violência sexual

Mau-caratismo ou só dificuldade de interpretação de texto?

Un estuprador en su camino

Sessão Plenária da Câmara Municipal de São Paulo

Versão em português de “Um violador en tu camino” – Um estuprador em seu caminho

O patriarcado é um juiz
Que nos julga ao nascer
E nosso castigo é
A violência que não se vê

O patriarcado é um juiz
Que nos julga ao nascer
E nosso castigo é
A violência que já se vê

É o feminicídio
Impunidade para o assassino
É e desaparecimento
É a violação

E a culpa não era minha
Nem onde estava
em como me vestia (4x)
O estuprador é você (2x)

São os policiais
Os juízes
O Estado
O Presidente

O Estado opressor
É um macho estuprador (2x)

O estuprador é você (2x)

Se sente, se sente
Marielle está presente (2x)
O assassino dela
É amigo do presidente (2x)

O texto acima causou um certo rebuliço na Sessão Plenária da Câmara Municipal de São Paulo, na última quarta-feira (25/05). Surpreendendo um total de zero pessoas, a turminha fundamentalista, da bancada da bala e o ex-MBL bolsonarista foram à tribuna para fazer aquele costumeiro showzinho de indignação diante do “ataque às nossas crianças”.

Tudo isso, porque segundo a vereadora que primeiro apresentou o caso, o texto foi trabalhado em um CEU do município. A vereadora indignada bradava as frases do texto questionando o absurdo, segundo ela, dos estudantes lerem um texto que chama juízes, policiais, o presidente e o Estado de estupradores.

Aqui eu volto ao título do texto: será mau-caratismo ou só dificuldade de interpretação de texto?

Mau-caratismo

Em uma pesquisa rápida no Google, são várias as notícias de mulheres vítimas de violência sexual cometida por policiais. Em um dos casos mais emblemáticos, no estado de São Paulo, uma jovem foi estuprada em uma viatura por dois policiais, no município de Praia Grande, litoral do estado.

Para piorar, no julgamento dos dois policiais, feito pela Justiça Militar, o juiz escreveu em sua sentença que a vítima “nada fez para se ver livre da situação” e que “não reagiu”. No entendimento do magistrado, assim, “não houve violência”, segundo a sentença. “Não houve nenhuma violência ou ameaça”, escreveu ele. “A vítima poderia sim resistir à prática do fato libidinoso, mas não o fez”.

A cultura do estupro é algo que está entranhado em nossa sociedade e sustenta as bases da nossa cultura. A mulher, vista como coisa ou produto, é fruto de uma política de Estado que até umas décadas atrás não tratava a mulher como um sujeito de direitos, ou como foi noticiado recentemente, não permitia nem mesmo que uma mulher coloque um DIU sem a autorização do marido.

Dificuldade de interpretação

Ao analisar o texto, entende-se porque ele é usado na sala de aula de uma escola. O texto, busca provocar os estudantes acerca da realidade das mulheres na nossa sociedade. E dizer que o estupro é uma prática de Estado que não busca criar mecanismos para combater e punir quem o pratica.

Porque o Estado, o Juiz, a Polícia e o Presidente? Na maioria das vezes, esses são cargos ocupados por homens. Homens que mesmo diante das evidências quando acontece um crime sexual, preferem culpar a mulher a dar um suporte que a ajude a superar a violência que ela sofreu.

Uma cortina de fumaça

No fundo, as vozes indignadas com o uso de um texto na sala de aula, não busca refletir os problemas reais da escola. Falta de estrutura, de reconhecimento, de boa remuneração para os profissionais de Educação e salas superlotadas.

Dos vereadores que usaram a tribuna, apenas 1 votou contra o Sampaprev 2. Todos os outros votaram por um desconto maior do salário dos servidores públicos, bem como votam anualmente favorável a política do 0,01%.
Esses vereadores não estão preocupados de fato com a Educação ou com nossos estudantes, apenas querem acenar para suas bases conservadoras que se alimentam dessas polêmicas vazias.

Tribuna da Câmara como palanque eleitoral

Ao fim e ao cabo, o interesses de certos parlamentares é usar a tribuna da Câmara Municipal como palanque eleitoral nas eleições de outubro. Um deles, o mais teatral de todos, gritou, gesticulou, interpretou o parlamentar representante da família brasileira indignado com a Educação de nossas crianças e jovens.

Balela! O bolsonarista não tão arrependido assim, foi sinalizar para a sua turminha que continua fiel a suas pautas bizarras e conservadoras. Aproveitou para dizer que defende o tal homeschooling e o escola sem partido, pautas dos lunáticos que não cansam a atacar a Educação pública.

Un violador en tu camino

 Un violador en tu camino (em português: Um estuprador em seu caminho), também conhecida como O estuprador é você, é uma performance feminista que protesta sobre a violência contra a mulher. O número já foi apresentado na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa. O nome da performance é uma referência ao slogan Un amigo en tu camino, utilizado pela polícia ostensiva Carabineiros do Chile na década de 1990.

Baseada no trabalho de Rita Laura Segato, a obra foi criada pelo coletivo feminista de Valparaíso Las Tesis, para ser apresentado no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, em 25 de novembro de 2019. Vídeos da performance se tornaram virais. Apresentações semelhantes foram realizadas no México, Colômbia, França, Espanha e Reino Unido. Milhares de mulheres apresentaram a peça na Praça da Constituição, no México, em 29 de novembro de 2019.

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