvolvimento da autonomia intelectual e da autodisciplina dos alunos.

Não é o conteúdo, é o mediador

O papel do professor é importante como coordenador do processo educativo, usando da sua autoridade democrática, cria, em conjunto com alunos, um espaço pedagógico interessante, estimulante e desafiador, para que nele ocorra a construção de um conhecimento científico significativo.

As manifestações que na visão anterior eram entendidas como indisciplina e, por isso, aqueles que a praticavam deveriam sofrer punição, nesta são entendidas como democráticas e deverão, portanto, servir como subsídios para a “práxis”.

Desobendiência ou denúncia?

A educação infantil é um campo complexo quando se trata de indisciplina, pois é o período em que os valores estão sendo maior assimilados, levando-os para a prática da vida inteira. Como normalizar bebês tendo “aulas” por uma tela?
O ensino fundamental é um período de maturação diferente da educação infantil. Mas não menos pesado quando se trata de Educação à Distância, e os pais têm relatado isso.

As crianças da escola atual pertencem ao seu tempo específico em que não é mais cabível tê-las como miniaturas de adultos ou incapazes como em outrora.

Trata-se do clamor de um novo tipo de relação civil pedindo passagem a qualquer custo. Nesse sentido, a indisciplina estaria indicando também uma necessidade legítima de transformações no interior das relações escolares, por enquanto à distância, mas que trará mudanças no pós-pandemia.

A indisciplina diminui quando o que a criança faz tem sentido, quando ela sente-se importante com atividades que valorizem a criatividade, o respeito, a cooperação, a tolerância e a conscientização das nossas possibilidades como seres participantes na construção do conhecimento do mundo, em busca de uma sociedade mais justa e humana.

Vivian Alves

Vivian Alves

Vivian Alves é filósofa, diretora de escola e ativista pela esucação. Atualmente ocupa o mandado do Vereador Toninho Vespoli.

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