vidas negras importam

o que é racismo ambiental?

o que é racismo ambiental?

Aproveite o Dia do Meio ambiente para entender como as questões raciais estão inseridas na luta climática

Sabe o que é racismo ambiental? Ocorre quando as catástrofes ambientais atingem principalmente a população negra. Falta de saneamento, poluição de rios, surtos epidêmicos… Tudo isso atinge muito mais pessoas negras do que brancas! O termo tem ainda outro significado, que é quando lideranças falando sobre a luta pela mãe natureza, são cortadas dos debates por serem negras! Em tempos em que o mundo se revolta por assassinatos de pessoas negras como João Pedro, e George Floyd, é importante aproveitarmos hoje, o dia do meio ambiente, para entendermos porque a questão racial está presente inclusive na luta ambiental!

Foto de Tuca Vieira. O mundo dos pobres é também o mundo dos negros

Pessoas negras tem 62% mais chance de morrerem em decorrência da Covid-19

O termo racismo ambiental foi pensado pelo braço direito do Martin Luther King Jr., o Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr. O que Benjamin percebeu é que as pessoas negras tinham muito mais chance de sofrerem com infecções de resíduos tóxicos. E desde então parte da comunidade ativista negra começou a perceber que o padrão se repetia para uma série de desastres ambientais. Pega por exemplo o coronavírus. Apesar de ser um vírus trazido por brancos vindos da Europa para o Brasil, a população negra paulistana, segundo dados da prefeitura, tem 62% mais chance de morrer que a branca devido à covid! 

Tão chocante quanto, é perceber que pessoas negras que falam de questões ambientais, são muito menos escutadas que pessoas brancas, independente de qualificações! Isso é, ainda, outra forma de racismo ambiental, porque reflete um preconceito da sociedade contra qualquer coisa falada por negros! É como se existisse uma barreira social invisível, que diz que para um ativismo ser válido precisa ser respaldado com a opinião de brancos. Caso particularmente chocante disso aconteceu no Fórum Econômico Mundial em Davos deste ano, a ativista e liderança negra ugandesa Vanessa Nakate, foi literalmente cortada de foto com outras eco-ativistas brancas (dentre elas a sueca Greta Thunberg), na publicação de um jornal estadunidense (Associated Press)

Em cima a versão publicada no jornal, embaixo a foto original

Quando pessoas negras lutam e morrem, a mídia se cala

Ou seja, pouco importa que Vanessa é uma ativista incrível que iniciou seu próprio movimento internacional pelo clima, a partir de inúmeros protestos na Uganda. Pouco importa saber que na Uganda, diferentemente de países como a Suécia, protestar pelo clima traz um risco imenso de prisão. Pouco importa pensar nas mazelas do aquecimento global para Vanessa e para seus conterrâneos ugandeses. Pouco importa porque são pessoas negras. E quando pessoas negras, gritam, lutam e morrem; a mídia, os jornalistas e a própria ONU se calam! 

Ocorre, também, racismo ambiental com outras lideranças que sejam parte de minorias étnicas, mas não afrodescentes. No Brasil, por exemplo, ocorre isso com a população indígena. Um nome muito difundido pela mídia, por exemplo, é o da ativista sueca Greta Thumberg. Mas muito menos mencionados são os esforços do ativista Raoni Metuktire (conhecido como Índio Raoni) pela preservação da natureza. O ativista nativo-brasileiro luta desde a década de 60 pela preservação das florestas. 

Os brancos são mais ouvidos do que os negros

Mas foi apenas após participar de conferência pelo clima em Paris, em que estava presente o cantor branco Gordon Matthew Thomas Sumner (mais conhecido como Sting) que Raoni foi reconhecido pela mídia mundial. Como se percebe o cantor Sting, apesar de ser muito menos qualificado que Raoni para tratar da luta ambiental, foi muito mais considerado pela mídia.

ativista Raoni na direita, cantor Sting na esquerda,

Não cabe aqui criticar Sting. Muito pelo contrário: o cantor tenta usar de sua fama para jogar luz sobre figuras da luta ambiental normalmente invizibilizadas. Mas não há dúvida que ele é muito mais ouvido por ser branco e rico.

Estamos passando por um período em que a sociedade enfrenta surtos de indignação contra o racismo e fascismo estruturais em nossa sociedade. Nesse dia do clima, não podemos nos esquecer de refletir sobre o que é o racismo ambiental, e como ele afeta o nosso mundo. Não podemos nos esquecer de Vanessa Nakate, do índio Raoni, do Dr Benjamin Franklin Chavis, de Sonia Guajajara, e de tantas outras lideranças negras e étnicas que lutam pela preservação de nossa Mãe Terra!

Vidas negras importam! E não podem ser esquecidas. 

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Como são colocados os alvos nos corpos de crianças e jovens negros?

Escrevo este texto ao pensar em como as ações de pessoas brancas contribuem com o colocar destes alvos todos os dias. Duas mortes de jovens no Rio de Janeiro nos últimos dois dias ganham pouquíssima repercussão nacional, mas evidenciam mais e mais uma vez uma realidade que atravessa o peito e que reforça a urgência da ação antirracista: o genocídio de crianças e jovens pretos.

Mas como estes se tornam os corpos classificados como matáveis não só pelo Estado, mas pela sociedade brasileira privilegiada?
Para além de falar sobre a atuação precária e limitada da polícia (não só a militar), escrevo aqui para refletir como a sociedade civil branca contribui para que alvos sejam colocados dia a dia sobre os corpos destas meninas e meninos negros. Afinal, você branco ou branca, já parou para pensar como é construída esta realidade em que eles e elas são desumanizados, negligenciados e caracterizados como matáveis?

Além da necessidade óbvia de justiça nestes casos em específico, é urgente que toda a sociedade se responsabilize, principalmente brancos privilegiados como eu.

Quando um corpo negro é classificado como “matável”

Um corpo negro é classificado como “matável” toda vez que uma mesa de debates (mesmo as organizadas pelo campo do terceiro setor) exclui mulheres ou homens negros.

Um corpo negro é classificado como “matável” toda vez que um processo seletivo histórica e recorrentemente seleciona exclusivamente pessoas brancas (mesmo a população negra sendo a maioria no Brasil).

Um corpo negro é classificado como “matável” quando é visto como o outro, quando brancos e brancas continuam – mesmo que muitas vezes com uma suposta perspectiva solidária – restringindo-os a espaços de fala sobre diversidade, inclusão ou mesmo desigualdades.

Um corpo negro é classificado como “matável” quando uma pessoa nunca leu ou mal consegue lembrar de ter lido um livro escrito por uma pessoa negra

Um corpo negro é classificado como “matável” quando autores negros e negras sequer são lembrados enquanto pesquisadores ou cientistas pelas invenções que fizeram e revolucionaram a humanidade.

Não basta não ser racista. E preciso ser antirracista!

O que aconteceu com João Pedro, Ágatha, João Victor e muitos outros e outras não diz respeito somente à realidade das comunidades vulneráveis do país. O genocídio de crianças e jovens negros – que acontece todos os dias no Brasil – diz respeito ao que nós, brancos prioritariamente, escolhemos ou deixamos de escolher nos nossos espaços de privilégio e poder financeiro, político, social, acadêmico, cultural, etc.

Lembremos eu e você (brancos desta rede social) que é urgente ser antirracista sempre, mas principalmente hoje, agora! Uma luta de todo dia e em que devemos estar alertas, em ação contínua e permanente.

#RacismoMata #JoãoPedro #VidasNegrasImportam

Gabriel Maia Salgado

Gabriel Maia Salgado

Gabriel Maia Salgado é jornalista, especialista em sociologia e coordenador de projetos sociais

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