Republicado da Revista Cidadanista

Por Fernanda Patrocínio

Criado em 2013, o projeto TransEmprego tem como foco a empregabilidade de transgêneros no Brasil

Um exercício mental prático: quantas pessoas gays, lésbicas ou bissexuais trabalham com você? “Se eu olho para LGBTs, eles também estão em cargos de liderança, mas não necessariamente se assumem no ambiente de trabalho. Nem sempre falam sobre a sua orientação sexual e, mesmo quando falam, são muito comuns as situações de preconceito e todo tipo de violência nas organizações”, alerta Ricardo Sales, consultor da Mais Diversidade. Retomando o exercício mental: e quantas pessoas trans trabalham com você? “E se a gente fizer o recorte pensando nas pessoas trans aí, de fato, temos uma exclusão muitíssimo grande”, ressalta Sales. 

Os números não mentem essa realidade, pois, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a partir do estudo Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2017, “90% de travestis e transexuais utilizam a prostituição como fonte de renda e possibilidade de subsistência”. Além disso, 13 anos é a idade média em que travestis e pessoas transgêneras são expulsas de casa. Segundo dados do projeto Além do Arco-Íris, da AfroReggae, apenas 0,02% dos trans estão na universidade, 72% não possuem o Ensino Médio e 56% não concluíram o Ensino Fundamental. Dentre as consequências desse quadro, que reflete exclusão social, familiar e escolar, relacionam-se às dificuldades de inserção de travestis e pessoas transgêneras no mercado formal de trabalho. 

“ISSO SE DÁ PORQUE ANTES  SÓ HAVIA EXCLUSÃO. AO MESMO TEMPO EM QUE ESTE FATO ‘É UMA ALEGRIA, REVELA TAMBÉM O ATRASO. HÁ PESSOAS QUE MORRERÃO  SEM TER DIREITO AO EMPREGO”

INCLUSÃO É A CHAVE 

Iniciativas como o TransEmpregos auxiliam na inserção da população trans e não binária em empresas. Criado em 2013, o projeto tem como foco a empregabilidade de pessoas transgêneras, fazendo a intermediação entre candidatos e empresas, bem como preparando empresas e corporações para praticar a inclusão, de fato. Maitê Schneider, consultora de diversidade e uma das fundadoras do TransEmpregos, conta que, há 16 anos, em Curitiba, ela fundou a ONG Transgrupo Marcela Braga e que, por intermédio deste grupo, houve incentivo para cursinhos preparatórios exclusivos para pessoas trans. “Elas começaram a estudar, terminaram o Ensino Fundamental, Médio e também as graduações. Só que começaram a reclamar de um problema: apesar das qualificações educacionais, nas mais diversas áreas, não havia emprego/acesso a elas”. E desse problema, após diálogos entre Schneider e nomes como Márcia Rocha e Laerte Coutinho, surgiu a ideia do TransEmpregos. 

Ao dialogarem com as empresas, a consultora afirma que era comum ouvir respostas como: “Não sabia que tinha gente qualificada” e “Achei que todas eram prostitutas”, numa reprodução de estigmas e preconceitos. Ela cita, em alguns casos, que há homens e mulheres trans que têm conseguido seu primeiro emprego formal somente agora, com mais de 50 anos. “Isso se dá porque antes só havia exclusão. Ao mesmo tempo em que este fato é uma alegria, revela também o atraso. Há pessoas que morrerão sem ter direito ao emprego”, afirma. 

O trabalho do TransEmpregos hoje se dá em três movimentos. O primeiro é receber currículos de pessoas trans gratuitamente (é possível fazer o cadastro no site www.transempregos.com.br) e fazer essa ponte com as empresas que estejam aptas para a inclusão. É muito importante que a organização esteja pronta. É aí que entra o segundo movimento da TransEmpregos, que é a realização de consultorias para preparar as empresas a serem inclusivas, na prática, e não somente no discurso. “Dialogamos com CEOs, lideranças e funcionários para estarem lidando com a diversidade humana e a variedade de pessoas”, explica a fundadora. Este trabalho demanda tempo e, só depois que a empresa está pronta é feita a ponte entre candidato e organização. O terceiro movimento da TransEmpregos vai além da empregabilidade. “As próprias empresas querem ir além, pois sabem que diversidade traz inovação. Quando a meta é a criatividade, traz retorno produtivo para a empresa”, afirma Schneider. “As empresas estão mudando realidades sociais, cada uma dentro de suas missões e seus valores, trazendo um novo pensamento para melhorar o entorno social”, elucida.

 

Ensinar e/ ou aprender: potencialidades da teoria e da prática

Para falar em educação é necessário recuperar o educador e filósofo Paulo Freire, que defendia que “não há docência sem discência”, na obra Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, cuja primeira edição foi publicada em 1996. Ambos os processos se complementam, e a prática docente consiste basicamente em se ter humildade de reconhecer que não se sabe tudo, e sabedoria de reconhecer que se aprende quando se transfere conhecimentos. 

A grande dificuldade atribuída aos que decidem pela carreira da docência, em especial aos que optam por atender ao ensino público, é a de instigar a curiosidade e o senso crítico dos discentes, cada vez mais apáticos frente às adversidades e às poucas perspectivas de um futuro melhor ou mais interessante. 

Mas o que pode motivar os mais jovens a aderirem ao processo de aprendizagem? Há muito tempo, a educação deixou de ser prioridade a muitos indivíduos, em alguns casos por falta de recursos financeiros, ou por ter outras prioridades, ou mesmo por não perceberem o quanto isso pode agregar valor, especialmente aos considerados millennials. Conforme definição adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e Banco Mundial, estes se constituem em indivíduos que estão na faixa etária de 15 a 24 anos de idade. No Brasil, no entanto, jovem é todo aquele que está na idade entre 15 e 29 anos, de acordo com o Estatuto da Juventude, conforme Lei n. 12.852/2013. 

Embora se admita que as gerações não podem ser limitadas à idade do indivíduo, esta variável tem sido considerada para determinar o público-alvo em alguns estudos. Pesquisa do IBGE, como a pesquisa PNAD Contínua de 2017, apurou que 23% dos jovens na faixa etária de 15 a 29 anos nem trabalhavam, nem estudavam e nem buscavam uma colocação profissional. Esse percentual vem aumentando nos últimos anos, pois em 2016 era de 21,8%. Condições educacionais pouco atraentes aos alunos, por exemplo, têm favorecido a formação de uma geração conhecida por “nem, nem, nem”; ou seja, que nem estuda, nem trabalha, nem busca emprego. 

Outra pesquisa realizada na América Latina e no Caribe pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre 2017 e 2018, com jovens residentes em áreas urbanas, de 15 a 24 anos de idade, verificou a mesma condição de jovens ‘ociosos’, não que isso seja uma opção pessoal. Isso ocorre, em sua maioria, com mulheres, de baixa renda, baixa escolaridade e por esses atributos não conseguem “Entre ensinar e aprender é preciso cultivar as duas práticas!” uma colocação profissional. Entre nove países pesquisados pelo Ipea, os piores indicadores ficam com os brasileiros e chilenos. 

Para os jovens que nem estudam e nem trabalham, embora estejam na faixa economicamente ativa, resta depender de apoio familiar. E quanto menor a escolaridade dos pais, menos estes estimulam seus filhos para os estudos regulares e/ou técnicos para que possam conquistar sua independência financeira, o que resultaria em condições mais aprazíveis à família e mesmo para a economia local. 

Cabe ao professor garantir a atenção e interesses de jovens que se enquadram nesse contexto e frequentam a escola, em diferentes níveis, do Ensino Fundamental ao Superior. O docente tem de estar disposto a lidar com as diferenças individuais e entusiasmado a agregar conhecimentos; ao mesmo tempo que é desafiado a promover o interesse dos discentes, que nem sempre estão dispostos a adquirir novos hábitos. 

Para que isso se efetive, é preciso oferecer aos docentes melhor remuneração, mais oportunidades de qualificação, aquisição de conteúdos e aperfeiçoamentos (teorias), bem como autonomia para o exercício didático (práticas). Para reduzir as desigualdades não se pode também pensar a educação à parte do poder público, pois estão estreitamente relacionados, principalmente quando se pensa em inovação curricular associada ao desenvolvimento profissional. Entre ensinar e aprender é preciso cultivar as duas práticas!

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