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Educação e Saúde: um debate sobre prazer e os desafios ao corpo

Educação e Saúde: um debate sobre prazer e os desafios ao corpo

Entenda porque os modelos antigos de educação não são o bastante para ajudar jovens a se tornarem saudáveis e felizes

Pensar na relação Educação – Saúde é pensar nas relações escola – corpo, pessoa – higiene, público- privado. É importante pensar nas descoberta dos jovens e as diferentes relações com o corpo em contraponto aos padrões.

O início da nossa História pós-vinda dos portugueses trouxe consigo muito explicitamente, dentre as diferenças culturais, a relação com o corpo.

No início, os europeus associavam a nudez indígena com inocência e pureza, não como algo feio ou indecente. Tempos depois, passou-se a associar a nudez com o mal, à tentação, a incitação. Dizia-se que as indígenas não tinham pudores necessários às mulheres e que a nudez na verdade, afastava o desejo da curiosidade.

Após as gradativas tentativas dos jesuítas em “cobrirem as vergonhas” dos povos originários, o que gerava até situações divertidas de indígenas utilizando somente chapéus ou botas, a idéia de vestimenta foi se consagrando na ainda em formação cultura brasileira.

Outra relação estabelecida com o corpo que se chocou culturalmente no Brasil foi a questão da higiene e privacidade. Passou-se desde a Europa a valorizar o misterioso, pudico. Os corpos não deveriam ser mostrados nem mesmo para o banho. As casas, em sua maioria não possuíam muitas janelas, e estas, quando existentes, não eram abertas para ventilação dos ambientes úmidos, misturando no mesmo espaço os penicos e suores, e no caso da população mais pobre, em que moravam em cômodo único e dormindo em redes, o conceito de privado estava sempre ligado coletivamente aos assuntos domésticos, familiares. Com o tempo, o conceito de privado foi se tornando mais individual, ligado à pessoa.

Tais relações e conceitos são importantes para pensarmos, agora sim, na relação com a escola. Esta é fruto da sociedade, mas em alguns aspectos, não!

Atualmente pensar em privado, é extremamente complicado, vivemos numa época de valorização da exposição. Provas disso são os sites de relacionamento, blogs, mensagens e etc. Todo mundo sabe o que o outro está passando, sentindo, lendo, onde se diverte e com quem dorme; até os carros servem como outdoors com adesivos dos membros da família incluindo animais de estimação.

E lembrando que os adolescentes também são frutos e reflexo da sociedade, passam por conflitos, dentre outras coisas, sobre o que é valorizado dentro e fora dos muros. No ambiente escolar, perdem sua identidade com o uso de uniformes, proibição de aparelhos eletrônicos, relacionamentos, não podem falar abertamente sobre descobertas e inclusive sobre o uso de drogas lícitas ou ilícitas. Não confiam nos adultos porque se sentem julgados o tempo todo.

Tal modelo encontra-se deslocado do seu tempo histórico.  A escola passa a ser um lugar extremamente desinteressante, em que só se pode interagir com a nuca do outro e com seus materiais. Talvez essa seja a “vestimenta” necessária aos jovens a quererem investigar mais suas potencialidades físicas e sensoriais, às escondidas, aprender com seus pares sem medo ou preocupação de serem julgados.

Além das descobertas e desafios ao corpo ligados a questão da sexualidade, o contato com drogas também é comum. O álcool os aproxima dos amigos mais velhos, dos adultos. Os encoraja, os protege. Anima. Desafia. Nesse contexto, outras drogas como a maconha, pode ser que ainda tragam um pouco da ideia de contracultura.

Não é possível insistir numa discussão nos dias de hoje sobre ISTs ou drogas, por exemplo, sob o prisma de grupos de risco dependendo da mudança de comportamento individual. Afinal a relação é diferente dependendo de fatores econômicos e sociais. A chance de contaminação por HIV biologicamente é a mesma, mas não é igual para todos os países ou indivíduos. Muitas vezes a classificação entre usuário ou traficante é étnica. A vulnerabilidade tem cor e espaço geográfico. Hábito é fruto de condições do meio.

A escola não pode ter fim em si mesma. Não dá para isolar o cotidiano da vida escolar.  Romper com a hierarquização e padronização das discussões pode ser um caminho interessante para pautar com responsabilidade e respeito temas que podem desafiar para além das potencialidades, limites e valores do indivíduo, mas a saúde, vida e organização social.

Para saber mais:

ADORNO. Educação e emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

A vulnerabilidade social. Disponível em: a www.ssrevista.uel.br/c_v3n1_jovens.htm

Bucher, R. (1996). Drogas e Sociedade nos Tempos da AIDS – UnB – Brasília.

Educação para pensar autônomo theodor adorno escola frankfurt teoria critica formação humanistica. Disponível em http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-continuada -11236.shtml

O conceito de vulnerabilidade como instrumento de análise. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-46982007000100012.

DEL PRIORI, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011.

SANTOS, B. de Souza. Dilemas do nosso tempo: globalização, multiculturalismo e conhecimento. Educação & Realidade, v. 26, n. 1, p. 13-32, jan./jul. 2001.

Vivian Alves Nunes

Vivian Alves Nunes

Vivian Alves é diretora de escola na Rede Municipal de Educação, historiadora, pedagoga e ativista. Atualmente faz parte da caravana da educação do Professor Vereador Toninho Vespoli.

Abuso sexual: a Globo também é culpada!

Abuso sexual: a Globo também é culpada!

Entenda porque não é apenas sobre alguns abusadores isolados

Talvez o leitor já tenha ouvido falar do caso do Marcius Melhem, diretor humorístico da Globo. Trata-se do caso padrão de assediador sexual: diretor de grande empresa assedia funcionárias; alguma funcionária corajosa (no caso a Dani Calabresa) vem a público denunciar o escândalo; outras vítimas se inspiram no caso e revelam que o assediador é um pervertido de marca maior; o assediador a princípio nega, depois “relativiza” os casos e tenta se fazer de coitado; enquanto a imprensa monta um circo para vender mais jornais. Mas o que está sendo pouco coberto é o papel de empresas como a Globo na continuação do problema. Antes de Dani Calabresa vir a público, ela já havia feito reclamações em instâncias internas da Rede Globo. Tudo o que recomendaram foi que o assediador Marcius fizesse terapia enquanto continuava livre para abusar de outras mulheres. Precisamos, urgentemente, rever como lidamos com o assédio sexual, tanto em empresas privadas como públicas!

O caso é um absurdo, e merece a indignação das massas! Dani Calabresa merece todo o apoio e solidariedade do grande público! Não é fácil ser mulher, saber que ganha menos do que os homens pelo mesmo serviço, e lidar com comentários, às vezes cotidianos, objetificando e hiperssexualizando o seu corpo. Mas a maioria das vítimas não possuem o apelo midiático de alguém como a Dani Calabresa. Para muitas, denunciar abusos significa ser mandada embora! Isso porque, muitas vezes, as próprias direções da empresa compactuam com o abusador. Mesmo no caso da Dani Calabresa, quando ela reclamou, dentro da Globo, à sua chefe de Desenvolvimento e Acompanhamento Artístico (DAA), a resposta foi apenas recomendar ao assediador uma terapia! Enquanto continuou em suas funções normalmente.

Os abusos relatados são absurdos! O cara roçava a sua genital em funcionárias, contra a vontade delas! Segundo Dani Calabresa, ele chegou a agarra-la e a tentar força-la a mostrar as suas partes íntimas em festa da equipe! E a resposta foi um pouco mais do que um tapinha na mão!

Em outros lugares de trabalho as coisas podem ser ainda piores. Segundo pesquisa encomendada pela Globo 40% das mulheres já foram xingadas em local de trabalho (contra 13% dos homens)! E na própria Rede Globo, em julho desse mesmo ano, uma repórter, a Ellen Ferreira, diz ter sido demitida por denunciar caso de assédio! Se isso ocorre em uma empresa de comunicação e jornalismo, bastante preocupada com a sua imagem, imagina o que deve ocorrer em empresas de outros ramos. Mas muitas das leitoras talvez nem precisem imaginar: sabem na pele!

Seria fácil, e cômodo, fingir que o problema são algumas maças podres, alguns assediadores isolados. Mas o problema é cultural e estrutural! Agora, em meio às denúncias, a mesma empresa, a Globo, responsável pelo bem estar de seus funcionários, poderá lucrar vendendo os jornais noticiando os casos de assédio. O problema, também é da Globo, e ainda mais de toda a sociedade. Para pararmos o assédio, precisaremos, cada um de nós, compreender as nossas responsabilidades, mas também exigir que mais seja feito! É fundamental que quem veja algo errado não se cale! exija que a justiça seja feita, mas também lute por campanhas de conscientização, nas escolas e em locais de trabalho! Uma frase atribuída a Oscar Wilde sugere que “a única coisa necessária para o triunfo do mal, é que pessoas boas não façam nada.” Não deixem o mal triunfar!

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